café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

Horses: o álbum de Patti Smith e Robert Mapplethorpe

Conhecer a história de Patti Smith é tornar-se íntimo de sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. O álbum Horses, lançado em dezembro de 1975, é o maior símbolo da intensa relação que existiu entre os dois e, obviamente, um dos pontos principais da história do Punk Rock.


patti-smith-robert-mapplethorpe-homotography-6.jpg Hotel Chelsea, 1970

“Nunca houve dúvida de que Robert faria meu retrato para a capa de Horses, minha espada sonora embainhada por uma imagem de Robert. Eu não fazia ideia de como ficaria, apenas que deveria ser verdadeira. A única coisa que eu prometi a Robert foi que eu usaria uma camisa branca sem nenhuma mancha.”

Patti Smith nasceu artista em 1946 e desde criança tinha sensibilidade para captar os menores detalhes que a cercavam. Transformava suas reflexões em imaginação infantil, e ao mesmo tempo revoltava-se contra as imposições da vida social. Não se conformava com as advertências da mãe quando resolvia sair para brincar sem camiseta num dia de calor, com as vitrines vendendo ilusões; Lia constantemente sobre arte e sonhava encontrar um companheiro que a fizesse ter uma vida de artista tal como Frida Kahlo e Diego Rivera.

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Robert Mapplethorpe nasceu artista em 1946 e gostava de desenhar, pintar e criar arte com miçangas. Teve uma infância reprimida e durante a adolescência fazia o possível para não desapontar os pais que impunham e predestinavam sua vida.

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Patti e Robert começaram a buscar uma liberdade que estava “na moda” no final da década de 60. Patti no auge de seus vinte anos engravidou e teve seu bebê no aniversário do bombardeio de Guernica. Sem ter condição de criar seu filho, o colocou para adoção e isso impulsionou o seu desejo de sair de sua cidade e partir para Nova York como uma válvula de escape do tormento que havia tomado conta de sua vida.

Robert nessa mesma época experimentava LSD e utilizava o ácido para realizar seus trabalhos.

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Foi no verão de 1967 que os dois se conheceram. Depois de dormir na rua e passar fome na cidade, Patti arranjou um emprego como caixa de uma livraria que também vendia joias, em especial um colar persa que ela adorava! Foi durante o expediente que Patti vendeu essa peça para Robert e justamente nesse dia ela o reconheceu como futuro companheiro. A relação dos dois desatinou depois de uma situação inusitada: um dos clientes da livraria resolveu convida-la para um passeio com possíveis segundas intenções numa praça. Quando os dois chegaram ao local, Patti viu Robert de longe e resolveu pedir ajuda. Perguntou se ele podia se apresentar como namorado dela para o cliente, a fim de escapar daquela situação desagradável. Robert ajudou naturalmente e depois disso, os dois saíram correndo do local direto para o que os aguardava: uma relação intensa baseada no companheirismo e na arte com todos os altos e baixos de quem se dispõe a viver disso. Algo digno de Frida e Diego, fato!

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Patti chegou a romper com Robert no início do relacionamento e largou NY para ir pra Paris com a irmã numa época em que Rimbaud começava a tomar conta de sua vida poética. Quando retornou para os EUA, voltou a morar com Robert que estava doente e no ápice de suas descobertas sexuais que mais tarde influenciariam seu trabalho. A solução para ajudar seu parceiro de vida era arranjar um local pra morar e o único que oferecia essa possibilidade era o Chelsea Hotel (sim, o famoso e decadente) onde o dono trocava arte por um quarto dependendo do talento da pessoa. Patti conseguiu um espaço pequeno depois de mostrar alguns de seus desenhos e por ali ficou até Robert se recuperar. O Chelsea Hotel foi um divisor de águas para o casal!

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Ali, a atmosfera que se perpetuava na virada da década de 60 para 70 era personificada. Patti e Robert foram tornando-se parte da cena cultural de Nova York muito antes da fama que os aguardava. Nessa época era comum ir ao show do The Doors, por exemplo. Patti conversava com Janis Joplin nos botecos da vida, esbarrava na Grace Slick e chegou a receber conselhos de Jimi Hendrix. Robert almejava fazer parte do circuito de Andy Warhol enquanto Patti desabafava com William Burroughs nas escadarias da cidade.

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Ambos produziam cada vez mais trabalhos voltados para instalações artísticas, fotografia e poesia. Passavam fome, buscavam empregos, cuidavam um do outro e se apoiavam com o intuito de sempre agregar arte a tudo que os cercava! Foram crescendo e descobrindo novas diretrizes sociais e emocionais até chegarem ao ponto de tornarem-se uma pessoa só. Amavam-se e permitiam-se ter a liberdade de conhecer outras pessoas. Depois que Robert se recuperou, a fissura por misturar sexo com arte foi aumentando! No início da década de 70 ele conciliava isso com a vida de garoto de programa que às vezes era necessária para conseguir algum dinheiro e Patti fazia participações em algumas peças de teatro, além de escrever resenhas de discos para revistas. Nos bastidores, Robert incentivava Patti a escrever poemas e depois de um tempo, a cantar o que sentia.

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Conforme a década de 70 ia passando, os dois seguiam rumos divergentes. Robert conheceu Sam Wagstaff que o impulsionou a focar sua vida artística na fotografia. Patti conheceu Allen Lanier, integrante da banda Blue Oyster Cult e logo passou a ter uma relação romântica com o músico. Apesar de estarem envolvidos com outras pessoas, Patti e Robert nunca se abandonaram e sempre participaram intensamente da vida artística um do outro. Aos 26 anos Patti viajou novamente para Paris a fim de visitar o museu de Rimbaud e ter um contato mais próximo com seu ídolo. Robert investia cada vez mais na fotografia e começara a planejar suas primeiras exposições com a temática sexual.

