Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

A peça que faltava

Sobre o crescente desemprego, principalmente dos jovens, em tempos de crise política e econômica no país. As consequências não só na vida financeira, mas principalmente na pessoal e como isso afeta a nossa autoestima, a forma de ver o mundo e de se relacionar com ele.


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A nossa geração está passando pela primeira crise propriamente dita e é muita coisa para administrar devido ao momento crítico que o país está passando. E estar sem emprego é algo muito complicado por motivos óbvios, mas vai além, afeta muita mais que o lado financeiro. Na nossa sociedade capitalista, o nosso valor como pessoas, como indivíduos é medido por quanto ganhamos, de quanto dinheiro fazemos, pela nossa profissão ou cargo que ocupamos é o indicativo de sucesso e de uma pessoa bem sucedida.

Então, desempregados, nos tornamos do dia pra noite, invisíveis. Simplesmente desaparecemos e nos tornamos obsoletos quando não podemos mais consumir e fazer o dinheiro circular. Ficamos à margem dentro desse sistema arbitrário de seleção, no qual se importa com quem consome mais, quem tem mais dinheiro e com isso possui um maior capital de compra.

Com isso, não somos afetados apenas como consumidores, mas como indivíduos, na nossa autoestima e sentimos que fracassamos por estarmos nessa situação, por estarmos passando por isso. Nos sentimos frágeis e derrotados, mas na verdade somos um efeito colateral de um sistema extremamente competitivo que mede o valor, o potencial de uma pessoa simplesmente através de resultados.

Através de números e projeções, com isso acaba segregando as pessoas e gerando uma cultura de consumo desenfreado, apregoando que o objetivo é apenas ter um status social e ganhar cada vez mais dinheiro para poder manter esse estilo de vida, que cada vez vai ficando mais alto.

Não se engane, o capitalismo se alimenta de si mesmo. A gente trabalha pra poder viver ou vive pra trabalhar? Ter dinheiro é uma ferramenta pra conseguir as coisas ou um objetivo em si mesmo? Quem é mesmo o dono de quem? A gente tem sim que reavaliar as nossas prioridades ao longo do caminho, para termos certeza se (ainda) continuamos traçando a rota certa pra nós.

Nós não somos estimulados a escolher a nossa vocação ou a profissão que mais se enquadra com o nosso perfil e personalidade. No nosso mundo globalizado, onde o dinheiro e o estilo de vida é o foco a ser alcançado, a escolha de uma carreira é automaticamente voltada para o mercado, no que será mais rentável financeiramente e o que terá um retorno maior em curto prazo.

No capitalismo, não há tempo a perder e o dia nunca será longo o suficiente pra quantidade de coisas que temos que fazer. Vivemos pressionados, estressados, com prazos, metas a serem cumpridas e temos a sensação que estamos perdendo tempo, que deveríamos estar fazendo algo, fazendo mais.

Estudando mais, se especializando mais, fazendo mais cursos e MBA's. Sentimos que não estamos fazendo o suficiente, que estamos ficando pra trás, que sempre tem alguém melhor preparado do que a gente. Ficamos tentando alcançar, tentando ser algo que (achamos) que devemos ser ou que devemos fazer.

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Acho que é por isso que a gente às vezes, se sujeita a tanta coisa, a uma dose diária de falta de consideração e de respeito como profissionais e até de humilhação. A verdade é que na maioria dos lugares que trabalhamos, somos apenas uma peça na engrenagem, somos um crachá, um número.

Não somos vistos como pessoas, com uma história de vida, com família, com medos, sonhos e problemas como todo mundo. Quando não nos querem mais por qualquer motivo que seja, somos apenas um corte, uma redução de custos, uma marolinha dentro do tsunami da crise, ou seja, somos uma peça.

E o que é feito quando uma peça dá defeito ou não funciona como a gente queria? Ela é descartada, substituída por outra mais nova e que custe menos para a empresa. O mercado de trabalho hoje, com suas devidas exceções, é um grande maquinário, onde todos nós fazemos parte da mesma engrenagem e com isso dos mesmos problemas. Tais como peças, temos um prazo de validade, uma vida útil, somos todos em algum momento, descartáveis, substituíveis.

O sistema em si se alimenta disso, das nossas inseguranças, da nossa necessidade de trabalhar, de ganhar dinheiro e para ele é fundamental que a gente se sinta assim mesmo pra nos sujeitarmos, para nos submetermos e acreditarmos que o empregador está fazendo um grande favor em nos contratar. Que precisamos mais dele do que ele da gente, que se não nos contratar estaremos perdidos.

A verdade não é bem assim, é apenas assim que eles fazem parecer, se não nos questionarmos e continuarmos numa atitude subserviente, nada disso irá mudar. As empresas nos contratam por sermos uma mão de obra qualificada e nós em contrapartida, aceitamos a oferta por ser um bom lugar para se trabalhar. Entenda que é claramente uma troca, um acordo, uma via de mão dupla e quando esse acordo não for mais conveniente entre alguma das partes, ele será rompido. Simples assim.

Temos que buscar ter uma relação mais saudável com tudo isso, porque o mercado de trabalho, a máquina capitalista é um rolo compressor e nos derruba se permitirmos. Devemos tentar não levar para o pessoal, não deixar que uma demissão mine a nossa autoestima e nossa autoconfiança no nosso potencial, afinal nós não somos o nosso trabalho, ele não nos define, é apenas uma das facetas, um dos papeis que desempenhamos na nossa vida.

Por isso, temos que nos dissociar do que somos como indivíduos do papel que desempenhamos como funcionários, como força de trabalho. Ver as coisas sobre essa ótica é se empoderar e tentar buscar um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e o trabalho dentro desse sistema que pode ser hostil e tão opressor.


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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