café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

Comentando o filme nacional "Nina"

Heitor Dhalia seguiu o conselho do avô: "Leia os clássicos." Tinha 16 anos quando leu seu primeiro Dostoievski. Adorou "O Idiota". Foi ler "Crime e Castigo" e nunca se desvencilhou do livro nem dos personagens. "Não são muitas as obras que ficam com a gente", comenta. Em 2000, Dhalia, com 34 anos, já era roteirista de cinema - escreveu "As Três Marias" para o diretor Aluizio Abranches. Queria dirigir o próprio filme, mas qual?


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"Um dia, estava de cama, com febre, e me veio, como um raio, a idéia de que devia adaptar Crime e Castigo." Não queria fazer uma leitura tradicional do clássico dostoievskiano. Queria atualizar "Crime e Castigo", e fez "Nina", o longa nacional.

Nina (Guta Stresser) é uma jovem de sensibilidade agudíssima e mente fragilizada, que procura meios de sobrevivência numa metrópole desumana. A proprietária do apartamento onde mora, Dona Eulália (Myriam Muniz), uma velha mesquinha e exploradora, parece ter prazer em esmagar a vontade da sua inquilina exaurida. Em meio aos desenhos que faz em toda a parte e vivendo a agitada cena eletrônica de São Paulo, Nina mergulha nos fantasmas de seu inconsciente até acabar envolvida em um crime.

Salientando que o drama “Nina” de 2004, dirigido por Hector Dhalia, é inspirado na obra clássica “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, mas ainda bem que o diretor Dhalia disse: "jamais teria a pretensão de adaptar Dostoievski. Vejo o meu filme “Nina” como um caderno de anotações sobre “Crime e castigo”, me sinto como um estudante de pintura que vai ao museu e, fascinado por um quadro do Rembrandt, tenta captar de alguma maneira a essência do gênio em seu pequeno bloco de esboços" e que o roteirista Marçal Aquino explicou: "o que interessava era o olhar proposto pelo Heitor, que queria acima de tudo captar a atmosfera do livro, deixando de lado, onde julgássemos necessário, a trama e personagens originais. Num primeiro momento, nossa abordagem foi absolutamente livre".

Digo isso porque quem conhece o livro e assiste ao filme, logo percebe que a intenção não foi a de ser uma adaptação concisa de "Crime e Castigo". Não tem nem como ser. Ainda mais que, de cara, a primeira mudança do diretor de tornar o personagem central Raskolnikóv da obra “Crime e castigo” na mulher atormentada, a Nina, já mostrou o quanto livre da obra literária os produtores cinematográficos foram.

É bem perceptível a presença dos elementos de “Crime e Castigo” nesse filme, de certa forma. Quem conhece a obra, sacará rapidamente estes elementos, porém, os motivos do crime para motivar o castigo foram ridículos, se comparando com o trabalho literário de Dostoiévski. Desculpem-me, mas, como não sabia a intenção real do diretor antes de assistir o filme, eu o superestimei demais. Quando li as notícias que diziam ser uma adaptação da obra de Dostoiévski e que tinha ambientado em uma cidade grande, como São Paulo, deu no que deu: fiquei com aquilo no peito me angustiando e dizendo: “é só isso?”. Não estou dizendo que o filme é ruim, eu que errei superestimando ele.

Heitor Dhalia consegue mostrar mais talento no visual do filme do que na história em si. Não senti tanta angústia como deveria sentir, independente da intenção do diretor, se era para adaptar de fato a obra de Dostoiévski ou não. Achei também a história muito superficial, algo não me convencia. O sofrimento de Nina, a tentativa de explorar o sofrimento psíquico, os surtos, a loucura, o suspense que ocorreu no momento em que a personagem Nina matou a velha e a “consciência pesada” depois disto, não me emocionou. Não tive medo ou sensação de suspense, não me envolvi com as cenas, como deveria ser; só tive curiosidade em saber como o diretor iria resolver as questões, já que no livro sabia muito bem o "paradero" de cada caso.

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Para quem está acostumado com telenovelas e filmes clichês, “Nina” é uma experiência radical no cinema nacional, no que tange o sofrimento psíquico vinculado a uma visão filosófica, que, no caso, coloca em prática uma teoria que explora a relação entre a razão e a moral humana. Apesar de que no início do filme percebemos essa visão, que era quase Niilista, ela se perde depois como uma “simples” revolta da Nina contra a velha Eulália. Apresentou-me uma “lacuna” entre a cena inicial do filme e sua filosofia e a cena quando a velha é assassinada, dando um ar de que era mais uma vingança da Nina e não um “teste” para saber se ela era um homem ordinário (homem comum) ou extraordinário (capaz de tudo, até de cometer um crime), classificações estas que foram levantadas pela tal filosofia inicial da trama e que estão presentes também no livro.

No entanto, depois que eu descobri a intenção do diretor, tudo se encaixou, e ignorando o livro, focando-se somente no filme em si, mostra que “Nina” é um retrato da crueza da cidade grande e dos problemas pós-modernos. Entre os filmes nacionais, “Nina” se apontou bastante original para abordar os enigmas subjetivos contemporâneos como reflexos do sistema social.

É interessante comentar também que, apesar de tudo, se a intenção do diretor fosse realmente adaptar, da forma mais fiel o possível, o “Crime e Castigo” de Dostoiévski, a velha Eulália ficaria ótima como personagem, pois o tom de voz, a expressão, a mesquinhez e tudo mais representaram bem a velha agiota do livro. Myriam Muniz fez um ótimo papel sendo a dona Eulália. Ela se destacou mais em sua função do que Guta Stresser atuando como Nina, mesmo esta sendo o personagem principal.

Embora temos algumas observações, gostei muito da proposta do filme "Nina", que é entrar em uma produção que envolve questões sociais e filosóficas com uma atmosfera sombria, pois mostrou uma nova cara do cinema nacional.

Já para quem realmente quer assistir um filme que se aproxime ao máximo da obra “Crime e Castigo”, recomendo assistir o “Crime e Castigo” produzido pela BBC, em 2002. Na verdade, é uma minissérie. Dividida em dois episódios, a minissérie é estrelada por John Simm, conhecido do público brasileiro pela série britânica “Life on Mars” e talvez pelo “Doctor Who”. Nessa produção da BBC, de fato, dá para termos uma noção do livro, se compararmos ao filme “Nina”.

Na minissérie da BBC, interpretando Rascholnikov, o ator John Simm dá vida a um dos mais famosos personagens da literatura russa. Eu não comentei a obra “Crime e Castigo” em si, de Fiódor Dostoiévski, no entanto, ela traz um personagem psicologicamente perturbado, que coloca em prática uma teoria filosófica, a qual explora a relação entre a razão e a moral humana; e isso é melhor representado nessa produção cinematográfica. Considerada pela crítica britânica como a mais fiel adaptação do livro até o momento, a minissérie da BBC foi filmada em São Petersburgo, onde a história do livro é situada, trazendo um visual cinematográfico e uma boa reconstituição de época, brindada com belas interpretações.

Cena do filme "Crime e castigo" produzido pela BBC:

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O livro foi adaptado por Tony Marchant, criador da série “Garrow’s Law”, com direção de Julian Jarrold. No elenco também estão Ian McDiarmid, Kate Ashfield, Geraldine James, Shaun Dingwall, Katrin Cartlidge, Philip Jackson, David Haig, entre outros. A produção é da BBC em parceria com o canal Bravo. O Box em DVD traz a minissérie com o som original, com legendas em português e inglês em imagem widescreen.


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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