caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Os Livros da Magia, de Neil Gaiman

Auxiliado pela arte de John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, Neil Gaiman leva seu leitor a uma intensa incursão pelo mundo da magia.


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O bem e o mal. A luz e as trevas. A ordem e o caos. Essas dicotomias nos acompanham desde quando éramos muito pequenos e líamos nossos primeiros livros de contos de fadas. Conforme crescemos e voltamos nossas atenções para coisas profissionalmente corriqueiras, essas forças gradualmente se tornam cada vez mais ocultas e pouco interessantes.

São desses ocultismos e mundos paralelos que Neil Gaiman trata em Os Livros da Magia, história em quadrinhos dividida em quatro volumes e publicada pela primeira vez no início dos anos noventa pela Vertigo. Em 2013, a editora Panini juntou os quatro tomos da história numa luxuosa edição em capa dura. Finalmente consegui tirá-la da estante.

Poucos dias depois de terminar o último livro da série Harry Potter há mais ou menos cinco anos, ouvi falar que J. K. Rowling teria se inspirado num personagem que usava óculos e possuía uma coruja de estimação criado por Neil Gaiman para compor o protagonista da série que lhe rendeu o status de uma das escritoras mais ricas do mundo. Esse garoto é Timothy Hunter, um adolescente aparentemente comum, mas com grande aspiração à magia.

Em tempo: o próprio Gaiman disse que não houve plágio por parte de Rowling, pois, segundo ele, um menino de aparência nerd e vinculado à magia faz parte da tradição ficcional inglesa.

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Ciente do potencial do garoto, a “brigada dos encapotados” - formada por John Constantine, Doutor Oculto, Mister Io e Vingador Fantasma (personagens recorrentes em histórias obscuras do universo DC) - toma a decisão de guiá-lo através da história e do futuro da magia, além de apresentá-lo a magos e “mundos além da razão”. O objetivo é dar oportunidade para que o menino escolha se quer ou não entrar para esse universo fascinante e ao mesmo tempo perigoso.

Para cada um dos livros foi designado um artista diferente: John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson (em respectiva ordem cronológica).

No Livro I: O labirinto invisível, o Vingador Fantasma leva o garoto a uma intensa incursão pelo passado da magia, mostrando que a batalha entre a luz e as forças das trevas sempre existiu.

O Livro II: O mundo das sombras é uma bem-humorada viagem na qual John Constantine apresenta Tim às figuras míticas que habitam o presente, concretizando a rivalidade perpétua protagonizada por ordem e caos. A vida que consideramos “normal” ocorreria num ponto equidistante entre essas duas forças.

O Livro III: A terra do crepúsculo de verão (para mim, o melhor) é sobre os mundos povoados por seres que não moram na mesma realidade que nós, mas em universos paralelos que são sombras tenebrosas e distorcidas do nosso. São (ir)realidades habitadas por bruxas mastigadoras de ossos humanos, demônios e duendes trapaceiros, as quais podemos utilizar como refúgio, de acordo com nossas próprias fantasias, conforme explica Dr. Oculto/Rose a Timothy.

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As inúmeras possibilidades de futuro estão no Livro IV: Estrada para o nada, no qual Mister Io guia o garoto por possíveis e incertas veredas. O acontecimento ou não daqueles fatos dependerá do caminho que Timothy escolher para trilhar. Nada aconteceu. Tudo é possibilidade.

A leitura de Livros da Magia é como um retorno à infância, quando as narrativas mágicas propostas pelos contos de fadas aos nossos então férteis imaginários tornavam nossas existências muito mais interessantes. Ao escrevê-lo, Neil Gaiman devolve a nós, personas adultas e racionais, um pouco daquele já esquecido prazer da descoberta de novas possibilidades e nos traz de volta essa deliciosa dúvida: seríamos nós meros habitantes de um simples mundo paralelo a tantos outros?


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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