café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

Uma pergunta sobre Fellini

O poeta do cinema por treze diretores.


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O livro A arte da visão nada mais é do que uma entrevista realizada com Federico Fellini em seu estúdio no mês de abril de 1993, pouco antes de sua morte. A conversa foi organizada por Goffredo Fofi e Gianni Volpi um mês depois de Fellini receber o Oscar pelo conjunto da obra e, como mais uma homenagem, treze diretores renomados se dispuseram a responder algumas perguntas referentes à influência de Fellini em suas respectivas carreiras. Tais respostas aparecem no mesmo livro que além de tudo oferece também a filmografia do diretor comentada por ele mesmo! Uma delícia.

Aqui selecionei apenas uma resposta de cada cineasta como aperitivo.

Woody Allen

Você acha que foi particularmente influenciado pelo cinema de Fellini? De que modo? É difícil dizer isso. Existem cineastas - e ele é um deles - que influenciaram todo mundo. Em cada expressão artística, existem poucos mestres. É assim também no cinema; e são eles que, direta ou indiretamente, contribuem para o conjunto do "vocabulário" do cinema, formando a base da qual todos partem. Fellini certamente deu uma contribuição de grande originalidade.

Miloš Forman

O senhor acredita que os filmes de Fellini são muito datados, muito ligados a uma geração? Graças a Deus são filmes do seu tempo, da sua geração, da sua vida, da sua gente, da sua personalidade. É por isso que qualquer um, em qualquer parte do mundo, pode apreciá-los. Os seus filmes são para sempre, serão para sempre atuais. Existem filmes feitos ontem que já estão velhos, já "fora de moda", se comparando aos de Fellini, tornados verdadeiramente imortais.

Robert Altman

De qual filme dele você se sente mais próximo? Dos filmes dele, A doce vida é o que mais me impressionou. Provavelmente é o mais próximo do tipo de cinema que faço. No fundo, também Short cuts - Cenas da vida faz lembrar aquela experiência; tanto é verdade que alguns amigos que viram o filme, não ainda em sua versão final, me disseram que lhes trazia à memória exatamente A doce vida. E é o melhor elogio que poderiam me fazer.

Sidney Lumet

O que Fellini representa para o senhor? Para mim, Fellini é o poeta visual por excelência, é o poeta do cinema. Tenho a honra de ter o mesmo ofício que ele. Fellini é uma fonte de inspiração, enquanto mostra até que ponto um filme pode chegar, que coisa extraordinária pode ser. Nós trabalhamos de maneira muito diferente; repito, ele é um poeta, e eu sou apenas um diretor muito prosaico, muito realista. Ele é único a cada vez que nos faz ver o que o mundo que sabe representar nos filmes é sem limites, que o cinema é sem limites. Hoje, nos Estados Unidos, em Nova York, onde existem oito locais que exibiam filmes europeus e só sobraram dois, tem sempre menos espaço para os artistas. Mas os filmes italianos mudaram o jeito de se fazer um filme, a concepção do cinema. Rossellini, Fellini, Rosi mudaram a nossa vida.

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Paul Mazursky

Existe para o senhor um filme de Fellini que seja inesquecível? Os boas-vidas é um dos filmes de Fellini de que mais gosto, junto de A estrada da vida e Noites de Cabíria. Fiz meus filhos, quando cresceram, assistirem a este último, porque acredito que é importante para os jovens desta geração ver esse filme. Na verdade, por motivos diferentes, gosto de todos os filmes de Fellini. Amarcord é excepcional, jamais esquecerei quando o pavão abre sua cauda. Acho espetacular, em E la nave va, a cena do navio que afunda. Ginger e Fred também é um filme maravilhoso. Assim como a cena das freiras que patinam na estrada. Como Broderick Crawford fazendo-se passar por um vigário, falso e charlatão, em Os boas-vidas, que, todavia, não foi um sucesso. Todos os seus filmes são extremamente sugestivos.

