café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

Escritor José Luiz Passos: na contramão da literatura moderna?

Vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura do ano passado, o escritor José Luiz Passos explora diferentes histórias em uma escrita marcada pela densidade. Nesta entrevista, o autor comenta sua maneira de escrever ficção, fala da importância dos diálogos em seus trabalhos ficcionais e explica sua predileção por uma literatura mais densa e complexa.


José-luiz_passos-escritor.jpgEscritor José Luiz Passos

Lembro-me do conceito de “Literatura Exigente”, usado pela Leyla Perrone-Moisés, uma das mais destacadas críticas literárias do Brasil, no sentido de que são livros que não dão moleza ao leitor.

Para falar não só de trabalhos como os de Kafka etc., mas, especificamente, para oferecer destaque a uma corrente da prosa brasileira atual, responsável por obras de gênero “inclassificável”, misto de ficção, diário ensaio, crônica e poesia, Leyla Perrone-Moisés os denominam de “Literatura Exigente”. Entre os autores, estão Nuno Ramos, Evando Nascimento, André Queiroz e Carlos de Brito e Mello.

Eu busquei esse termo, “literatura exigente”, com um sentido de uma ideia de literatura que exige do leitor, que são obras mais do que puro entretenimento. São livros que não dão moleza ao leitor; exigem leitura atenta, releitura, reflexão e uma bagagem razoável de cultura, alta e pop, para partilhar as referências explícitas e implícitas.

Por que comento isso? Porque publicado no Saraiva Conteúdo, Zaqueu Fogaça nos apresenta o trabalho do escritor José Luiz Passos através de uma entrevista, no qual o conceito de “literatura exigente” parece estar evidente.

Há 18 anos morando nos Estados Unidos, onde leciona Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Literatura Hispano-Americana na Universidade da Califórnia (UCLA), José Luiz Passos não perdeu seu simpático sotaque pernambucano. Durante sua passagem rápida pelo Brasil, ele se encontrou com o Saraiva Conteúdo para uma conversa sobre sua composição literária. Em uma cafeteria na região da Avenida Paulista, o encontro aconteceu imerso na leitura de Ar de Dylan, romance do espanhol Henrique Vila-Matas, que o escritor havia comprado na manhã da entrevista. A serenidade presente no tom de sua fala o deixava alheio à cerimônia do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, que naquela noite o consagraria com a premiação de melhor romance pela obra O Sonâmbulo Amador (2012).

Especialista em Machado de Assis, a quem dedicou dez anos escrevendo um ensaio extenso, reunido no livro Machado de Assis, o Romance Com Pessoas (2008), que será relançado no início de abril deste ano pela Editora Alfaguara, Passos parece ter se inspirado na narrativa e nos personagens machadianos para conceber suas obras; marcadas pelo ceticismo, pelos diálogos desconcertantes e pela ironia ambígua.

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Nesta entrevista, o autor comenta sua maneira de escrever ficção, fala da importância dos diálogos em seus trabalhos ficcionais e explica sua predileção por uma literatura mais densa e complexa.

Uma característica muito presente em suas obras é a descrição. Você se entrega à narrativa e a explora em diferentes camadas, do sonho, da loucura e das memórias. É um processo incomum hoje, não?

Passos. Recentemente, li um texto crítico que dizia que o romance moderno não podia mais descrever as coisas, que a descrição havia morrido e que era uma coisa do romance do século 19. Fiquei impressionado com isso. Para mim, a grande coisa do romance é que na descrição você tem a possibilidade de falar coisas, localizar pessoas e consciências. Eu tento descrever as coisas desde que elas sejam importantes para a ação. Para mim, a descrição tem que trazer um enigma. A rigor, há nesse romance [ O Sonâmbulo Amador] quatro tipos de textos: Jurandir [protagonista da obra] narrando o que está acontecendo no presente, narrando seus sonhos, escrevendo suas memórias e as evocações que irrompem o plano presente sem que ele tenha controle sobre isso. Deixei o texto corrido, sem diferenças entres essas narrativas. Isso para que o leitor navegue nesse labirinto, que é do leitor e ao mesmo tempo de Jurandir.

Tanto em seu primeiro romance, Nosso Grão Mais Fino (2009), quanto em O Sonâmbulo Amador você confere uma atenção especial ao diálogo. A que se deve esse interesse e quais são os riscos ao trabalhá-lo na narrativa?

Passos. Para mim, o aspecto mais difícil da composição do romance é o diálogo. Porque é onde você corre o risco do falseamento total, de tornar o personagem ridículo, de descolar a consciência da voz. Essa modulação da fala, da frase, é muito complicada para o romancista brasileiro, de modo que essa questão sempre me angustiou. Em Nosso Grão Mais Fino, eu queria um romance que fosse um diálogo; mais do que um diálogo, que fosse uma espécie de colóquio sentimental, quase no estilo do recitativo, das óperas do século 18, que reforçasse o plano lírico. Em O Sonâmbulo Amador, queria que o meu burocrata do interior desejasse soar educado, mas muitas vezes não conseguisse refrear o coloquialismo da frase.

A narrativa de O Sonâmbulo Amador é incógnita e exige persistência do leitor para seguir adiante. Na verdade, essa lentidão se arma como um ensejo para criar laços mais profundos com o leitor?

Passos. Fiz isso intencionalmente. Eu queria que o personagem Jurandir não se entendesse, que ele não fosse claro e transparente para ele próprio, e que ele carecesse também dessa linguagem do eu, que nós temos. Aí ele se redescobre, mas tão lentamente que muitas das redescobertas são mais ou menos claras para o leitor e não tanto para ele. A narração é muito cadenciada, o ritmo de Jurandir é um ritmo de um burocrata prestes a se aposentar; então, ele não tem pressa de revelar nada. Portanto, demora até que o leitor encontre um fio condutor.

Seus personagens são complexos, vivem fora do seu tempo. De que maneira você procura desenvolvê-los e como eles contribuem para a narrativa?

Passos. Eu adoro personagens. Quando penso em um livro, penso primeiramente numa personalidade, a impressão de uma pessoa. Para contar a história de Jurandir, tive que lançar mão de pessoas que estão ao redor dele que me ajudassem a contar essa história. Comecei a conceber esse primeiro núcleo, que seria esse núcleo de cidade do interior: ele e o amigo de infância; ele e a esposa; ele e o filho ausente; e ele e Minie, sua amante. Depois desse quarteto, ele se desloca à clínica de Belavista, onde outros personagens servem de pano de fundo para essa transformação dele. Tive o cuidado na preparação dos vários níveis para que a consciência de Jurandir pudesse aflorar em sua verossimilhança mais complexa.

Afora o ofício de escritor, você também é crítico literário e professor de Letras. De que maneira essa base teórica o ajuda enquanto desenvolve a narrativa ficcional?

Passos. Minha consciência da estrutura literária ajuda, mas desde que eu não me permita ser colonizado pelo conceito, pelo teórico. Ser professor de Letras e conhecer crítica literária permite uma consciência maior dessas possibilidades para a estrutura, para a expressão dessa obra.

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* Saraivaconteudo / Por: Zaqueu Fogaça. Com adaptações.


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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