Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

‘With Every Heartbeat’ e o poder avassalador do amor

Existem situações e circunstâncias que passamos em nossas vidas que nos mudam e nos transformam por completo. Há encontros absolutamente irresistíveis e que definem, por vezes, nossa trajetória. E se? Aquela velha pergunta a nos atormentar, mas quando a vida nos presenteia, quando estamos diante de uma oportunidade de mudança, como agir? Qual é o caminho certo a seguir diante de uma encruzilhada? Existe atalho para a nossa felicidade? Sobre isso é mais um pouco é a história de ‘With Every Heartbeat’.


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Quando no ano passado, ‘Azul é a Cor Mais Quente’ foi lançado no Festival de Cannes e dele saiu vencedor da Palma de Ouro em 2013, tornou-se um dos filmes mais esperados do ano.

O filme conta a história de Adèle, uma jovem de 15 anos que se vê as voltas com a descoberta de sua sexualidade, com as dores e as delícias dessas escolhas em busca do amor e da autoaceitação. Um filme forte e impactante que cativa desde o início e nos prende com um certo voyeurismo, que nos permite espiar dentro do buraco da fechadura e desnudar a alma de Adèle e seus segredos mais profundos e íntimos.

Com certeza, um dos filmes mais comentados do ano passado, ganhou vários prêmios internacionais e alcançou prestígio. Porém, tudo começou em Cannes, um dos maiores festivais do mundo sendo uma das premiações mais desejadas depois do Oscar.

É interessante observar que o clima estava favorável e receptivo para a aceitação calorosa do filme do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche em 2013, pois se apoiou em ombros de gigantes.

Explico-me, pois no ano anterior foi submetido para competir a Palma de Ouro na categoria de melhor filme, o filme sueco Kyss Mig (título original) da diretora Alexandra Therese-Keining. Não foi escolhido para a seleção final, mas foi lançado através de um trailer sendo extremamente elogiado e comentado. Prova disso, os prêmios conquistados após a exibição e a recepção favorável em todos os festivais participados. Ganhou o prêmio Audience Awards no AFI Fest em Los Angeles e em Grenoble Film Festivals e o prêmio Lorens Award em Göteborg Film Festival, ambos na Suécia.

O filme conta a história de Mia (Ruth Vega Fernandez) e Frida (Liv Mjönes) que se encontram pela primeira vez na festa de noivado de seus pais. O pai de Mia, Lasse (Krister Henriksson), está noivo da mãe de Frida, Elizabeth (Lena Endre). Mia, não visita seu pai em anos e chega com seu namorado, Tim (Joakim Nätterqvist), com quem está prestes a se casar. Mas, quando Mia e Frida começam a se conhecer melhor é inegável a mútua atração. Mia se vê dividida entre seu relacionamento de sete anos com Tim e sua paixão irresistível por Frida.

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Esse é um filme maravilhosamente dirigido e produzido por Alexandra Therese-Keining e Josephine Tengblad, respectivamente. Ambas trabalharam juntas na construção do roteiro e uma curiosidade interessante é que a história do filme é baseada na vida de Josephine que passou pelos mesmos percalços da personagem Mia e teve também que fazer a sua escolha, pois foi trabalhando na criação do próprio filme que teve o empurrão necessário para criar também a sua própria história na vida real. Lutou extremamente pela essência do filme e para que a história não fosse corrompida por pressões externas. Por isso para manter a idoneidade do projeto, pela resistência das produtoras devido à temática ser uma história de amor entre duas mulheres e pela duração das cenas de sexo (brilhantemente filmadas com muito cuidado, bom gosto e sensibilidade), Josephine abriu a própria produtora Lebox Produktion AB para produzir o filme.

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Demonstrando um extremo cuidado em todas as etapas da produção desde a fotografia com o trabalho primoroso de Ragda Jorming desvendando lindas paisagens, passando pela trilha sonora de Marc Collin tão meticulosamente escolhida que cada música nos exprime a exata sensação das personagens e uma atenção especial para as canções de José González e Robyn, Lovestain e With Every Heartbeat, respectivamente que embalam o casal Mia e Frida.

É um filme corajoso como ‘Azul é a Cor Mais Quente’, apesar de serem diferentes abordagens sobre um mesmo tema, pois ambos os filmes tratam sobre a descoberta do amor e da sexualidade, a busca da autoaceitação. Fala sobre as relações familiares e o empoderamento do amor como combustível para enfrentar todas as dificuldades e os desafios em nome da felicidade.

