Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

Do lado de dentro

'A Outra', mais uma película brilhante de Woody Allen, nos leva a uma jornada íntima junto com Marion, personagem de Gena Rowlands, e nos vemos nos perguntando como ela: o que eu fiz com a minha vida? Era essa vida que eu queria ou foi escolhida pra mim? Eu fiz o que me faz feliz? Eu tive a coragem de escolher o que é melhor para mim?


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Nesse fim de semana assisti a um filme do Woody Allen que nunca tinha ouvido falar, ‘A Outra’ com as atrizes Mia Farrow e Gena Rowlands como personagens centrais. A temática do filme é bem singular, uma trama instigante, como os filmes do Woody Allen costumam ser.

O filme conta a história de Marion Post (Gena Rowlands), uma mulher de 50 anos, bem casada, realizada profissionalmente, com uma família bem estruturada e bons amigos.

É a partir desse pressuposto que o filme dá o pontapé inicial e essa é percepção, a autoanálise da própria Marion sobre a sua vida quando a conhecemos logo no início do filme.

A personagem de Rowlands aluga um apartamento para escrever seu livro durante o dia, para poder sair de casa e conseguir escrever sem distrações e interrupções.

Porém, quando se aloca no apartamento e começa a escrever, escuta um ruído que a chama atenção. Curiosa, ela procura de onde o som vem e percebe que é uma voz de mulher, na verdade que está vindo pela tubulação de ar, ou seja, através desse problema, ela consegue ouvir pela fresta da parede sons do apartamento vizinho.

É quando ela se dá conta, que no apartamento ao lado, é na verdade utilizado como um consultório psiquiátrico, onde o médico recebe pacientes com hora marcada para fazer terapia.

Através da voz, somos apresentados através do ponto de vista de Marion a personagem de Mia Farrow, Hope fazendo análise. Marion escuta Hope falando com seu terapeuta sobre tudo: suas dores, dificuldades, sobre sua história de vida.

A grande sacada do filme, o pulo do gato, é que quem acaba fazendo terapia também por tabela, por associação ou contraposição é Rowlands que escuta tudo que Hope divide com seu terapeuta.

Ou seja, a partir dos questionamentos da ‘outra’, Marion começa a repensar sobre todos os aspectos da sua própria vida e começa a se dar conta que ela não é tão estruturada assim como ela sempre achou, que na verdade, isso é construto feito por ela mesma.

E então, observamos a desconstrução de Rowlands bem diante dos nossos olhos e diante dela mesma também, pois ela vai se dando conta da precariedade da sua vida, de como ela realizou um autoengano, talvez para poder seguir, para poder sobreviver.

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Visto que, Marion se julgava com um grande rigor e disciplina, que não conseguiria se sentir realizada se sua vida não alcançasse grandes realizações e altos padrões que ela mesma se impôs. Aqui temos Woody Allen fazendo o que faz de melhor, criando uma narrativa inventiva, com um roteiro ágil e o carimbo de criatividade que só ele nos presenteia com a sua forma única de ver as pessoas e o mundo a sua volta.

Nos faz embarcar em uma sessão de terapia também, junto com Marion, pois como ela, começamos a pensar sobre as nossas próprias vidas, reavaliarmos algumas questões, dúvidas, finalmente refletimos sobre algumas coisas.

E quando achamos que somos meros espectadores, Woody subverte tudo e eis que estamos deitados também naquele divã com Hope ou ouvindo tudo com Marion.

E uma vez que olhamos as coisas sobre o outro ponto de vista, nada será como antes, pois não seremos mais os mesmos.

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Como diretor e roteirista, ele é o maestro, o condutor que nos leva, que nos estimula a olharmos para dentro, para os recônditos da nossa consciência, para irmos além da superfície, do óbvio e realmente refletir sobre as coisas. Nos convida a dissecar sobre as nossas escolhas, sobre as decisões que nos trouxeram até aqui.

E se? O outro lado da moeda, esse campo das possibilidades, como as coisas poderiam ser se tivéssemos feito outras escolhas. Infelizmente, é inevitável questionar como nossas vidas poderiam ter sido se os nossos nãos fossem sins, se tivéssemos escolhido o caminho à esquerda ao invés da direita, e se tudo fosse diferente?

Nesse mundo cheio de verdades absolutas e certezas cristalizadas, algo que não podemos fugir ou controlar são as consequências das nossas próprias decisões. E é isso que Marion se vê confrontada, com seu passado, com suas escolhas, com seus erros e sim, com os seus possíveis acertos.

A desconstrução da sua personagem é milimetricamente arquitetada por Woody Allen com uma precisão quase cirúrgica, conhecemos uma mulher inabalável, confiante e muito segura de si no início do filme.

E à medida que vamos conhecendo-a melhor, somos reapresentados a uma nova pessoa, a uma mulher de carne e osso, humana, que cometeu erros, e que se arrependeu, como todos nós.

Com isso, nos identificamos com ela, de forma instantânea, sentimos empatia, quando percebemos tudo o que Marion teve que passar, o caminho de volta que teve que percorrer para poder se encontrar.

Não estava vivendo de verdade, porque estava vivendo uma mentira, uma vida de conveniência, estava ensaiando, quando que a vida nos pede o tempo todo que mergulhemos de cabeça.

Sim, o medo de errar paralisa e se deixarmos pode nos manter reféns pra sempre. Mas viver implica fazer escolhas, decidir, optar e isso nos causa desconforto porque o ato de escolher implicitamente propõe um abandono, uma deserção da outra opção. E não lidamos muito bem com a perda, com as oportunidades perdidas ou às vezes, desperdiçadas.

Como Marion, um dia podemos acordar e nos perguntar: o que eu fiz com a minha vida? Era essa vida que eu queria ou foi escolhida pra mim? Eu fiz o que me faz feliz? Eu tive a coragem de escolher o que é melhor para mim?

Essa premissa fantástica que Woody Allen nos propõe e nos convida a questionarmos. Nos sentimos como voyeurs espiando pelo buraco da fechadura algo tão íntimo e particular como falar dos nossos sentimentos, nossas dúvidas e nossos medos. Acabamos por fim, na terapia, analisando e dissecando a nossa própria vida.

Mas essa viagem é sempre solitária, individual e intransferível, pois a jornada é só nossa. Cabe a nós mesmos encontrarmos as ferramentas presentes em cada um de nós e usar a nossa bússola para que sigamos o melhor caminho, que sigamos na direção do que realmente importa. A nossa felicidade.


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
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