Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

MULHER, VOU DIZER QUANTO TE AMO: O OLHAR FEMININO EM CHICO BUARQUE

O que é possível falar sobre Chico que ainda não tenha sido dito? Chico é conhecido por desvendar a alma feminina, como se possuísse uma bússola, um GPS interno.
Por que ele nos descreve como ninguém? Como ele consegue nos ler de tal forma e com tal profundidade? Existe uma pouco de Chico para todo mundo.


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Francisco Buarque de Hollanda é filho de intelectuais. Nascido em 62, Chico se consagrou como compositor, cantor, dramaturgo e escritor. Demonstrando-se extremamente bem sucedido em todas as áreas que se enveredou, pois sem dúvida é um dos maiores nomes da música popular brasileira. É fruto da era de ouro da MPB, oriundo do Festival da Música Popular Brasileira no qual saiu vencedor em 1966 com a música A banda composição de sua autoria.

Após isso, o resto é história. Vencedor de três prêmios Jabuti, o maior prêmio da literatura brasileira, foi dramaturgo de várias peças sendo a mais icônica a Ópera do Malandro. Chico está ao lado de grandes nomes da MPB também provenientes dos festivais como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Porém o que faz Chico ser considerado um dos maiores conhecedores da alma feminina? O que tem em suas canções que cativa e encanta tanto as mulheres? Chico conseguiu alcançar uma invejável unanimidade, pois atingiu um patamar de mito, desejado pelas mulheres como um homem ideal e invejado pelos homens que gostariam de ser como ele. Bom, falar do talento de Chico como compositor é um fato inegável. Porém como poeta demonstra um extremo senso de observação, de delicadeza e elegância para descrever emoções, sentimentos e sensações femininas, como poucos e nos deleita com uma abordagem honesta e que retrata a alma feminina em suas letras e melodias.

Ele fez uso do “eu-lírico” feminino em suas canções para contar à história sob o ponto de vista da mulher como observamos em canções como: Palavra de Mulher, Atrás da porta, Folhetim, Olhos nos Olhos, Teresinha, O meu amor, Com açúcar, com afeto, Sob Medida, dentre outras. Atrás da porta, canção eternizada na voz da pequena notável, Elis Regina conseguiu denotar em cada nota o sofrimento, o desespero, a loucura de uma mulher apaixonada sendo abandonada pelo homem que ama.

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Folhetim, música interpretada por Gal Costa nos descreveu os percalços, os revezes de uma mulher que usa de seus encantos e mistérios para seduzir o objeto de seu desejo. Porém, os vê apenas como um meio para um fim e nada mais, seguindo seus próprios instintos, caprichos e vontades, manipulando seus homens e os objetivando como troféus.

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Olhos nos Olhos ganhou vida através de uma das maiores intérpretes da MPB, Maria Bethania. Essa canção mostra uma mulher que foi abandonada, pelo homem que ama e encontrou forças dentro de si para recomeçar, para refazer sua vida, para encontrar um novo amor. Mostra à tenacidade feminina e seu poder de reconstrução, tal qual uma fênix, que renasce das cinzas, diante das maiores dores, perdas e dificuldades.

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Chico declaradamente diz que compõe para as mulheres, seja fazendo uso do “eu-lírico” feminino ou quando nos presta uma homenagem, colocando nomes de mulheres em suas canções como Ana de Amsterdam, Carolina, Beatriz, Barbara, A Rita e tantas outras que foram agraciadas por suas belas músicas.

É notório que possui um insight da alma feminina, conseguindo tocar coisas que não estão na superfície, algo que não é banal, mas sim uma análise mais elaborada, possui um olhar mais atento, mais demorado sobre nós. Apenas um homem que admire e ame muito as mulheres poderia escrever com tanta verdade.

Chico foi casado trinta e três com Marieta Severo e dessa união teve três filhas, três mulheres! Bendito fruto, sem dúvida. Mas aposto que não reclamou, estava exatamente onde sempre quis estar, rodeado, cercado e amado pelas mulheres.

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Segundo Jung, considerado pai da psicologia analítica e ex pupilo de Freud, todos nós, homens e mulheres possuímos uma complementaridade entre a consciência e o inconsciente, ela estabelece que o homem tem uma alma feminina – a anima - e a mulher, uma alma masculina – o animus. Para Jung, o que caracteriza a feminilidade da anima é o sentimento, enquanto o animus está ligado predominantemente ao pensamento racional, essencialmente masculino.

Chico sem dúvida desenvolveu e aflorou ao longo de sua vida a sua alma feminina, ou anima, entregando em cada canção composta sua alma e seu coração. Suas canções tomaram vida própria, pois possuem uma carga dramática e uma visceralidade o que demonstra uma entrega genuína de seu compositor.

As suas músicas são reais, falam de pessoas de verdade, com seus problemas, suas dificuldades diárias. Chico é um cronista como poucos, pois é um hábil contador de histórias seja em suas canções, seja como dramaturgo ou como escritor. Por isso cativa e toca as pessoas, pois faz cada um se sentir único, especial, que aquela música, que aquela peça ou aquele livro foi escrito só para você. Feito para nos encantar, para nos consolar nos momentos difíceis e para nos dar força.

Escreve especialmente, sobre mulheres de carne e osso que sofrem, amam, perdem, erram, que não tem medo de se reinventarem, de recomeçarem do zero, pois não lhes falta coragem e resiliência.

Quem nunca viveu a dor de ser abandonada, largada pelo homem que ama? A perda de um grande amor foi retrata e imortalizada brilhantemente na voz de Elis na canção Atrás da porta. Até a própria Elis se separava então de seu atual marido, Ronaldo Bôscoli e nos presenteou com uma interpretação inesquecível e emocionada por estar vivendo em sua própria vida a dor de uma separação.

Quem nunca quis ficar gravada, marcada pra sempre no corpo, na mente e no coração de quem se ama numa simbiose que une uma alma em dois corpos como na letra de Tatuagem?

Acredito que esse é o ponto crucial, o que o difere dos seus pares, ele materializou as mulheres, as humanizou. Pois as mulheres eram retratadas como um ser perfeito, inatingível, colocadas em um pedestal. Apesar de aparentemente lisonjeiro não é uma representação autêntica e sim uma projeção irreal, sendo impossível qualquer mulher atingir a essas expectativas, sendo fadadas ao fracasso, tanto para as mulheres por não conseguirem alcançar nunca esse “ideal feminino”, como para os homens por não conseguirem encontrar esse ideal de mulher.

Escreveu sobre mulheres para as mulheres, testemunho disso a quantidade de intérpretes femininas escolhidas para dar vida a suas canções como Elis Regina, Maria Bethania, Gal Costa, Nara Leão, Nana Caymmi, dentre outras.

Com isso, Chico foi mais além, além do óbvio, do que é convencionado, tentou genuinamente desvendar a psique feminina. Tentou enxergar a mulher em sua plenitude com as suas qualidades e defeitos. Que me perdoem os incrédulos, mas Chico é fundamental!

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Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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