John Frankenheimer

Qual foi o filme de Fellini que mais o impressionou? Sendo eu um diretor, o filme que mais me impressionou foi 8 1/2. Porque é um filme que fala de mim, das pessoas que fazem cinema. Acredito que, para um diretor, esse é o mais belo filme já feito. Fellini poderia ser definido como um gênio, ainda que eu não ame usar a palavra gênio, porque é um termo um pouco inflacionado. Fellini domina de modo absoluto o material cinematográfico. Tem um controle total de cada elemento. Nenhum outro pode fazer o que Fellini faz, nenhuma sabe utilizar atores como ele. É um grande diretor e o seus filmes são extraordinários, têm realmente um estilo pessoal. Não parecem aqueles filmes produzidos em Hollywood(...)

Jim Jarmusch

Que imagem de cineasta Fellini representa para o senhor? Fellini, para mim, é o raríssimo exemplo de diretor capaz de transferir a sua fantasia para a tela. Os seus filmes são como confissões, não obsessivas, mas fantásticas, como as de uma criança; não são nem um pouco centrados nele, são plenos de fantasia, de imaginação. Fellini é muito pessoal, muito particular: é esta, para mim, a coisa mais importante. Se você vê um filme de Fellini, sabe imediatamente que é Fellini.

Spike Lee

O que atrai o senhor nos filmes de Fellini? Acho que é o seu senso da realidade. Ele cria o seu mundo. É extraordinário. É um dos mestres, um dos gigantes do cinema.

John Landis

Quando o senhor encontrou Fellini pela primeira vez? Eu estava em Roma para promover um filme meu, Um lobisomem americano em Londres, e, na ocasião, foi programado um almoço com Fellini. Um encontro excitante, porque Federico é um dos meus ídolos. Naquela época, minha mulher estava grávida de minha filha e, durante todo o almoço, Fellini segurou sua mão. Desde então, minha mulher o adora. Foi uma experiência gratificante, extraordinária. Muitas vezes os artistas são arrogantes, cheios de si e, quando os encontramos, ficamos receosos porque têm uma postura de grandes artistas. Mas, acredite, embora seja um grande artista, ele conseguiu se manter autêntico.

Oliver Stone

Quais são as razões do sucesso de Fellini? Um diretor se afirma internacionalmente porque sabe tocar o fundo do espírito humano. Fellini é o maior diretor italiano. Comparado com Antonioni, que tinha uma estética que diria nórdica, Fellini é mais mediterrâneo. Nem eu nem o cinema internacional seríamos o que somos se não fosse Federico Fellini; ele criou um novo vocabulário cinematográfico(...)

Adrian Lyne

Que lembrança o senhor tem dos filmes de Fellini? Vi quase todos. Mas recordo de um particular, ainda que não seja um exemplo muito apropriado. Na noite em que fui ver Julieta dos espíritos, estava terrivelmente cansado. Nos primeiros 25 minutos, pensei que aquele filme era o mais bonito que eu já tinha visto, um filme extraordinário. Em seguida, caí no sono; em todo caso, os primeiros 25 minutos são extraordinários. O filme de Fellini que eu prefiro é Amarcord. Recordo, em particular, da cena do rapaz que, em sala de aula, mija num longo tubo feito de folhas de papel enroladas, e, para onde quer que se olhe, se veem pernas de rapazes. É uma das cenas mais divertidas que já vi.

Constantin Costa-Gavras

A partir da sua visão de diretor, quais são as características que fizeram com que Fellini ultrapassasse as fronteiras nacionais e europeias? Acho que é o fato de Fellini utilizar elementos muito pessoais. É um homem, um artista que, sobre esse alicerce, instaura uma relação direta com o seu público: ele diz quem é, o que pensa, como vê a coisa, conta como os seres humanos podem ser divertidos e extraordinários, aspectos que interesam a todos. Não existe um clichê nos filmes de Fellini, não há nada já visto. São filmes únicos.

Louis Malle

Como o senhor conheceu Fellini? Fellini era o rei da Cinecittà. Em qualquer momento, se você fosse a Roma, ouviria dizer que Fellini estava rodando um filme e seria possível encontrá-lo. Fellini é sempre muito gentil, gosta de ser o guia das pessoas. Eu era mais jovem que ele e achava sua generosidade, sua cordialidade fascinantes, parecia que o tempo não importava. Tinha sempre gente em volta a adorá-lo. Fellini era como todo jovem diretor gostaria de ser, mas sabíamos que existia apenas um Fellini e não seria possível existir outro. É um artista absolutamente original, com um lugar reservado na história do cinema: um dos poucos diretores realmente grandes.


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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