Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

O feminismo de Beyoncé

Uma simples pesquisa na internet demonstra o quanto esse assunto foi exaustivamente esquadrinhado em busca de um denominador comum ou uma resposta satisfatória. Porém, como tudo na vida, não se chega a uma unanimidade ou conclusão sobre o assunto. A verdade é que Beyoncé Giselle Knowles-Carter é muito mais complexa e possui muito mais facetas do que uma análise precipitada se pode supor. Mrs. Carter requer um olhar mais atento e demorado, pois Beyoncé tem várias características, mas previsibilidade não é uma delas.


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No VMA desse ano, Beyoncé fez uma apresentação magistral de dezesseis minutos fazendo um medley com as principais músicas do seu último álbum ‘BEYONCÉ’. Ela recebeu o prêmio 'Michael Jackson Video Vanguard', o mais importante da noite e que celebra a trajetória de sua carreira. Na faixa 'Flawless', Beyoncé ‘sampleou’ a fala da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie durante seu discurso no TEDxEuston em 2013 “Sejamos todos feministas”.

“Nós ensinamos as meninas a se retraírem para diminuí-las. Nós dizemos para as garotas: você pode ter ambição, mas não muita. Você deve ser bem sucedida, mas não muito. Caso contrário, ameaçará o homem. Porque eu sou uma fêmea, esperam que eu deseje me casar, esperam que eu faça as minhas próprias escolhas na vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode ser uma fonte de alegria, amor e apoio mútuo, mas por que ensinamos às garotas a aspirar o casamento e não ensinamos a mesma coisa aos meninos? Educamos as garotas a se verem como concorrentes, não por emprego ou por realizações - o que eu penso que pode ser uma coisa boa -, mas sim pela atenção dos homens. Nós ensinamos as garotas que não podem ser seres sexuais da mesma forma que os garotos são. Feminista: a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.”

Após essa apresentação, reverberou novamente a polêmica sobre se afinal, Beyoncé é feminista ou está usando o cartaz do feminismo para se autopromover, e na verdade se esconde atrás de um discurso machista? Bom, o primeiro burburinho foi no final do ano passado, após o lançamento do seu álbum ‘BEYONCÉ’ com 14 faixas e 17 vídeos. A partir daí, Beyoncé foi alvo de elogios, reprimendas, endeusamento e críticas, matérias foram escritas para chegar ao fundo da questão, artistas do mundo da música se pronunciaram, aparentemente a ideia de Mrs. Carter ser uma mulher feminista é algo inimaginável, controverso e parece ser algo que ‘caiu de paraquedas’. Será mesmo?

No álbum 'Survivor' dos Destiny’s Child lançado em 2001, o grupo composto por Beyoncé, Kelly Rowland e Michelle Williams lançaram os singles 'Independent Women Part I' e 'Survivor', e em ambos, Beyoncé assinou a composição e a produção das músicas.

Em 'Independent Women Part I', o trio fala sobre a importância das mulheres obterem sua própria independência financeira, a cuidarem de si mesmas, mas alertam a independência não vem fácil e não é simples de mantê-la. Porém, não há nada mais libertador do que não depender de absolutamente ninguém.

Já em 'Survivor', as meninas falam de superação após o fim de um relacionamento, mas a música é muito mais do que isso. Foi algo motivador para as mulheres de todos os lugares, fala sobre transpor obstáculos, sobre encarar desafios, sobre como superar qualquer tipo de dificuldades ou problemas, nunca se distanciando da pessoa que se é, aceitando com maturidade os momentos difíceis.

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Na faixa 'Me, Myself and I' de 'Dangerously in Love', seu primeiro álbum solo, Beyoncé fala sobre ser traída, sobre ser enganada pela pessoa que se ama, que se divide uma vida e de repente perceber que não conhece essa pessoa. Porém, além do sentimento de empatia que é causado, o tom da música é de superação e de busca pela individualidade novamente fora de um relacionamento. Fala sobre confiar em seus instintos, se respeitar e a cuidar de si mesma.