O filme não só debate as posições e os temperamentos antagônicos diante da vida de Mia e Frida, mas também de seus pais. Lasse e Elizabeth se veem em lados opostos, com posicionamentos bem distintos e com esse enfrentamento preconceitos e hipocrisias vem à tona o que coloca o relacionamento dos dois em xeque. A escolha de Mia, sem dúvida afetará toda a família recém-formada e sua própria vida.

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O relacionamento amoroso de Mia e Frida foi retratado com a maturidade que duas mulheres bem sucedidas com seus trinta anos merecem e com o realismo que só uma história autobiográfica poderia ter. Essas mulheres são reais, são de carne e osso e as suas lutas pelo amor, pelo seu possível relacionamento é tratado com muita delicadeza, elegância e sutileza. A química volátil das duas atrizes é algo extremamente palpável no filme, o modo que elas interagem, o fascínio irresistível que Frida exerce sobre Mia, os seus olhares e seus silêncios dizem tanto que nada precisa ser dito para verbalizar o que é sentido devido à cumplicidade e a intimidade que ambas exalam nas cenas.

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Ruth Vega Fernandez traz uma Mia atormentada pela descoberta de um novo amor que se não fosse complicado o suficiente por ela estar noiva, é por sua nova irmã através da recente união das famílias. Acompanhamos a personagem com a sua vida virada completamente do avesso quando não consegue conter seus sentimentos avassaladores por Frida e pela (re) descoberta da própria sexualidade. Conseguimos acompanhar todas as sensações e sentimentos através do olhar de Ruth que é simplesmente assombroso como demonstra cada pensamento e dúvida de Mia em um trabalho especialmente inspirado. Pois traz uma personagem consistente, madura, real que age com a cautela, a prudência e às vezes até com a indecisão que a situação requer diante de uma escolha que irá mudar literalmente sua vida por completo.

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Liv Mjönes traz uma Frida tão cativante e sensível que encanta todos a sua volta com seu jeito descontraído, cheio de leveza e naturalidade. Frida é simplesmente apaixonante e Mia não poderia resisti-la nem se quisesse. É retratada como uma mulher madura que se conhece ao extremo e com isso ela se respeita, se aceita e entende suas limitações. Uma mulher independente e completamente à vontade na própria pele e com as escolhas que fez para sua vida e isso é muito libertador. A sinceridade e a honestidade que Frida se comporta diante da vida é arrebatador. A sua pureza, a sua transparência e a verdade que ela enfrenta as situações é algo extremamente genuíno que chega a beirar a ingenuidade, o que desarma uma cética e hesitante Mia.

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Um aspecto interessante do filme é que ele é multidimensional, pois não aborda apenas a dicotomia do relacionamento de Mia e Frida e de Mia e Tim, mas também o relacionamento familiar e entre seus membros. A vida de Mia é tão densa que vai sendo desvendada diante dos nossos olhos e observamos uma personagem que muda drasticamente desde o início ao fim do filme, pois o amor que ela encontrou em Frida e a possibilidade real de uma vida juntas a muda por completo, ela emerge em um processo de autodescobrimento e autoanálise que vai refletir em cada esfera da sua família.

É interessante o contraponto que a Alexandra quer demonstrar através da escolha de cada ângulo da câmera, enquanto que as cenas de sexo com Tim são filmadas a distância explicitando o distanciamento emocional que Mia sente em relação à Tim, da lacuna inerente no relacionamento, algo que nem a própria Mia sabe o que é. Enquanto que nas cenas de amor com Frida, observamos a câmera em close-ups retratando a ligação, a conexão passional que elas compartilham, a cumplicidade. Observamos uma Mia arredia e confusa pela proximidade do casamento com Tim e com a possibilidade de ter filhos e uma outra Mia com Frida, mais inteira, mais espontânea, mais feliz com a possibilidade de um novo começo, porém com medo e receio com as consequências dessa decisão.

Nós estamos diante de um encontro que muda drasticamente a vida das duas, quando elas se beijam há a possibilidade iminente de um possível fim e de um novo começo, é um divisor de águas. Um filme muito bonito em todos os aspectos, que propõe a compreensão, o diálogo e a reflexão. Pois, convida a nos desvencilharmos dos nossos preconceitos, das nossas próprias hipocrisias e de nossas ideias limitantes. Deixa tão claro e tão natural o que é relevante, que o amor é algo universal que transcende países, línguas, gêneros e orientação sexual. Esse filme é uma belíssima história de amor, e é apenas isso que realmente importa.


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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