caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Glória no sacrifício

Narrativa policial. Ótica sombria. Frank Miller e seu relato sobre a Batalha das Termópilas.


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As histórias em quadrinhos, assim como o cinema, muitas vezes reproduzem com fidelidade grandes acontecimentos históricos. Essa suposta veracidade no representar dos fatos é somada à ótica peculiar dos roteiristas, desenhistas e diretores. No caso da obra Os 300 de Esparta, Frank Miller expôs sua visão de como teria sido a sangrenta e brutal Batalha das Termópilas, na qual duzentos e noventa e nove espartanos, liderados pelo Rei Leônidas, lutaram contra o avanço do gigantesco exército persa, guiado pelo tirano escravizador Xerxes. No ano de 2007, o diretor Zack Snyder adaptou o traço de Miller para a sétima arte, obtendo considerável sucesso. Porém, a qualidade de sua adaptação não possui os detalhes e a beleza do texto original.

Frank Miller é um quadrinista consagrado por trabalhos como Batman: O Cavaleiro das Trevas e Sin City. Em Os 300 de Esparta ele constrói, assim como nas obras anteriores, seus cenários e personagens com características sombrias e cores que remetem à estética noir, combinando a ambientação da Antiguidade com narrativa policial ágil e de corte seco, tal fosse a mais afiada das lanças. O relato é feito através de recortes que retomam o passado, explanando os motivos que levaram os dois exércitos a guerrearem.

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Com o intuito de ampliar os seus domínios, Xerxes propõe aos espartanos que concedam parte de seus recursos naturais a ele, um rei tido como deus. As obstinação e honra espartanas fazem Leônidas não se curvar perante o gigantesco exército persa, sendo a oferta pronta e brutalmente recusada. O mesmo princípio que o solitário e vulnerável menino Leônidas usou para abater o lobo durante seu teste espartano de resistência, o Rei também o coloca em prática para desestruturar um inimigo ainda maior. O narrador é o único sobrevivente dessa batalha.

Contador de histórias habilidoso no manejo das palavras, ele é o encarregado de espalhar aos quatro ventos o feito de Leônidas, um rei consciente de que a guerra não simbolizaria a sobrevivência dos que nela duelaram, mas a resistência contra um adversário de maior capital e potência bélica, assim como fizeram o enigmático rebelde mascarado de V de Vingança e o próprio Batman de Miller, em O Cavaleiro das Trevas. Após essa sangrenta contenda, quando um absurdo número de cabeças persas rolaram diante de um minúsculo exército, qualquer espartano poderia assumir o papel de seu Rei.

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Além do que o espera no front de batalha, o Rei de Esparta ainda terá de enfrentar a corrupção presente em sua esfera social, representada pela figura dos Éforos, velhos e retrógrados oráculos que vivem no topo de uma montanha. Apesar de serem venerados pelos membros de sua sociedade, deixam-se seduzir e subornar pelo ouro do inimigo: "Nunca existiu um homem sacro que não amasse o ouro." E são a riqueza e glória corruptas que levam um espartano rejeitado (por conta de suas deficiências e bizarrices físicas) a trair e entregar a posição de seus compatriotas.

Baseado em um fato histórico e com sua reconhecida competência no território das histórias em quadrinhos, Frank Miller mostra mais um vez que nem sempre o renome reside na vitória. A glória está, na verdade, intrinsecamente ligada ao sacrifício.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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