caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Tungstênio, de Marcello Quintanilha

Crime ambiental. Suspense. Passado e presente. "Fotografia" em preto e branco. Coloquialismo baiano. Quatro histórias de pessoas comuns que se tocam pelas ruas de Salvador.


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Tungstênio é o elemento químico mais pesado encontrado na natureza, usado em filamentos de lâmpadas incandescentes, elétrodos, foguetes, aviões, aços, etc. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra vem do sueco tungsten, formado de tung ‘pesado’ e sten ‘pedra’, para nomear o elemento químico descoberto em 1793 por Juan Jose Elhuyar e Fausto Elhuyar.

É o nome desse metal de transição que Marcello Quintanilha escolheu para a história em quadrinhos por ele escrita e desenhada, muito bem impressa pela editora Veneta. A trama apresenta quatro pequenas histórias particulares que se entrelaçam com seus quatro protagonistas portadores de pequenos segredos.

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O entrelaçamento dessas realidades terá início com um fato aparentemente isolado: a pesca com explosivos praticada na orla de Salvador, caracterizada como crime ambiental. A partir daí, a narrativa passa a habitar passado e presente de Seu Ney, um ex-tenente aposentado; Caju, traficante de pouca expressão; Richard, policial duro na queda com problemas conjugais; e Keira, esposa de Richard, infeliz com seu casamento e insegura para mudar de vida.

O maior destaque nesse conto sobre pessoas sem super poderes e comuns ao cotidiano das classes mais baixas talvez seja a habilidade com que Quintanilha manuseia os flashbacks que dão sentido (ou não) à sua história.

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A leitura torna-se inebriante à medida que é conduzida pelo narrador onisciente que parece julgar os personagens por suas agruras e fraquezas a todo o momento, como se fosse uma implacável voz interior. E o leitor vê-se envolvido nessa espiral frenética de eventos, que vai do choro de Keira ao soco desferido por Richard, mantendo-se alheio ao final da história, suspensa nesse transitar entre tempos.

Não há como passar despercebido pela fidelidade com que se reproduz os diálogos coloquiais entre esses nativos da capital baiana. Tudo isso é somado à “fotografia” em preto e branco escolhida pelo autor, aumentando a qualidade do resultado final.

Assim como Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Marçal Aquino e João Antônio fazem na literatura, Quintanilha direciona seu olhar para os excluídos que habitam os obscuros cantos das periferias urbanas brasileiras, com suas realidades densas, fazendo jus, talvez, à escolha do título dessa história que só é possível largar ao final da última página.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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