café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

O desabafo da viajante Heyl Jodie: 'devo seguir minha cabeça ou meu coração?'

"Ultimamente eu estive lutando com o que eu deveria fazer: devo seguir meu coração ou minha cabeça?" - disse a inglesa mochileira Heyl Jodie - que continua dizendo: "eu não gosto de saber o que o ano vai trazer para mim, eu não quero ter tudo mapeado, arrumado, certinho e pré-estabelecido. Eu gosto de ser espontânea, eu gosto de ser capaz de seguir algum viajante, porque eu gosto para onde ele está indo".


dsc04560-edit-2.jpgFotos no Krabi, com Jodie.

Heyl Jodie é uma garota de vinte e poucos anos, inglesa e que tem como paixão: viagem, fotografia e desenho (design). Ela tem formação na Fundação de Arte e Design de Bournemouth - Arts University College. Jodie viajou pelos cinco continentes e 15 países, os quais fotografou e capturou as suas histórias. Desde que fez sua primeira viagem por solo, em 2010, e se apaixonou por viagens, ela sonhou explorar o mundo a cada dia.

Mas, Jodie aceitou uma vaga na Universidade de Roehampton e desde então tem sofrido com o fato de ser "amarrada" no Reino Unido por mais três anos. Porém, antes de iniciar os seus estudos na Universidade, ela começa a ver como pode passar os seus últimos meses de "liberdade" e explorar o máximo possível do mundo.

Por isso, Heyl Jodie sempre pensa: "ultimamente eu estive lutando com o que eu deveria fazer: devo seguir meu coração ou minha cabeça?". Os pensamentos de Jodie nos faz lembrar do grande escritor clássico da nossa literatura mundial: o Kafka e a sua obra-prima A Metamorfose, mostrando, de certa forma, as tentativas de pessoas de encontrarem a si mesmas, saber quem são como sujeitos desejantes em contraponto ao peso do dinheiro.

São sujeitos que sofrem não por serem necessariamente alienados, mas por estarem lutando contra isso. Sujeitos que não querem entrar na lógica do sistema dominante, capitalista selvagem, e sofrem por causa disso. Então, se de um lado temos o país problemático, de outro temos o jovem desesperado. Os jovens são as vítimas mais vulneráveis.

Jodie é mais uma jovem que constata isso e que qualquer atitude fora do padrão é tida como rebeldia, porque foge de modelos impostos socialmente, e ser rebelde, hoje em dia, ficou muito difícil. Quem quer ser um idealista no capitalismo selvagem em que vivemos?

É isso que aflige a mochileira, viajante, inglesa Heyl Jodie ao pensar: "ultimamente eu estive lutando com o que eu deveria fazer: devo seguir meu coração ou minha cabeça?". Assim, Jodie se desabafou em seu blog, dizendo:

"Ultimamente eu estive lutando com o que eu deveria fazer: devo seguir meu coração ou minha cabeça? Eu sei que na minha cabeça e no meu coração eu quero ser uma professora e eu quero ser capaz de ensinar no estrangeiro, mas para chegar lá com todas as oportunidades decentes eu tenho que fazer uma licenciatura de três anos. Isso é algo que eu já mencionei várias vezes no blog e no final do ano passado eu aceitei uma oferta para estudar na Universidade de Roehampton, em Londres, em setembro de 2014; mas, desde que eu aceitei essa oferta, meu coração mudou...

img_1704-edit-2.jpgFotos de Jodie em Glasgow, em um dia raro de inverno ensolarado no mês de novembro.

Desde o início dos meus meses marcantes, vivi três meses em Glasgow, três meses em uma rotina e três meses sem sol. Desde que os marcantes três meses se passaram, eu não fiz mais nada. Contudo, mesmo que seja algo que eu já tenha feito, é algo que eu agora quero fazer de novo. Eu tenho saudade quando pegava a minha mochila e partia em uma nova aventura. A sorte é que eu consigo fazer isso em duas semanas. O problema é que é apenas por semanas; assim, ao voltar, eu sei que essa viagem só vai tornar a minha vida parecer mais difícil e mais banal aqui.

Sabendo que eu vou começar uma licenciatura em setembro, você provavelmente está se perguntando por que eu estou querendo passar os últimos nove meses de liberdade restante no Reino Unido. Bem, há várias razões para isso: em primeiro lugar o meu namorado me ofereceu um contrato até agosto, que foi bem pago e uma oportunidade que não podia recusar. Em segundo lugar eu tenho um dever de dama de honra para os meus dois melhores amigos que vão se casar no verão. Isso tem me feito pensar: eu deveria estar fazendo tudo isso mesmo?

img_6041-edit-2.jpgFoto da Terra Vermelha em Middle Island, feita por Jodie.

