caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Geradores de polêmica

Polemizadores e suas polêmicas (que nem sempre fazem sentido).


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Em um pequeno, velho e amarelado dicionário Aurélio, o termo "polêmica" encontra-se brevemente definido como "controvérsia oral ou escrita". Apesar da sucinta definição, é uma palavra que normalmente inicia grande discussão. O problema talvez seja analisar se o ato faz sentido ou é uma tentativa do indivíduo que o produz de provocar seu interlocutor e apenas aparecer. Alguns serão amados, outros odiados. Discussões em mesas de bar, filas de padaria, bancas de jornal e redes sociais (o mais novo campo de batalha para a defesa de pontos de vista) serão geradas. O importante é discutir e que todos tenham suas versões ouvidas, mesmo sendo elas descabidas.

Diretores como Stanley Kubrick cutucam a ferida do espectador, com temas que incomodam pela intensidade com que são mostrados. Nascido para matar (Full Metal Jacket, 1987) é um bom exemplo disso, ao apresentar a cruel e repressora preparação de soldados americanos para a Guerra do Vietnã. Rubem Fonseca teve seu livro de narrativas curtas Feliz ano novo (1975) barrado pela censura do regime militar, principalmente por causa do conto homônimo, em que três homens invadem uma casa e cometem crimes escabrosos sem serem punidos.

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Periódicos de todo o mundo cedem espaço a escritores, filósofos, advogados, poetas, economistas, publicitários e, claro, jornalistas. Basta que possuam talento para escrever textos interessantes, bem articulados e providos de certa carga cultural, com referências que instiguem leitores e os tornem fiéis seguidores desses articulistas. Jornais como a Folha de São Paulo apresentam um extenso e variado cartel de profissionais desse tipo. Muitos deles são lidos por grandes personalidades políticas, executivas ou artísticas do país e sabem que sua palavra tem o poder de um terremoto, muitas vezes em consequência da experiência no ramo do jornalismo. É o caso, por exemplo, de Jânio de Freitas, jornalista que atua no campo político, mas pode opinar sobre qualquer outro assunto, pois seu nome atrai a atenção de pessoas e grandes instituições.

Jânio não precisa frequentar o lixo das redes sociais, muitas vezes ocupado por desocupados que ganharam voz forte e ativa nas timelines alheias. Mas mesmo nos grandes órgãos de imprensa há pessoas dessa categoria, que volta e meia gostam de atiçar fogo em grama ressecada para ficarem no centro da fogueira. É o caso do filósofo Luiz Felipe Pondé, que escreve no caderno Ilustrada da Folha às segundas-feiras. Além de serem munidos de grande complexidade reflexiva, seus textos são reconhecidos pela polêmica muitas vezes desnecessária. Foi o que ocorreu com seu artigo "Bonecas de quatro", publicado no dia 10 último, em que ele ataca feministas de maneira aberta e agressiva.

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Um bom medidor de incômodos causados é o Painel do Leitor. E, pelos e-mails publicados depois da edição do texto, conclui-se que, apesar de suas posições muitas vezes consideradas estúpidas, Pondé gera grande audiência, todo início de semana, para a última página do caderno em que escreve. Mesmo se portando como os vadios do Facebook, o colunista não será destituído de seu cargo, pois é um grande gerador de polêmicas.

E controvérsias, convenhamos, geram receita.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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