café não te deixa mais cult

Sabe o que há entre uma xícara de café e outra? Literatura, fotografia, cinema, música... Arte.

Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams).

Minha experiência com o canto e a dança indígena

A apresentação do Toré, tradição milenar de canto e dança dos índios, representados pelo Tuxá de Rodelas, Pankararú, Kaimbé, Tumbalalá e entre outros povos indígenas da Bahia, durante o evento da calourada 2014.1 da Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, proporcionou uma experiência inesquecível aos participantes, inclusive eu estava lá e registrei através das fotografias.


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Minha experiência foi muito pouca em relação aos que vivem por aí conhecendo culturas e comunidades pelo mundo, mas foi qualitativa e não só quantitativa.

Nos dias da calourada 2014.1 da Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, realizada pelo Diretório Central de Estudantes (DCE), tive a oportunidade de experienciar a apresentação do Toré, tradição milenar de canto e dança dos índios que inclui também práticas religiosas. Mas é necessário tomar cuidado com um detalhe bastante sutil. Não basta experimentar, é preciso experienciar. E qual é a diferença? Embora não pareça, ela é muito grande. Enquanto que experimentar é apenas fazer um teste, provar uma amostra, experienciar é viver uma nova realidade.

Assim, foi o que tentei fazer naquele momento. Abri-me de corpo e alma para conhecer o que está por de trás de uma cultura, a sua magia e encanto, é um fato mais psico e espiritual do que material, mesmo pelo pouco que ali vivenciei.

Aqui, então, com essa perspectiva, estou para comentar rapidamente essa experiência. Mesmo antes de mergulhar nos dias da calourada da UEFS e assistir ao Toré, era certo que essa experiência se tornaria um post para o Obvious.

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No entanto, coloquei em mim mesmo uma grande responsabilidade antes e durante a escrita deste texto. E essa responsabilidade inclui retratar essa experiência de uma forma respeitosa, o que significa – ao menos para mim – não exibir a figura indígena como coitada, atrasada ou qualquer clichê que facilmente encontramos por aí. E agi assim para, de alguma forma, poder retribuir o carinho, a atenção e a acolhida que recebemos deles, os índios.

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O significado de um não-índio conhecer mais a vida daquela comunidade é algo imensurável. Quero dizer que é um ato de muita comunhão por parte dos índios disponibilizarem esse momento para quem não é indígena. Por isso reconheço e agradeço a confiança que eles nos depositaram.

Antes que eu vá para um contexto mais antropológico, quero informar que eis um grande clichê completamente desmantelado: índio só sabe dos segredos da natureza. Se eu estivesse em uma conversa na esquina, eu soltaria, com voz alta, que “nem de longe que as coisas são assim!”.

Percebi que a preocupação em estudar, buscar novos conhecimentos, manter-se atualizado e ligado nas mobilizações sociais que acontecem reserva afora é de boa parte deles.

Agora, me voltando mais à emoção dessa vivência, ouvi de um dos índios, em uma rápida conversa informal na apresentação do Toré, uma angustiante e bela declaração: “minha cultura é meu despertar, a minha cultura é a janela para a minha alma”.

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Mesmo em pouco tempo, compartilhei verdadeiramente com esse povo as vibrações, o invisível, mas “palpável”. Ajustei minha "antena" para a mesma freqüência que a deles.

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Há uma beleza pura em seus objetivos e os laços familiares, sua crença na espiritualidade e na natureza, e sua vontade de fazer a coisa certa. Há neles, mesmo com a influência do não-índio, uma essência dos últimos recursos de autenticidade natural.

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Confira abaixo mais algumas fotos:

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Sim, pretendo realmente pegar minha câmera e conhecer comunidades, povos e culturas afora de uma forma mais profunda. Sempre tive em mente em querer testemunhar suas tradições consagradas pelo tempo, me juntar em seus rituais e descobrir como o resto do mundo está ameaçando mudar seu modo de vida para sempre. Mais importante, eu queria criar um documento fotográfico estético ambicioso que resistisse ao teste do tempo. Muita pretensão da minha parte, não é? Mas, sonho com isso. O que posso fazer?

Quero realizar um corpo de trabalho que seria um registro etnográfico insubstituível de um mundo desaparecendo rapidamente. Retratos elegantes e evocativos, criados com uma câmera. Mostrar uma vista extraordinária sobre a vida emocional e espiritual dos povos indígenas e não só realizar algo quase como um jornalismo, pois seria mais artístico sem perder a sua importância. Ao mesmo tempo, seria glorificar a variável e a única criatividade cultural de um povo, com os rostos pintados, corpos escarificados, jóias, penteados, rituais extravagantes e belos.

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Estar envolvido em uma outra cultura é um momento inesquecível, poder presenciar rituais, danças, o dia a dia de uma tribo indígena é indescritível. Acredito que muito da cultura já foi perdido, mas ainda existe toda a sua essência, e depende de nós ajudar a preservá-la. Afinal, graças aos índios estamos aqui hoje. O Toré foi para mim um encontro com parte de minha origem até então oculta.

Acredito que conviver com uma cultura diferente da minha me leva à muita reflexões sobre a importância da nossa responsabilidade com tudo aquilo que absorvemos no mundo.

Por isso, repito: é fato que experimentar é muito mais rápido e fácil do que experienciar, porém os resultados são muito diferentes. A questão que se coloca é: não adianta contrariar as nossas birras que estão arraigadas em nossa mente, mas sim criar as condições para que o ato de experimentar seja substituído pelo de experienciar. Então veremos que os resultados serão muito mais interessantes.

Enfim, "não tenha medo da experiência, porque quanto mais experiente você for, mais maduro você se torna" (Osho, em "The Book of Wisdom").


Marcelo Vinicius

“Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos” (Ansel Adams)..
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