café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

O romance "A menina que roubava livros" já está no cinema

"A menina que roubava livros", de Markus Zusak, se tornou um best-seller. O livro ganhou edição especial com capa inspirada no pôster do filme, que estreia no Brasil nesta sexta-feira (31). Confira também as primeiras imagens da adaptação cinematográfica desse clássico absoluto.


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A Menina que Roubava Livros tem direção de Brian Percival (Downton Abbey). Na produção, a inesquecível Liesel Meminger é interpretada pela atriz franco-canadense Sophie Nélisse, estrela de Monsieur Lazhar, indicado ao Oscar. Geoffrey Rush (indicado ao Oscar por O discurso do Rei) e Emily Watson (Anna Karenina) viverão seus pais adotivos.

A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, se tornou um best-seller. O livro ganhou edição especial com capa inspirada no pôster do filme, que estreia no Brasil nesta sexta-feira (31).

Apesar de algumas pequenas alterações, filme honra memória dos leitores. Livro que inspirou longa teve mais de 8 milhões de cópias vendidas.

A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943.

Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve.

É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.

Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich.

Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto - e raro - de crítica e público.

livros.jpgCena de 'A menina que roubava livros'

“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler” - e pode parar para assistir. Parafrasear o slogan do best-seller “A menina que roubava livros”, que vendeu mais de 2 milhões de exemplares no Brasil e mais de 8 milhões pelo mundo, é a melhor maneira de descrever o resultado da adaptação cinematográfica homônima desse fenômeno literário.

Ainda que a narrativa audiovisual não apresente a mesma desenvoltura da Morte como narradora do livro do australiano Markus Zusak, o filme é instigante.

Para a satisfação dos leitores, A Menina que Roubava Livros (2013) também traz, ainda que de forma mais discreta, a “ceifadora de almas” ou a morte, narrando a história de Liesel Meminger (Sophie Nélisse).

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Para transformar as quase 500 páginas do livro nas mais de duas horas de filme, o roteirista Michael Petroni – responsável por “As crônicas de Nárnia: A viagem do peregrino da alvorada” (2010) – alterou a ordem dos acontecimentos, omitiu algumas passagens e inflou um personagem, atribuindo-lhe ações de outros que foram suprimidos do script.

Os fãs xiitas possivelmente reclamarão das mudanças, mas elas são necessárias em qualquer adaptação, pois se trata de outra linguagem. Talvez só uma minissérie seria capaz de abordar todas as subtramas e detalhes da narrativa literária. Das alterações realizadas, a mais interessante é a troca de “Dar de ombros” por “O homem invisível”, de H. G. Wells, como o livro roubado da fogueira, em uma irônica referência à entrada de Max no enredo.

As mais prejudiciais ao longa são a suavização no retrato dos horrores da guerra e a moralização excessiva ao omitir que Liesel e Rudy roubavam outras coisas além dos livros. Todo esse esforço desnecessário foi feito para adequar a produção a uma classificação etária mais baixa.

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Mesmo assim, pode-se dizer que Brian Percival, que já ganhou um Emmy por um dos episódios que dirigiu na série inglesa “Downton abbey”, faz de tudo para honrar a memória dos leitores.

Entretanto, sua pouca experiência em longas para o cinema – só havia feito “A boy called dad” (2009) – contribuiu para que o trabalho fosse tão conservador. Além de certa falta de ritmo em alguns momentos do filme, o diretor peca por não arriscar tanto quanto o autor Markus Zusak, que, usando seu lirismo, fez questão de revelar lampejos do destino final de seus personagens no decorrer do best-seller, com sua narrativa não-linear.

Abordar e até destacar o lado mais poético e humano da Morte, que costumava observar e descrever detalhadamente as cores do céu durante seu “serviço”, é um exemplo de outra ousadia que seria possível por parte da direção e da fotografia. Esta última é bem realizada por Florian Ballhaus e marcada pela sobriedade de tons, também presente na esmerada direção de arte. Outro destaque da elaborada produção é a trilha sonora de John Williams, que, apesar de soar melodramática em alguns momentos, traz o compositor mais inspirado do que nos trabalhos mais recentes, o que resultou na sua 49ª indicação ao Oscar e fez dele o maior recordista vivo neste quesito.

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O elenco também está afinado. Emily Watson convence no papel da mãe adotiva ranzinza, que, entre seus xingamentos, demonstra preocupação com a garota, enquanto o carisma de Geoffrey Rush serve perfeitamente para o papel deste pai afetuoso. E a canadense Sophie Nélisse, estreante em Hollywood, segura bem a responsabilidade de dar vida a esta protagonista com uma boa interpretação, ainda que não tão impressionante quanto a da sua estreia em “O que traz boas novas” (2011), produção do Canadá que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2012. Além disso, ela e Nico Liersch fazem da relação de Liesel e Rudy algo muito próximo do que se imagina através das páginas do livro.

Apesar dos problemas e da sensação de que seu potencial não é totalmente explorado, o saldo ainda é positivo, porque a adaptação cinematográfica consegue emular um pouco da essência da obra literária.

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Estão ali a importância da palavra quanto instrumento, paradoxalmente, de manipulação e de libertação, em especial na Alemanha nazista; a contradição do ser humano, capaz de praticar, ao mesmo tempo, atos de bondade e maldade; e o consequente sentimento expresso pela Morte e compartilhado pelo público, seja de leitores ou não, de pasmo e assombro em relação à humanidade.

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Fonte: as opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb, com adaptações.


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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