café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

ADAPTAÇÃO LIVRE DE 'CRIME E CASTIGO' MOSTRA QUE O CAZAQUISTÃO NÃO FAZ APENAS FILMES 'ÉTNICOS'

Filme que precisa ter mais repercussão: "Estudante" (Student, Cazaquistão, 2012), dirigido por Darezhan Omyrbayev. Um estudante de filosofia sem nome aluga um quarto no porão de uma senhora que mora num bairro afastado, sofrendo com a falta de dinheiro e a solidão. Um dia, ele decide assaltar a loja de conveniências mais próxima, onde ele compra pão de vez em quando. As coisas não vão como planejadas e ele acaba cometendo um sério crime. Sem ninguém para lhe ajudar, a sensação de culpa cresce em sua cabeça.


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Uma matéria feita por Chico Fireman deveria ser mais divulgada. Essa matéria saiu no site da UOL em 2012 e até hoje (09/06/13) não teve nenhum comentário por lá ou repercussão merecida no mundo dos cinéfilos que gostam do cinema e literatura. Apesar de que sabemos de outros filmes mais que receberam essa recepção injusta. Na UOL, Fireman comenta sobre uma adaptação livre de "Crime e Castigo" que mostra que o Cazaquistão não faz apenas filmes "étnicos".

Estou me referindo ao filme "Estudante" (Student), dirigido por Darezhan Omyrbayev. Segundo Fireman, a produção cinematográfica do Cazaquistão (e dos países vizinhos), no entanto, não se resume ao cinema de caráter mais folclórico. A prova está nos minutos iniciais desse filme que fez parte da Perspectiva Internacional da Mostra de Cinema de 2012. A sequência de abertura do longa mostra os bastidores de uma filmagem, um prólogo que pouco conversa com a história do filme, mas onde o diretor parece fazer questão de mostrar que o Cazaquistão é um país que produz cinema - e que o cinema feito por lá pode ser urbano e contemporâneo.

A cena inicial serve para revelar o protagonista do filme “Estudante”, um estudante de filosofia sem nome que é testemunha dos desmandos do poder, numa adaptação livre de um dos maiores clássicos da literatura mundial, "Crime e Castigo", do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Nas imagens que vêm a seguir, o diretor retrata um Cazaquistão imponente, que segue as regras do capitalismo que venceu a "mãe Rússia": prédios colossais, avenidas largas, carros luxuosos que contrastam com a realidade de pobreza do personagem principal.

Omirbayev pinta o país como uma terra sem lei, onde o ato do estudante é um ato de revolta, de rebeldia contra o status quo, mas, como no texto de Dostoiévski, uma atitude que desencadeia uma crise pessoal. Refém da própria culpa, o protagonista tenta compensar um mundo que desconhece seu crime pelo erro que cometeu.

Adaptar clássicos russos não é novidade para o cineasta. "Shuga", de 2007, é uma releitura de "Anna Karenina", de Tolstoi e o curta "Sobre o Amor", de 2006, tem por base um original de Tchekhov. Com "Estudante" e sua sincronia com os pesadelos de um mundo contemporâneo, Omirbayev desvincula o cinema feito no Cazaquistão do produto globalizado que se esperar de países "exóticos" e conversa com uma produção cinematográfica interessada em temas, estes sim, universais. O site do “Festival Cannes” diz que Omirbayev tornou-se o émulo dos clássicos da literatura russa.

Procurando mais sobre o diretor, encontrei um comentário no próprio site do “Festival Cannes”, onde o Omirbayez afirma ter-se empenhado em seguir o mais fielmente possível a estrutura narrativa do romance, bem como os tormentos psicológicos do jovem Raskolnikov (personagem do livro “Crime e castigo”), estudante cuja condição financeira modesta o levará a cometer um duplo crime. Para o cineasta, o comportamento do protagonista de “Crime e castigo” eclode em reação à chegada do capitalismo ao seio de uma sociedade russa à beira da impulsão. "É, aliás, o que faz de Raskolnikov um personagem muito contemporâneo", salienta o realizador numa entrevista concedida aos Cahiers du cinéma.

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Darezhan Omirbayev vê igualmente na obra de Dostoiévski um espelho perfeito do estado de saúde atual da sociedade cazaque. "Interessei-me por este romance porque o período histórico em que foi escrito e o período que vivemos hoje no Cazaquistão é muito parecido", precisou o cineasta que confiou o papel principal do seu filme a um dos seus alunos na Academia de Artes de Almaty, onde ensina a arte da realização.

O cinema de Darezhan Omirbayev está impregnado de rigor e de poesia, características assumidas pelo próprio realizador e que transpiram em toda a sua filmografia. “Estudante” é o sexto longa-metragem, o terceiro selecionado para Un Certain Regard após “Tueur à gage” (1998 – Prémio Un Certain Regard/Fondation Gan) e The Road (2001).

O “Estudante” também venceu o Prêmio Especial do Júri – João Benard da Costa, da 6ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival (LEFFEST).

Estive pesquisando e acredito que não temos esse filme legendado em português. Encontrei poucas referências sobre ele, infelizmente. As melhores encontradas foram a do Chico Fireman e do Cannes. Enfim, espero logo termos esse filme disponível facilmente no Brasil.

Trailer do filme “Estudante”:


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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