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O single 'Irreplaceable' foi lançado em 'B’Day', e é curioso como essa música gerou controvérsias e foi entendida como uma afronta e um tanto agressiva em relação aos homens. Fala sobre um término de relacionamento por causa de uma traição, e a mulher substitui-o por outro, tratando-o como algo descartável. É algo sugestivo, pois Beyoncé faz uso do lugar do masculino para falar do feminino, ela inverte os papeis para provar um ponto de vista. Pois, na sociedade patriarcal, as mulheres são vistas como objetos, substituíveis sempre pela próxima, por outra que seja mais magra, que seja mais bonita, que seja mais nova. Ela demonstra como é cruel tratar as pessoas como se tivesse um prazo de validade, como coisas, como se não tivessem nenhum valor.

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Com 'If a Were a Boy', lançado como single em 'I am...Sasha Fierce', propõe uma inversão de papeis entre homens e mulheres. Como seria se uma mulher estivesse no lugar de um homem, se ela fosse homem que tipo seria, o que faria e como lidaria com o relacionamento a dois? Esse artifício é utilizado para demonstrar como existem ‘dois pesos e duas medidas’ entre homens e mulheres. Como a sociedade é mais permissiva em relações aos homens e julga as mulheres pelas mesmas atitudes, como estipula dois tipos de padrões de comportamento para homens e mulheres, e caso não sejam desempenhados são marginalizados e sofrem preconceito. Inclusive os homens, são estereotipados se não seguirem determinado comportamento preestabelecido como ‘normal’, que seja aceitável. Nesse clipe Beyoncé demonstra exatamente isso, mostra o outro lado da moeda, colocando o homem no lugar comumente ocupado pelas mulheres.

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Em 2011, Beyoncé lançou o single 'Run the World (Girls)' e o objetivo dessa música não poderia ser mais claro, empoderar o feminino. Foi feita como um hino para inspirar as mulheres, a impulsioná-las a ser exatamente o que quiserem, fala sobre quebrar barreiras, transpor obstáculos. Ou seja, é uma propagação da igualdade tão ansiada entre os gêneros, é um tributo a força, a resiliência e a tenacidade feminina.

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Em seu último álbum, Beyoncé levou tudo a outro nível, é um amadurecimento natural na construção de temas que já eram abordados desde o início de sua carreira nos Destiny’s Child. Nesse trabalho, tal qual uma colcha de retalhos, os assuntos se comunicam e se complementam mostrando seu melhor projeto, até então, no que tangem o feminino, na comunicação com as mulheres. Temos tantos exemplos como 'Blow', 'Flawless' e 'Pretty Hurts'.

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'Flawless', sem dúvida, o carro-chefe, por conta da controvérsia gerada pelo ‘sample’ usado por Beyoncé da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Mas, a canção fala também da perfeição inerente de cada mulher, sobre individualidade e como não se perder dentro de um relacionamento ao ponto de se distanciar da sua identidade, da sua personalidade, da sua carreira, ou seja, da sua vida, se transformando em uma sombra do seu parceiro.

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Porém, o maior triunfo de Beyoncé nesse álbum é o single 'Pretty Hurts'. É um manifesto necessário contra o padrão de beleza opressor estipulado para as mulheres. Ela fala sobre distúrbios alimentares como bulimia e anorexia, sobre intervenções cirúrgicas desnecessárias como plásticas e botox. Fala sobre essas dietas da ‘moda’ que são cruéis e tudo isso para alcançar um padrão de beleza, estabelecido como ‘perfeito’ e o ‘ideal’, isso tudo dói. Tudo isso dilacera a autoestima, o amor próprio feminino e cria uma geração de mulheres insatisfeitas com a própria pele, que não se sentem bonitas, atraentes, ou até amadas por não compactuarem com esse estereótipo, que não se sintam suficientes. Isso é algo muito sério e não pode ser mais ignorado, por ser um caso de saúde pública, pois esses ideais irrealistas impostos às mulheres, essa ‘ditadura’ da beleza está adoecendo e matando meninas, jovens e mulheres, seja emocionalmente ou fisicamente.

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Afinal, Beyoncé é uma feminista ou uma farsa, que busca apenas sua autopromoção com a bandeira da causa feminista? Feminista ou não, oportunista ou não, o que fica de sua discografia é uma preocupação inerente aos problemas que afligem o universo feminino. É o canal que ela criou com as mulheres, tal qual a melhor amiga, a cumplicidade e a empatia diante das dores que incomodam as mulheres. O que fica é a propagação positiva da mensagem de incentivo, superação, independência feminina, busca pela ascensão profissional, a inspiração para realizar seus sonhos, ir atrás dos seus objetivos, ou seja, o empoderamento das mulheres.


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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