caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

A vingança orquidária

Neil Gaiman e Dave McKean unem brutalidade e delicadeza numa só obra.



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Orquídea Negra é uma minissérie com roteiro escrito por Neil Gaiman, esse inglês que deve ter sido um daqueles sábios contadores de histórias que reuniam pessoas em volta de fogueiras em outra encarnação, e imagens fotorrealistas magnificamente feitas por outro inglês, fotógrafo e ilustrador, Dave McKean. Dupla já conhecida dos quadrinheiros fanáticos, parceiros em histórias legais como Sinal e Ruído, Violent Cases e Mr. Punch (não necessariamente nessa ordem cronológica). A edição que serve de base para esse escrito é o encadernado luxuosamente lançado pela Panini, que contém em seu miolo a série lançada em 1988 na íntegra.

No texto prefacial escrito no já (ou nem tão) distante ano de 1991 por Mikail Gilmore, jornalista da revista Rolling Stone, o autor ressalta a importância do retrato da violência nas histórias em quadrinhos. Seria uma forma de analisarmos mais friamente a brutalidade que assola nosso mundinho real por meio da ficção (cada vez mais realista). Talvez seja o que dinossauros como Dashiell Hammet, James Ellroy, Frank Miller e irmãos Cohen tentem fazer em seus respectivos livros e filmes.

E violenta é como a história começa. Um criminoso malucaço, leitor de gibis assim como qualquer nerd trancafiado em seu quarto, consciente da invensibilidade desses malucos fantasiados que se dizem defensores da justiça, mata a heroína que protagoniza a trama como se ela fosse um frágil botão de rosa. Fazendo as vezes de um Brás Cubas machadiano, ele aponta o dedo na cara do leitor e vocifera: "assim como vocês, eu conheço o ponto fraco desses super-heróis bundões! Babacas!", ou algo do tipo.

Os viciados em quadrinhos têm plena consciência de que Neil Gaiman aprecia apontar seu holofote narrativo para personagans mais "lado B", dando um status pop e ao mesmo tempo cult a suas obras. Foi o que ele fez com a obscura Orquídea Negra, heroína considerada até então menos do que uma coadjuvante, criada nos idos de 1973, poucas vezes utilizada nos gibis do universo DC. É o que ele faria algum tempo depois com Sandman, para se ter uma ideia do imaginário do cara.

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Após o assassinato da heroína que dá nome à série, um novo ser, muito mais botânico do que humano, desperta com as memórias da conturbada vida de Suzan Liden-Thorne, identidade secreta da vigilante que a antecede. Sem saber exatamente o que ou quem é, essa nova Orquídea Negra parte em busca de respostas sobre os motivos de sua existência, mas para isso terá de lidar com os antigos inimigos de sua antecessora, liderados por um certo Lex Luthor. Os prisioneiros do Asilo Arkham, como Hera Venenosa, conhecidos por serem criminosos cruéis e implacáveis, são apresentados como malucos fragilmente débeis, tipos carentes que sofrem com sua maluca insanidade. Há ainda espaço para as humanizadoras e reais participações do Monstro do Pântano e do Morcego de Gotham City.

A narrativa de Neil Gaiman, entrelaçada com canções de Lou Reed e Frank Sinatra, tem algo de suavemente poético. A arte fotograficamente classuda de Dave McKean alterna momentos em que põe à frente do leitor certa estética noir (para mostrar a insana brutalidade dos homens) e em outros um bruto colorido psicodélico (quando é o caso de representar as delicadas vísceras orquidárias).

Essa dupla de ingleses mostra que a vingança das orquídeas não é violenta. Não é necessário o derramamento de sangue quando se pode tirar algo do coração. Vale a leitura, para leitores frequentes de histórias em quadrinhos ou apenas leitores.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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