caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Sonhos abandonados

Quantas vezes não estabelecemos um plano no dia 1º de janeiro de um novo ano para logo depois abandonar tudo, confirmando o quão hipócrita é o homem consigo mesmo?


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Nossos sonhos já nascem com a infeliz sina do fracasso. Eles são frágeis e quebradiços como cristal e castelos de areia, e nós, os seus idealizadores, somos fracos e volúveis ao ponto de abandoná-los em troca de algo mais imediato e com efeito instantâneo, como uma droga ruim cujo barato dura o tempo do abrir e fechar de um sorriso que logo se transforma em lágrimas. A humanidade não passa disso: um amontoado de sonhos despedaçados.

Quando construímos um plano em nossa cabeça, uma rotina, um script diário e repetitivo, tudo isso possui a intenção de atingir uma meta, que pode ser definida como algo sonhado e almejado. Visualizamos esse resultado final, um dia utópico que muitas vezes não chegará. Se todos os projetos individuais se concretizassem, talvez vivêssemos em um mundo melhor e mais tranquilo.

Lucien, personagem onírico da onírica série de histórias em quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman, guarda uma biblioteca entulhada de livros que foram apenas idealizados, mas nunca escritos ou publicados. A pena e o papel foram deixados de lado por algum motivo e os leitores foram privados de uma possível grande obra.

Sonhos abandonados podem ter diversas formas e imagens. Uma bicicleta ergométrica empoeirada e encostada num canto, com a função de suporte para trapos e outras quinquilharias, denuncia que seu dono a utilizou por no máximo cinco vezes, tendo comprado esse item no dia em que estabelecera o plano de levar uma vida mais saudável, chegou mesmo a imaginar-se em plena forma, mas foi corrompido pelos antigos vícios, a alimentação gordurosamente desregrada, a bebedeira, o cigarro, o sofá, a televisão.

Um livro é iniciado, o plano de leitura é estabelecido, até o fim da semana, do mês, do ano, eu termino essa pequena grande obra, mas o marcador de páginas caminha a vagarosos e sofríveis passos, o livro é pesado, não consigo ler no ônibs, estou muito cansado, ler me dá sono, então o volume é abandonado, tendo como única e solitária companhia o marcador, afinal, a vida com Facebook, mesas de bar, baladas e pessoas é muito mais interessante que a ficção.

Nossos sonhos, os sonhos do mundo, o american dream, enfim, foram todos abandonados.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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