caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, é colaborador dos site Homo Literatus e autor do blog O paralelo.

O Chevalier de Edgar Allan Poe I

Primeiro de uma série de três artigos que tratam da trilogia protagonizada por C. Auguste Dupin, o excêntrico personagem concebido por Edgar Allan Poe que inspirou muitos escritores na criação de seus detetives e mudou os rumos da ficção policial.


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Edgar Allan Poe é sabidamente um ícone das histórias de terror e mistério.

Seu legado é de grandeza imensurável. Mas, talvez, a sua maior influência esteja nas narrativas policiais. Seu protagonista, o excêntrico chevalier C. Auguste Dupin serviu de base para a criação de inúmeros detetives. Arthur Conan Doyle concebeu Sherlock Holmes. Agatha Christie criou Hercule Poirot. Todos eles peculiares cavalheiros que resolvem enigmas por meio de investigações cerebrais, ao contrário do que ocorre no romance policial estadunidense, em que o personagem principal soluciona seus enigmas por meio da violência e do acaso, como Sam Spade e Philip Marlowe.

"Assassinatos na Rua Morgue" é o primeiro dos contos da chamada trilogia Dupin. O narrador, um Dr. Watson sem nome, para introduzir a trama a ser relatada, faz diversas comparações entre tipos de jogadores. Ele opõe enxadristas e jogadores de dama: os primeiros calculam, os últimos analisam. Alguns são inteligentes, outros concentrados e ainda há a classe dos perspicazes. Mas, segundo ele, o analista é o tipo de jogador mais atento, que nota variações externas e internas. É aí que se enquadra Dupin, um intelectual amante da escuridão, que lê, reflete e produz de maneira mais eficiente nas trevas.

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Neste conto, um misterioso crime, em que mãe e filha são brutalmente assassinadas, é o quebra-cabeça a ser resolvido. O jornal apresenta testemunhas que ouviram barulhos no interior do apartamento em que ocorreram as mortes. Como eram de diferentes nacionalidades e não conheciam o "idioma" falado pelo suposto assassino, cada um dá sua opinião.

A força policial, como é recorrente nas narrativas criminais, mostra-se perdida. Aos seus olhos, o caso se define como insolúvel. É por isso que Dupin, um indivíduo de comportamento distraído e personalidade vazia, entra no caso, já que enxerga além dos relatos publicados pela imprensa local. Ele recorre a argumentação dialética e a estudos teóricos na busca pela verdade, provando sua grande bagagem intelectual. A descoberta do inimaginável assassino mostra o motivo pelo qual C. Auguste Dupin é considerado um personagem imortal e digno de inspiração para tantos escritores.

Anti-hérói. Sutil. Enigmático. Amoral. O chevalier de Edgar Allan Poe segue presente nas entrelinhas da ficção contemporânea.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, é colaborador dos site Homo Literatus e autor do blog O paralelo..
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