Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

Camelo, o toque dela e mais histórias sobre o mar

Falar de Marcelo de Souza Camelo não é tarefa fácil. O que falar de novo sobre o sucesso inegável com os Los Hermanos, da sua parceria bem sucedida com Rodrigo Amarante e sobre seu relacionamento com Mallu Magalhães? Com uma alma de poeta e um modo muito particular de transformar o trivial, o banal em algo extraordinário, Marcelo se afirma com seu novo projeto Banda do Mar como um dos compositores e instrumentistas mais influentes do Brasil. Equilibrando sucesso de público e crítica, Marcelo é sem dúvida, muito além do que se vê.


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Marcelo é um homem enigmático e difícil de ler, não é muito afeito a entrevistas, não gosta de paparazzi e que sua vida esteja estampada nas páginas de fofoca pelo seu relacionamento com sua esposa, Mallu Magalhães. Seu foco, seu ofício, seu lugar é no caderno de cultura, fazendo o que faz de melhor: música.

Pela sua resistência diante dos holofotes, caracterizam-no como difícil, que não colabora com a imprensa. Mas isso é uma leitura na superfície, sem dúvida. Porque o Marcelo Camelo que conhecemos e viemos a amar desde 1999 com seu álbum de estreia homônimo com os Los Hermanos, é muito mais do que isso.

Camelo além de ocupar o posto de vocalista da banda, acumulava as funções de instrumentista e compositor da maioria das canções. E nelas sim, entregava sua alma, em cada nota, em cada dedilhar do seu violão, na delicadeza da sua voz contraposta com a pseudo-brutalidade dos arranjos de guitarra de Amarante e da bateria inclemente de Rodrigo Barba.

Por vezes, a disritmia causava uma estranheza, um desconcerto mesmo. Mas Los Hermanos mostrou ao longo dos seus 15 anos de carreira (contando os hiatos), que as palavras óbvio e comum nunca fizeram parte do seu dicionário. Com seus quatro álbuns de estúdio mostraram que a banalidade e o esperado não seria encontrado, pois a palavra de ordem é a evolução, a mudança, uma metamorfose ambulante, mesmo. A cada disco, a banda mostrava as suas novas influências, sua originalidade intrínseca, sua forma particular de interpretar o mundo, um olhar mais demorado sobre a vida.

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Sim, sua vida pós - Los Hermanos vai mundo bem obrigado. Poderia viver apenas da sombra e água fresca do sucesso astronômico da banda, apenas colhendo os louros da fama. Mas Marcelo quer muito mais que isso. Em 2008, durante um recesso sem prazo determinado da banda, Camelo lançou seu primeiro álbum solo chamado “Sou”.

Em seu disco de estreia, Camelo deu vazão ao seu lirismo, a sua poesia, a sua delicadeza talhando com a precisão de um artesão cada música, cada faixa, cada melodia ao longo de 14 canções conectando-o novamente com o seu nicho, contando histórias através de suas canções. A voz de Camelo tem um quê de indizível, indecifrável, um convite ao contentamento, uma simplicidade que é tão despretensiosa e talvez por isso seja tão magnífica.

Com Marcelo, o menos é sempre mais, pode estar sozinho no palco com apenas voz e violão como na gravação “Ao Vivo no Theatro São Pedro” (2013) ou na companhia dos Los Hermanos com suas guitarras, saxofones, trompetes e baterias, Camelo nos tem na palma da sua mão a partir de seu primeiro acorde.

Nesse trabalho também somos apresentados a primeira parceria nos palcos do casal da vida real. Camelo e Magalhães cantam a faixa “Janta” e o registro dessa apresentação foi gravada em 2010 no DVD “MTV ao Vivo Marcelo Camelo”, uma releitura livre do álbum “Sou”, gravado em 2008.

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O seu segundo trabalho foi lançado em 2011 e foi intitulado “Toque Dela”. Notadamente, é inegável a presença intrínseca de Mallu em cada letra e em cada música de Camelo. O mesmo já admitiu em entrevista que sua então namorada, é sua musa inspiradora e mudou completamente a forma dele compor. Sem dúvida, isso fica claro nos trabalhos solos de Marcelo. Seja na sua participação na faixa “Janta” no disco “Sou”, seja no álbum “Toque Dela”, um ode a Mallu, ao amor dos dois, a construção diária e gradativa de um relacionamento.