Quando retornou para NY, Patti se apresentou com Lenny Kaye – futuro integrante principal de sua banda – com o “Rock and Rimbaud”: uma mistura de poesia e música. Patti estava tão imersa em seus poemas que, com o apoio de Gerard Malanga, já havia publicado dois pequenos livros. À medida que Patti ia apresentando seus poemas com o apoio da guitarra de Lenny, sua futura banda ia se formando e suas composições se aperfeiçoando. No CBGB Patti conheceu Tom Verlaine e a banda Television e por ter em comum a paixão por Rimbaud, os dois se aproximaram e começaram a produzir juntos.

Certa de que a música seria o caminho ideal para expor sua arte (mas sem abandonar a poesia), Patti começou a trabalhar em seu primeiro compacto no estúdio Eletric Lady e em homenagem a Jimi Hendrix, em um dos lados ela gravou uma versão de Hey Joe e no outro, Piss Factory – poema musicado sobre sua mudança para NY quando saiu de casa. Além de Lenny, Patti contava com a colaboração de Richard Sohl nos teclados e com Robert na produção. Seu envolvimento com as drogas começou nessa fase: primeiro a maconha, depois o haxixe e por fim o LSD. Perto de Robert, Patti era uma novata nesse assunto.

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O que viria a ser o álbum Horses já estava quase pronto porque a maioria das faixas era baseada em poemas que Patti havia escrito no decorrer dos anos, muito influenciada por Robert. O CBGB já adotara a banda de Patti que agora contava com Ivan Kral na guitarra e o sucesso “Gloria” tomava forma com uma mescla entre versos de seu poema “Oath”, como a épica frase “Jesus died for somebody's sins but not mine” e um clássico de Van Morrison.

No dia 2 de setembro de 1975, Patti entrou no mesmo estúdio Eletric Lady para gravar Horses com o apoio de Lenny, Richard, Ivan e Jay Dee. O produtor dessa vez era John Cale (ex-Velvet Underground) e depois de cinco semanas, a conclusão de tudo aquilo que Patti acreditava ficou pronto. A faixa “Birdland” conta a história de Peter Reich esperando seu pai descer do céu; “Break it up” é a parceria de Patti com Tom Verlaine (Television) sobre Jim Morrison; “Elegie” é um resgate ao passado somado ao futuro; “Kimberly” uma referência a sua irmã caçula; “My Generation” é uma versão punk do clássico da banda The Who.

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A capa do álbum ficou por conta de Robert, obviamente. Ele era o fotografo oficial dela e já havia feito a capa de seu último livro. Misturando o profissional com o emocional, ele conseguiu capturar a essência de uma geração inteira. Patti não tinha a intenção de revolucionar ou causar algum impacto intencional com o seu visual andrógino: o que vemos na foto é uma artista veterana de Nova York, poeta, fã de Rimbaud, amiga de Burroughs e amante incondicional de Robert Mapplethorpe:

“Joguei o paletó no ombro, tipo Frank Sinatra. Eu era cheia de referências. Ele era cheio de luzes e sombras (...) Fez mais algumas fotos. - Consegui. - Como você sabe? - Eu simplesmente sei. Ele fez doze fotos naquele dia. Em poucos dias me mostrou um contato. ‘Essa aqui tem a mágica’, ele disse. Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois.”

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Após o lançamento do álbum, Patti e seu grupo caíram na estrada para fazer shows incansáveis pelo mundo. Apesar da distância, ela e Robert nunca se afastaram. A fidelidade que existia entre os dois era algo extremamente resistente a qualquer coisa! Eram mais que amigos, amantes, confidentes e coisas do gênero. Conforme os anos foram passando, ele tornou-se um fotografo renomado e ela, o símbolo do punk rock: ambos artistas revolucionários!

Em 1986 Robert foi diagnosticado com aids e Patti estava grávida de seu segundo filho. O desejo dela era ser fotografada por ele para a capa de Dream e durante esse ano, em meio a tratamentos e perdas, ele a fotografou diversas vezes! Sam, o parceiro de Robert, havia morrido e um ano depois, o ídolo Andy Warhol também.

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A situação de Robert começou a se agravar em 1987 e contraditoriamente, Patti trouxe ao mundo uma nova vida, sua filha Jesse Smith. O último retrato feito por ele mostra Patti com sua bebê no colo – Robert dizia que a filha de Patti era perfeita e lamentava nunca ter tido nenhum filho com ela. Patti retrucava afirmando que os filhos deles foram os trabalhos.

Conforme Robert tomava consciência de que estava morrendo, Patti sentia-se cada vez mais incentivada a viver. Infelizmente, quando ele morreu no dia 9 de março de 1989, ela não estava por perto. O que ela chamou de “louca sensação” permaneceu por dias com ela. Permanece, na verdade, até hoje.

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“Peguei meus mocassins e caminhei pela beira d’água (...) Nesse trecho fora do tempo, fiquei parada. De repente eu o vi, seus olhos verdes, seus cachos castanhos. Ouvi a voz dele acima das gaivotas, a risada infantil e o rumor das ondas. Sorria para mim, Patti, como estou sorrindo para você.”

Leitura obrigatória:

Só para garotos - Patti Smith Editora Companhia das Letras


Fernanda Pacheco

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