café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

COMENTANDO O FILME 'MATCH POINT'

Descobri “Match Point", do cineasta Woody Allen, através de uma indicação de um amigo meu. Ele não quis me contar o porque, mas me disse que eu deveria assistir o tal filme. Ao assisti-lo, logo, percebi que se tratava de uma produção fortemente influenciada pelo escritor Dostoiévski, do romance “Crime e Castigo”, e faz referência diversas vezes a trechos do livro no filme. Adorei quando encontrei a visão dostoievskiana nessa obra fílmica, pois eu sou fã desse escritor russo. Acho que esse meu amigo pretendia me oferecer uma surpresa e realmente conseguiu atingir o seu propósito!


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Descobri “Match Point", do cineasta Woody Allen, através de uma indicação de um amigo meu. Ele não quis me contar o porque, mas me disse que eu deveria assistir o tal filme. Ao assisti-lo, logo, percebi que se tratava de uma produção fortemente influenciada pelo escritor Dostoiévski, do romance “Crime e Castigo”, e faz referência diversas vezes a trechos do livro no filme. Adorei quando encontrei a visão dostoievskiana nessa obra fílmica, pois eu sou fã desse escritor russo. Acho que esse meu amigo pretendia me oferecer uma surpresa e realmente conseguiu atingir o seu propósito!

No entanto, o diretor Woody Allen cria uma atmosfera elegante ao narrar uma história passada na classe alta londrina, diferentemente de Dostoiévski que desenvolve a sua trama numa Rússia de extrema dificuldade financeira.

Para não me prender muito ao enredo, já que facilmente pode ser encontrado na internet, o filme conta um evento em que um professor de tênis, Chris, conhece Chloe, uma jovem de família rica, e inicia um relacionamento um pouco antes dele se apaixonar por Nola, namorada do irmão de Chloe, com a qual mantém um caso amoroso paralelo. Interessado na fortuna da família de Chloe, Chris precisa se livrar de Nola, que fica grávida.

O romance do escritor russo é um texto sobre a devastação emocional provocada pela consciência culpada e ainda um belo trabalho sobre a compaixão, porém o telespectador não encontrará isso na história de Woody Allen, o qual não tem a intenção de produzir um trabalho fiel ao romance russo, mas, para quem já o leu, percebe algumas cenas gritantes da tal obra literária no filme, como o homicídio de uma idosa em um prédio velho e outro assassinato, logo em seguida, na escada e a culpa que o assassino sente depois do feito, a ponto de ter delírios com imagens das suas vítimas, lembrando bastante o personagem Raskólnikov do “Crime e castigo”.

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Há também, de maneira geral, uma associação com a ideia filosófica do trabalho de Dostoiévski: os interesses pessoais acima dos valores morais e éticos, quase como uma espécie de Niilismo, levando até a cometer absurdos para possuir o que deseja. O fim justifica os meios. Mas, não irei comentar muito sobre isso, para evitar spoiler tanto do livro como do próprio filme.

Contudo, foi preciso observar o filme sem me envolver muito emocionalmente, já que o diálogo com o “Crime e castigo” permeia as cenas constantemente, me deixando empolgado com a história. Assim, procurando o máximo de imparcialidade, percebi que o ponto negativo do filme é que mesmo algumas pessoas ficando impressionadas com o fato de que o filme tem uma introdução que prepara depois para um final inesperado, bastante esperto e sagaz, para mim não é o suficiente para perdoar uma história com alguns pontos gritantes de incongruências.

Exemplo dessas incongruências pode ser visto no começo da história, quando o professor de tênis (Chris) dá aulas para um rapaz rico (irmão de Chloe) que imediatamente, sem se conhecerem bem, o convida para sair à noite e depois para freqüentar sua casa. A partir daí, toda a ação do rapaz é absurda, como a aceitação dos pais dele em relação ao casamento do professor de tênis com a filha deles, a Chloe.

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Porém, saindo das inconsistências, é bom lembrar que se "Crime e castigo" é uma obra de redenção e de crise de consciência, "Match Point" assume que no século XXI a consciência não cumpre mais a função de julgar nossas ações. A brutal decisão de Chris para manter seu status social não encontra mais na consciência a denunciadora.

Não poderia deixar de comentar que, além dessa trama à lá Dostoiévski, o desfecho da história conta com um aliado: a sorte. Logo no início do filme um monólogo com sotaque irlandês se inicia: "O homem que disse: 'Eu prefiro ter sorte a ter bondade', viu profundamente a vida". Se muitos não acreditam que a sorte pode mover a vida de um homem, aqui vemos o contrário.

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“Match Point" foi mais uma produção da BBC, que também produziu em 2002 o filme “Crime e castigo” se baseando, dessa vez, com bastante fidelidade no romance de Dostoiévski e que atualmente está gravando ainda um novo trabalho cinematográfico para adaptar uma obra de outro escritor russo, o Tolstoi. Pelo visto a BBC gosta de filmes com inspirações, diretamente ou indiretamente, em obras literárias clássicas.

Enfim, entre pontos negativos e positivos, eu recomendo o filme!


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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