A ligação de Mallu e Camelo transcende o relacionamento deles, o amor dos dois transborda em absolutamente tudo. Marcelo produziu o álbum “Pitanga” de Mallu, também lançado em 2011, e nem é preciso dizer que os álbuns se comunicam e se interligam de um jeito muito lindo. Nitidamente, os álbuns foram escritos e inspirados mutuamente no mesmo período de criação. Um amor muito real, muito palpável, muito lírico e fica cristalino em cada canção desses álbuns.

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Em 2013, Marcelo lançou seu terceiro álbum chamado “Mormaço” e seu primeiro trabalho ao vivo como artista solo. Nessa empreitada, revisitou suas gravações nos álbuns “Sou” e “Toque Dela”, e alguns sucessos da época dos Los Hermanos, porém as composições são de sua autoria e são interpretadas de uma maneira muito crua e visceral, Marcelo na voz e violão e Thomas Rohrer na rabeca e na batedeira. Temos também, a participação de Mallu na faixa “Janta” dando o tom intimista, despretensioso e familiar que podemos ver na gravação do DVD de mesmo nome que contém dois filmes: o show “Ao Vivo no Theatro São Pedro” e “Dama da Noite” que consiste em cenas dos bastidores da turnê do disco “Toque Dela”.

Após dois álbuns solos, dois dvds, uma nova turnê com Los Hermanos por todo o Brasil para comemorar os 15 anos de formação em 2012, Marcelo anunciou em maio desse ano um novo projeto para meados do ano, porém não mais um trabalho solo e sim a formação de sua mais nova banda, ou trupe podemos dizer composta por (pasmem!) Mallu Magalhães, o próprio Camelo e o português Fred Ferreira chamada Banda do Mar.

Banda do Mar uniu, sem dúvida, o melhor de cada um dos seus membros. Vemos um Camelo mais maduro, mais pleno, deixando de lado sua melancolia para dar lugar ao contentamento e a felicidade que só um encontro perfeito pode proporcionar. Marcelo encontrou em Mallu seu pouso certo, dela fez sua musa e agora sua companheira de banda. O flerte musical entre os dois começou com “Janta” em 2008 no álbum “Sou” de Marcelo, evoluiu para a produção do álbum “Pitanga” de Mallu lançado em 2011 e culminou com a parceria em 2014 na Banda do Mar.

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O álbum possui 12 faixas, dentre elas Camelo empresta seus vocais e assina a composição de sete músicas e Mallu em cinco delas. Mas Fred não caiu de paraquedas, como possa a primeira vista parecer. Frederico Ferreira foi baterista de várias bandas no cenário rock em Portugal como Orelha Negra, Buraka Som Sistema, A Miúda e o 5-30, com Carlos Nobre e Regula, ele reparte ainda o tempo com a produção e a gestão de um estúdio com o músico Bernardo Barata.

Camelo é padrinho do filho de Fred, Sebastião e ambos são amigos há dez anos. Mallu o conhece a seis por intermédio de Camelo e a mudança do casal para Lisboa tem tudo a ver com Fred, a amizade estreitou e o projeto surgiu.

Enquanto que visivelmente vemos a influência de Mallu de seu último trabalho “Pitanga” como nas faixas “Sambinha Bom” e “Velha e Louca”, em Marcelo vemos uma sinergia e uma comunhão do seu tempo com Los Hermanos e da sua experiência em carreira solo como na delicadeza apresentada em “Luzes da Cidade” do álbum solo Mormaço (2013) e da leveza de “Morena” do álbum “4” (2005) com os Los Hermanos.

Fred empresta seu viés de baterista e produtor, com isso ouvimos sons novos que nem bem lembram ao certo Los Hermanos, nem Mallu, mais a junção do som de todos, e essa trupe oferece muito nesse primeiro trabalho. Um disco muito bom, desde suas melodias até suas letras, talhado feito uma colcha de retalhos, Camelo inicia com a faixa “Cidade Nova” (como não associar a Lisboa?), Mallu a segunda e assim se segue até Marcelo se despedir com a deliciosa “Vamo Embora”.

Sim, Marcelo acertou em cheio de novo. Conseguiu unir nessa nova empreitada tudo o que ele tem de melhor, a junção de toda a sua carreira em grupo e solo culminou com esse trabalho maduro, pleno e com uma leveza e uma despretensão invejável. O álbum homônimo da Banda do Mar não é pretensioso, não se esforça demais, mas é simplesmente um sonzaço! É para se ouvir de olhos fechados e com um sorriso nos lábios como me disse uma amiga e o coração cheio de contentamento e gratidão por ser presenteado com mais um trabalho primoroso de Marcelo de Souza Camelo. Senão ouviram ainda, por favor, se permitam!


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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