café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

A fotografia como Terapia

Assim como toda arte, a fotografia também serve do recurso expressivo a fim de conectar os mundos internos e externos do indivíduo, através de sua simbologia. É um modo de trabalhar utilizando a linguagem artística e sua essência; é a criação estética e a elaboração artística em prol da qualidade de vida.


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Yuri Bittar, designer, fotógrafo e historiador, contou que está envolvido com a fotografia desde 1997 e de forma muito mais intensa desde 2007. Nestes últimos anos, especialmente depois que começou a dar aulas de fotografia, começou a perceber que a fotografia muitas vezes tem um forte efeito terapêutico. Esse efeito terapêutico se manifesta de diferentes formas, dependendo da pessoa, de sua vida e de como ela se envolve com esta arte-técnica de escrever com a luz, fotografia.

Essa pode ser uma das explicações para o enorme número de fotógrafos amadores que tem surgido, o sucesso das saídas fotográficas e o grande fluxo de fotos disponibilizadas e discutidas na internet, ou seja, a fotografia tem se mostrado como uma terapia, mas não formal, não um programa, mas uma atividade que trás qualidade de vida.

Assim, Yuri disse: "vou então fazer uma proposta, essa terapia pode acontecer de três forma: momento de lazer, oportunidade para relacionamento humano ou busca de auto-conhecimento". Confira:

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Momento de lazer

Para muitas pessoas o dia-a-dia é corrido e estressante, sem momentos dedicados a si mesmo. Dedicam-se ao trabalho, à família e quando muito aos estudos. Claro que trabalho, família e estudos são, ou deveriam ser, coisas boas e da maior importância. Mas é preciso ter momentos dedicados a si mesmo, momentos de se fazer algo que não precisa ser feito, mas que é prazeroso, e para cada um essa atividade varia, e é o que se chama de “hobby”, ou seja, uma atividade que não é trabalho, mas é levada a sério, à qual se dedica tempo, esforço e até dinheiro, simplesmente pela paixão.

A fotografia cada vez mais permite às pessoas terem esse momento de lazer, praticar a criatividade, registrar momentos, se aprofundar em temas...

Oportunidade para relacionamento humano

A fotografia também tem aproximado pessoas. Seja nos sites de compartilhamento de imagens, blogs, ou em encontros e saídas fotográficas, uma paixão em comum permite o surgimento de novas amizades, andanças pela cidade, observação do olhar do outro. Com a fotografia como assunto, todos nós, especialmente os mais tímidos, podemos melhorar nosso relacionamento com outros.

Busca de auto-conhecimento

Aqui creio que está o maior potencial da fotografia como terapia, possibilitar a reflexão, ou seja, o olhar para dentro de si. Sair por ai fotografando, parando para ver, prestando atenção no lugar em que você vive, já seria um ótimo exercício de auto-conhecimento, mas em alguns casos é até mais que isso.

Ao se concentrar para observar o mundo também olhamos para dentro e nos vemos melhor. O exercício de buscar nossa própria linguagem e a seleção de momentos e imagens que fazemos, nos levam a entender melhor como pensamos. Sim, pois nem todos costumam parar para prestar atenção e perceber como pensam. Não temos o hábito de nos conhecer e buscar descobrir uma forma pessoal de comunicação.

Parar e perceber que se gosta de fotografia já é um primeiro passo, é perceber um gosto, algo que lhe dá prazer. Mas não basta isso. É preciso realizar a experiência, seja pelo prazer de realizar uma atividade querida, seja pela realização de uma experiência verdadeira. Como defende Larosa (1), se deixar ser campo para um acontecimento, se deixar ser tocado e até levado e assim ser verdadeiramente alterado.

Cada vez que paramos para fotografar, se fazemos isso com o coração, somos afetados, ou seja, isto atinge nosso lado afetivo, o lado dos sentimentos, da emoção, o lado que nos permite um real contato com outras pessoas, com o mundo e até com Deus. E sim, digo com o coração, pois creio que devemos ir onde o coração nos manda, como em “Vá onde seu coração mandar” (2), onde uma avó revê sua vida e percebe que tomou o rumo errado, que não foi o rumo do coração. Mas como no livro sempre há tempo para retomarmos esse rumo, como nos explica o professor Dante Marcello Claramonte Gallian (3), numa belíssima reflexão sobre a santidade, ou seja, o caminho ideal para a vida.

Muitas pessoas usam a fotografia para se expressar, quando muitas vezes de outras formas não dão conta de extravasar, passar uma mensagem, até para si mesmos. A fotografia digital tornou o auto-retrato mais presente, e as vezes essa é uma forma de mostrar sentimentos difíceis de expressarem em palavras. É uma forma de se reconhecer, de se entender.

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Mas, a fotografia vai além do que foi comentado pelo Yuri. O psicólogo Thenardy Vieira, da CEULP/ULBRA, nos disse: "em minhas pesquisas encontrei alguns trabalhos que falavam do processo terapêutico, e da fotografia como um recurso potente de promoção da saúde. Nesse momento fiquei seguro do caminho que deveria percorrer para a realização das oficinas quando passei a ver a fotografia digital como uma forma de trabalhar a linguagem e a construção de sentido para os usuários do CAPS (Centros de Atenção Psicossocial)".

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"Na escolha do objeto (modelo) a ser fotografado o usuário lida com situações em que ele terá que realizar escolhas, não muito diferente do que acontece em nosso cotidiano. Outra forma de abordar a oficina é utilizar-se da linguagem simbólica intrínseca no equipamento, o que nos permite uma reflexão quanto as principais queixas do usuário e aos diversos modos como ele se relaciona com elas. Assim como na vida, a partir da lente da máquina temos vários pontos de observação 'do objeto'", comentou Thenardy Vieira.

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Seja para se divertir, fazer amigos, se expressar ou se conhecer melhor, a fotografia é um instrumento terapêutico com grande potencial!

E continuem fotografando!

Referências: 1. Larrosa, Bondia, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista. Brasileira de Educação. Campinas: Autores Associados, nº 19. p. 20-28. Jan./Abr. 2002 2. Tamaro, Susanna. Vá Aonde Seu Coração Mandar. Rocco, __________, 1995 3. Gallian, Dante Marcello Claramonte. Dá, pois, a teu servo um coração que escuta... http://labhum.blogspot.com/2009/12/da-pois-teu-servo-um-coracao-que-escuta.html


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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