café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

Véi, mano, coitada da Clarice Lispector

Tati Bernardi "se revolta" e nos conta que estamos na literatura no mundo virtual e suas falsas autorias. Assim como Carlos Drummond, Clarice Lispector, uma das maiores vozes de nossa literatura contemporânea, sofre, constantemente, deturpações de sua obra. O problema é que dessa vez foi deturpada por uma grande revista.


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A internet tem sido uma ferramenta eficaz ao democratizar a publicação de textos literários, mas tem, por outro lado, dado espaço a enganos relativos à autoria.

A escritora, redatora e retorista de cinema e televisão Tati Bernardi disse que essa semana uma atriz utilizou-se de um texto "famoso" na internet para desabafar em seu site de relacionamento:

"Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje… Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina… E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar… Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Ingênua, mas não santa. Sou pessoa de riso fácil… E choro também!".

"Já vi muitos bons escritores injustamente 'creditados' à essa bobagem (e também alguns não tão bons, como eu) mas me senti profundamente ofendida quando uma revista resolveu, claramente sem nenhum conhecimento de literatura brasileira, assinar a autoria do texto com o nome da Clarice Lispector", disse Tati Bernardi, que segue com o texto:

Clarice também tinha de pagar as contas e, por isso, vez ou outra freelava imbecilidades de mulherzinha através de um pseudônimo. Dai fica a pergunta: por que cazzo transformaram isso em um quadro na TV? E, pior: em que momento uma escritora tão assombrosamente interessante virou a rainha dos blogueiros desinformados?

Agora imaginem se Clarice usaria a palavra "utopia" seguida da palavra "sonho" numa mesma frase piegas e sem nenhum sentido. E que porra quer dizer "sou pessoa de dentro pra fora"? Tipo: olha, não sou superficial, tá? Antes vem meu fígado, depois a vontade de comprar bolsas.

Imagino Clarice, num misto de culpa e excitação, entrando em seu quinto crediário de eletrodoméstico. Alguma prima mais invejosa “Ai, que coragem comprar essa televisão que mal cabe em seu orçamento!”. E ela, provocativa, com camiseta da Abercrombie: “Ai, Tamara, tônem aí: eu quando sonho, sonho alto!!”.

Será que Clarice diria: “E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar…”? Tipo Clarice num bar na Vila Olímpia, vira pra sua truta, enquanto manda uma caipiroska de frutas vermelhas: “cara, meu, na boa? Sei lá! Eu enlouqueci e deixei rolar”.

Quase posso ver a jovem e enigmática Clarice investigando o smartphone do seu namorado, o “Peida”. Ele dizendo, com o maior bafo de cachaça, que do pagode foi direto pra casa. E ela, boladona “ah, cara, eu sou boba mas não sou burra!”. E então Lispector arremataria, com sua lente de contato azul marejada: “Ah, Peida, você sabe: sou pessoa de riso fácil…e choro também”.

No espelho, escrito em batom cintilante, segundos antes da casa dela pegar fogo: “Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente.”

Dizem que ao se deparar com uma barata e sentir um profundo desejo de degustá-la, a diva dos fanzines de faculdades de engenharia, citou Fênix: “reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim!”. Logo depois, achou bonito demais o trecho “a vida pede um pouco mais de mim” e o escreveu com caneta perfumada em seu diário com capa do seriado Glee.

Numa entrevista para um desses programas da tarde, quando participou do merchan de um creme anti-sinais de procedência francesa mas produzido em Valinhos: “sou mulher com cara de menina… E vice-versa”. E até hoje esse “vice-versa” angustia centenas de senhoras mais literais.

No estacionamento de um shopping na Grande ABC, depois de ter ficado mais de duas horas procurando seu sedan tunado, ela disse, para um daqueles guardas na motoquinha: “Me perco, me procuro e me acho”.

Ouviu de uma fã, na feira do livro de Pirapora Mirim: “você é tudo” e proclamou, misteriosa “ou nada!”.

É, meus amigos, como disse Shakespeare ao lançar suas memorias digitais “Segredos da coxia” no Mercearia São Pedro: “#tamonamerda”.

Fonte: Folha de São Paulo, com adaptações


Marcelo Vinicius

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