caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

O balancete de Martin Santomé

Mario Benedetti traça a inexatidão de uma vida previamente calculada.


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Acordar, trabalhar, comer, sobreviver. Escrito em forma de diário, A Trégua, do uruguaio Mário Benedetti, mostra a trajetória de um homem resignado à rotina diária, que flutua sobre uma zona de conforto da qual não abre mão.

Protagonista e narrador de seu cotidiano, Martin Santomé é o relator dos dias que antecedem sua aposentadoria. Em meio a uma crise de meia-idade, ele teme ao ócio iminente, que o arrancará de seu repetitivo e monótono cotidiano laboral.

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Seus hábitos são encarados como algo que o blinda de frustrações. Qualquer evento que saia disto trás certo desequilíbrio emocional, por isso, Santomé, viúvo e pai de três filhos, junto à mesa do escritório ou de um café, vive dias automáticos, que remetem à mecânica maneira como realiza seu trabalho de contador: “Hoje foi um dia feliz. Só rotina.”

Sujeito que se dá muito bem com a contabilidade, tem extrema dificuldade em se relacionar com seus próximos. Dedica-se a coisas exatas, ignorando a complexidade das existências que o cercam. O sexo é uma atividade de prazer momentâneo, enquanto a vida em família se compõe de relações conflituosas, já que ele não sabe e nem quer exercer seu papel de pai. As antigas amizades são, em sua maioria, algo que não deixou nenhum tipo de saudosismo.

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Suas anotações diárias mostram que, por trás de cada rosto impassível, sorridente ou amargurado, há a frequente e ininterrupta sucessão de pequenas desgraças cotidianas. As rotinas paralelas se entrelaçam, cada qual com seu mundo sombrio e particular.

As chances ilusórias de Martin Santomé, promessas de felicidade, são dadas por Isabel e Avellaneda, as mulheres de sua vida. Cada oportunidade constitui um abrupto e traumático rompimento cíclico, que é seguido de indagações sobre a existência de um deus/Deus perverso e manipulador.

Martin Santomé, metódico contador, faz um balancete existencialista de sua biografia automatizada, desprovida de sentimentos. Quando ele finalmente redescobre o que é sentir algo, um golpe fatídico tira a única coisa boa de seu calculado e inexato dia-a-dia.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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