Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas.

Aquilo que nos completa

O que nos faz sentir que somos inteiros? Que pertencemos? Que somos parte de algo ou de alguém?


1. O que nos completa.jpg

Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. São duas certezas absolutas em uma só frase. Obviamente o que fazemos entre um e outro, isso fica com a gente. Cada um segue seu caminho, traça planos, metas, constrói famílias, tem filhos ou não, lida com separações, mortes e em algum momento, nos vemos sozinhos de novo.

Deveríamos saber lidar melhor com a solidão, com o fato de estarmos sozinhos. Entenda que estar sozinho e se sentir solitário são coisas diferentes. Você pode estar sozinho, mas não se sentir só e podemos estar cercado por uma multidão e nos sentirmos o mais solitário dos seres.

Acho que todos nós em algum momento da vida já nos sentimos sós, sozinhos no mundo, isolados como uma ilha do resto da humanidade. E esse sentimento é sim normal e pode fazer parte de um momento, uma etapa que passamos na vida, que tem muito mais a ver com a gente do que com os outros (apesar de acharmos o contrário).

O que não pode é esse sentimento perdurar por longos períodos, anos, até finalmente nos darmos conta que estamos isolados do mundo sem caminho de volta. Não se engane, se você se recusa muito a sair, a estar nos lugares, as pessoas param de te chamar com no máximo três negativas seguidas.

Eu sei, as pessoas que deveriam ser seus amigos e insistir em você, deixam pra lá? Com certeza. Vamos ser sinceros, vivemos cada vez mais em um mundo individualista onde as pessoas não veem o outro ou o que ele quer, veem apenas projeções de si mesmas. No processo de decisão de qualquer coisa, sempre vem seu bem estar, sua conveniência na frente do resto.

Nunca estivemos tão conectados, mas ao mesmo tempo tão solitários. Quando a solidão não é mais uma fase e se torna uma constante na vida, conseguimos por incrível que pareça viver de forma amigável com ela. Afinal, o incrível de nós seres humanos é que aprendemos de uma forma ou de outra, a lidar com tudo, eventualmente acabamos nos acostumando com essa condição, com essa escassez na vida e isso não é bom.

Não é bom nos acostumarmos com pouco ou nada, não é bom termos vazios existenciais que não são preenchidos, não é bom achar normal não nos sentirmos normais, não nos sentirmos inteiros, não nos sentirmos bom o suficiente pra o quer que seja. E sim, a solidão não anda sozinha, ela traz com ela a autoestima e a autoconfiança.

Quer dizer, a falta delas. Quando nos sentimos solitários, com o tempo começamos a nos apequenar, a achar que não somos capazes de ter amigos ou encontrar alguém, não nos achamos interessantes, atraentes o suficiente para ter esse tipo de atenção. Com isso, nós vamos nos sentindo cada vez mais e mais invisíveis, nos afogando, presos na nossa própria solidão.

Podemos nos sentir solitários quando estamos sozinhos e podemos nos sentir solitários cercado de amigos. Os fatores mudam, mas não alteram o produto: a solidão. Acho que tem milhares de motivos para nos sentirmos assim e cada um sente as coisas de um jeito. Mas acho que quando é algo passageiro e não algo permanente, a solidão pode nos deixar desconectados das coisas, das pessoas, às vezes da nossa própria vida.

Precisamos pertencer, precisamos nos sentir incluídos, conectados com alguém em algum nível emocional, intelectual ou profissional para nos sentirmos inteiros, validados, compreendidos por outra pessoa. E acho que quando isso não acontece com ninguém em nenhum desses níveis, é um dos diversos fatores que contribuem para nossa solidão.

Acho importante aprendermos a lidar com a vida e as situações que ela nos apresenta sozinhos, mas acho não só fundamental para o autoconhecimento como empoderador nos tornarmos senhores de nós mesmos. Mas não acho que devemos experienciar a solidão em qualquer esfera que seja, é isolador se sentir a margem, sentir que não é especial ou suficiente para alguém.

Acho que somos, todos nós, ilhas em nós mesmos e podemos passar a vida assim talvez sem maiores problemas. Mas a vida tem mais cor quando é compartilhada com o outro: seja com a nossa família, com os amigos, dentro de um relacionamento, com os vizinhos ou até com seu bichinho de estimação.

Afinal, vivemos em comunidade por um motivo para nos apoiarmos, nos ajudarmos e até nos complementarmos quando for preciso. Estamos todos à deriva, a procura de sentido, de conexão, de algo que nos toque de alguma forma para assim construirmos pontes e de repente, não estarmos mais sozinhos nessa ilha que somos cada um de nós.


Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Apaixonada incondicionalmente por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen. Acredito que tudo fica melhor ao som de uma música e com um bom livro a tiracolo. Escrevo para o blog A razão de toda pressa e o site Engramas..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious //Ana Carolina Garcia
Site Meter