café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

The Big Shave: o início de Scorsese

Antes de conhecermos Martin Scorsese, ele já era dono de uma identidade visual única. Em 1967, ainda na faculdade, ele fez "The Big Shave" - um curta-metragem crítico e não recomendado para os mais sensíveis.


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Era uma vez um jovem chamado Martin Scorsese. Ele estava terminando a faculdade de cinema na Universidade de Nova York quando dirigiu seu primeiro curta-metragem renomado de quase seis minutos em 1967 para um trabalho de conclusão de curso. Este trabalho também fez parte de uma espécie de semana de arte que era contra a desgraça que estava acontecendo no Vietnã.

O curta ganhou o nome de "The Big Shave" [e de "Viet ’67"] e foi lançando pelo resto do mundo em 1968. Nele, o personagem principal (Peter Bernuth) entra no banheiro para se barbear. A princípio, o curta demonstra um possível tédio cortando para os objetos que indicam que a cena se passará em um banheiro. O detalhe principal: tudo é extremamente branco dando uma sensação de tranquilidade e paz - isso fará um contraste grande mais tarde.

A trilha sonora é um clássico do jazz de 1937 chamado "I can't get started" de Bunny Berigan. É com essa música simpática que o personagem entra todo robusto para se barbear e para completar o cenário daquele curta-metragem que apresentou ao mundo a identidade visual de Scorsese e sua característica sanguinolenta.

Era uma vez um banheiro imaculado e um homem saudável se barbeando. Seria um tédio se o personagem não começasse a se mutilar! Pois é. Ele começa a passar a gilete no rosto incansavelmente e você vê aquele sangue todo escorrendo e pingando na pia branca e limpa. Chega a dar um certo mal estar e por isso não recomendo àqueles de estômago fraco! Aflição nesse caso é pouco.

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Não, não é uma violência gratuita - principalmente porque trata-se de um Scorsese. Como eu disse lá no início, o curta é uma crítica contra a guerra do Vietnã. O suposto "american way of life" é invadido pelo sangue derramado pela guerra. É o vermelho tomando conta do branco e o desmanchar de uma alienação que era imposta pela política da época.

Em quase seis minutos o genial cineasta, com seus vinte e cinco anos, soube desconstruir uma guerra e critica-la de forma explicitamente simples e objetiva.


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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