Eu os vejo economizando e comprando casas, e enquanto a minha cabeça acha que é sensato o meu coração querer fugir desse todo padrão social, dessa mesmice. Inferno, eu nem sei se eu quero viver no Reino Unido para sempre e ao longo do tempo ter que parar de viajar. Eu não acho que eu deveria gastar minhas economias em casamento ou comprando uma casa, quando a minha outra opção é ver o mundo.

Eu li as histórias de vida dos mochileiros, imagino a maneira que seus dia-a-dias são e eu fico instantaneamente com ciúmes deles. Quero sol todos os dias e um direito de ter uma praia na minha porta, eu quero pouca ou nenhuma responsabilidade, exceto ficando algumas horas com trabalhos free. Mas, eu me deparei com uma futura formação de três anos para me amarrar a um lugar, com responsabilidade, e, assim, minha conta bancária ser toda drenada. Ter que viver no mesmo lugar por três anos é um pouco assustador, porém, não ter dinheiro para fugir em aventuras é mais do que um pouco assustador.

Ver tantas pessoas no Facebook ficando comprometidas é de assustar-me; elas estão me fazendo questionar-me e pensar de forma sensata sobre tudo isso. O que eu quero no meu futuro? Eu quero ser "presa" em algum emprego de merda, porque eu ainda estou para me qualificar em algo melhor, já que eu não quero ser uma babá para sempre ou trabalhar em um bar? Não. Possuir o meu próprio Café seria bom, mas, de qualquer forma, me amarraria à aquele lugar também. Eu queria alugar um apartamento para o resto da minha vida ou eu deveria estar colocando algum dinheiro na poupança para comprar minha própria casa, um dia?

Essas são todas as perguntas que não precisam de respostas por agora, mas eu preciso pensar sobre essas coisas antes que, de repente, eu faça 30 anos e lamente ser só uma boba com as minhas decisões. Perguntando-me essas questões colocadas com medo em minha mente, vejo que crescer não é divertido, eu não quero uma hipoteca para pagar contas ou para nunca ter que se acalmar e viver estressada.

Na verdade, comecei a viajar porque eu não sabia o que eu queria fazer com a minha vida e agora o pensamento de não viajar mais me assusta. Tenho certeza de que há um equilíbrio entre trabalho, vida e viagens, mas por que eu não posso simplesmente só viajar? Gosto de viajar, eu sou boa em viajar. Eu não gosto de saber o que o ano vai trazer para mim, eu não quero ter tudo mapeado, arrumado, certinho e pré-estabelecido. Eu gosto de ser espontânea, eu gosto de ser capaz de seguir algum viajante, porque eu gosto para onde ele está indo.

img_5003-copy.jpgUma das fotos de Jodie, em uma de suas viagens no continente Africano.

Eu sei o que eu quero em meu coração e eu sei o que eu quero na minha cabeça, eu só não sei o que eu quero escolher. Estou indecisa. Eu quero ser um adulto e um viajante, mas eu não sei como ser ao mesmo tempo um adulto e um viajante, e eu não sei qual eu desejo mais entre essas duas opções de vida.

Eu sei que o sensato é ser o que eu sou. Eu sei que eu quero realmente ensinar, ser professora, mas por que não se pode esperar para começar a tal formação de licenciatura depois de mais um ano, pelo menos?"

Esse foi o desabafo de Jodie. Se a proliferação de respostas científicas, religiosas, moralizantes e a padronização de uma vida segura não podem deter a devastação do mundo enquanto habitação existencial; se em algum momento o sujeito pode fugir destas respostas, dando a entender que elas não são o suficiente para suprir a falta que ele tem, é perceptível que a angústia é algo que nos é essencial e, sendo assim, assumirmos nossa singularidade é fundamental para que existam outros modos de experiência da angústia, outras formas de desvelamento do real. É o caso de Heyl Jodie e o seu sonho de viajar pelo mundo.

Isso mostra o quanto a sociedade do consumo, da ciência, do padrão e da moral, padronizou a subjetividade humana, lhe ensinando como ser feliz, ao invés do próprio sujeito aprender a lidar com a sua singularidade e ser feliz ao seu modo.

steep-street.jpgFotografia de Jodie, na América.

Assim como a inglesa Heyl Jodie, o mochileiro é um viajante independente, que organiza suas viagens por conta própria, dando ênfase ao conhecimento, aventura e diversão. Geralmente, utiliza meios de hospedagens mais econômicos e costuma fazer viagens mais longas. Os mochileiros em sua ampla maioria são jovens e/ou estudantes, que, com pouco dinheiro, querem conhecer o mundo. Seu transporte geralmente é realizado através de carona, ônibus ou mesmo a pé.

Esperamos que Jodie decida sabiamente o que fazer, pois a luta entre o que quer e o que deve ser na vida tende a ser tolice para uns, mas tem um sentido, um valor importante, para outros. Às vezes parece que a oportunidade de decidir algo assim é um luxo para poucos, a maioria deve seguir um único modo de viver: o padrão pré-estabelecido socialmente.

jodie.jpgA própria Jodie.


Marcelo Vinicius

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