café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

Cinema para ensinar a ver

O fotógrafo Goldem Fonseca nos mostra uma lista legal de filmes e os relacionam com a fotografia, mas nada de temáticas já conhecidas como "a fotografia é a mãe do cinema" ou "dicas para diretor de fotografia", Fonseca usa o cinema só para lhe dizer: "afine o seu olhar".


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É interessante iniciar com Cinema as discussões sobre as relações da Fotografia com outros tipos de arte, pois o Cinema é e sempre foi considerado "a arte que engloba todas as outras". Cinema captura a imaginação, e toda imaginação é partidária de um conceito real. Como a Fotografia captura o real, as duas artes estão altamente ligadas, tanto na produção de obras como na apreciação.

Reconhecendo isso, o fotógrafo Goldem Fonseca nos mostra uma lista legal de filmes curtas-metragens e os relacionam com a fotografia, mas nada de temáticas já conhecidas como "a fotografia é a mãe do cinema" ou "dicas para diretor de fotografia", Fonseca usa o cinema só para lhe dizer: "afine o seu olhar". A ideia é o cinema para afinar o olhar.

Segundo Fonseca, se existe uma coisa que ele não consegue mais fazer depois que passou a não só fotografar, mas a estudar composição, é assistir a um filme, clipe, seriado ou novela sem sentir sua mente automaticamente mapeando cenas interessantes para analisar a composição. Por várias vezes já perdeu a sequência do que estava passando na tela, justamente tentando entender como tudo estava disposto.

Um adendo:

E o que se entende por "composição"? De maneira sucinta, não é somente o modo como posicionamos os objetos em cena, mas também tudo o que compõe a cena. De nada adianta ter objetos belamente bem posicionados se a qualidade de luz for ruim, se as cores não combinarem ou se a quantidade de elementos for desequilibrada. Compor é buscar a harmonia entre todos os elementos que estão presentes num plano. Vou um pouco além: a partir do momento em que começamos a entender que tudo o que fotografamos são simplesmente formas geométricas, tonalidades de cores, sombra e luz, nossa mente começa a arranjar o que vemos de forma pictórica, buscando harmonizar o que enxergamos.

Continuemos sobre os filmes...

Assim, Fonseca comenta: desde criança vejo filmes de maneira (quase) compulsiva - é daí que vem minha admiração e afinidade pela sétima arte. Porém, mesmo já tendo estudado sobre composição fotográfica, minha fixação em observar uma cena cirurgicamente começou a tomar corpo em 2010 depois de assistir "O discurso do rei", um filme com enquadramentos clássicos que me encantaram durante toda a sessão. A experiência foi muito além de simplesmente ver um filme bem executado em todos os seus quesitos. A partir de então, vira e mexe me pego com esse olhar clínico de como a regra dos três terços, o uso de perspectiva e a qualidade e direção de luz conduzem o nosso olhar ao assunto de maior importância. Afino meu olhar e, consequentemente, deixo meu ato fotográfico mais intuitivo.

KS04.jpgCena do filme "O Discurso do Rei"

Como complemento para este texto - continua Fonseca - vi alguns curtas-metragens. Daqueles que mais gostei, principalmente pelos enquadramentos, tirei 3 quadros para servirem de exemplo:

Clock Opera - Once and for all

Man and Beast

Health - Tears

Mas, ensinar a ver ou afinar o olhar é também preocupação para grandes artistas plásticos, como o pintor da Bauhaus Josef Albers. Antonio Filho publicou no jornal Estadão uma matéria intitulada "Ensinar a ver foi a principal lição do pintor da Bauhaus".

No prefácio do livro Josef Albers: To Open Eyes (Phaidon, 2006, 290 págs. US$ 75), Frederick Horowitz, aluno de Albers na Universidade de Yale, classifica o papel de educador como o principal exercido pelo artista alemão.

Horowitz, autor do livro com a curadora Brenda Danilowitz, diz que Albers tinha uma frase para alunos rebeldes: ninguém vai a lugar nenhum antes de descobrir o fundamental. Para isso serve a escola. É o lugar perfeito para desenvolver habilidades que mais tarde ajudarão futuros artistas a fazer seu trabalho. E a lição principal do pedagogo, segundo o aluno, é a de que existe uma enorme diferença entre olhar e ver. O espectador superficial olha uma das figuras geométricas da série Homenagem ao Quadrado e acha que viu tudo. O sábio olha essas figuras e descobre que não sabe nada - nem sobre o quadrado, nem sobre as cores. É preciso sair da armadilha que representa a aparente simplicidade da pintura de Albers.

Segundo Antonio, o pintor chegou mesmo a escrever um livro, Interaction of Color (Yale University Press, 1963, US$ 15), em que, por meio de 30 estudos sobre a cor, demonstra princípios como o da relatividade, intensidade e temperatura das cores. Foram anos e anos de pesquisa, que começou quando Albers assumiu o departamento de Design da Bauhaus, a escola de desenho e arquitetura fechada pelos nazistas em 1933. Com o fim da Bauhaus, o pintor mudou-se para os EUA em companhia da mulher Anni, para dar aulas no Black Mountain College da Carolina do Norte, a convite do arquiteto Philip Johnson, seu aluno. Pela escola americana passaram grandes nomes da pintura, entre eles Rauschenberg e Cy Twombly.

Apesar disso, segundo a curadora Brenda Danilowitz, Albers jamais conseguiu repetir nos EUA a experiência da Bauhaus, onde conviveu com Kandinski, Paul Klee, Gropius e Moholy-Nagy. "Muitos se surpreendem quando atestam a proximidade da linguagem pictórica de Albers e de Rothko, por exemplo, sem imaginar que os dois jamais se encontraram".


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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