caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Uma realidade hardboiled

Do mundo fantasioso dos detetives clássicos à realidade hardboiled de Better Call Saul.


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A tradição das histórias policiais mostra detetives altamente cerebrais que, se não são os indivíduos mais sociáveis do planeta (o que lhes dá certo carisma peculiar ao anti-heroísmo), destacam-se pela incorruptível inteligência. Talvez seja desnecessário mencioná-lo, mas é sempre bom citar Sherlock Holmes e sua mente matematicamente precisa que o tornou um eterno fenômeno da cultura pop. Basta olhar ao redor e ver inúmeros livros, séries de TV e filmes baseados em sua figura. Para efeito de exemplificação, é só entrar numa livraria e pedir pelo romance de Jô Soares intitulado O Xangô de Baker Street; ligar um televisor ou se conectar ao Netflix para conferir Sherlock e Elementary; alugar/comprar um DVD dos dois filmes protagonizados por Robert Downey Jr. e Jude Law, dirigidos por Guy Ritchie.

Todas essas histórias nos mostram um personagem que é contratado para resolver crimes que a força policial local deveria desvendar mas não consegue, dada as limitações intelectuais de seus líderes. Querendo ou não, trata-se de um universo um tanto quanto fantasioso, mais ou menos parecido com o dos super-heróis das histórias em quadrinhos. A única diferença seria que esses detetives mais clássicos não vestem collants para encurralar os criminosos que perseguem.

Pois bem, são histórias muito legais, já que fazem sucesso até os dias de hoje, mas, quando o romance policial tido como hardboiled foi criado, com histórias violentas e investigadores (agora policiais propriamente ditos) emocional e intelectualmente limitados, as tramas passaram ficar mais interessantes, já que tinham como cenário um submundo do crime próximo à realidade do leitor, que é narrada todos os dias nas páginas de jornais impressos e em chamadas de noticiários televisivos.

Ao contrário dos detetives clássicos acima citados, esses investigadores são mostrados como seres humanos questionadores do mundo dominado por violência, corrupção e injustiças que os cercam. Seus colegas de trabalho, homens que recebem salário baixo e têm a responsabilidade de proteger e dar conforto a suas famílias, acabam por se corromper, extorquindo e desviando dinheiro apreendido de traficantes, dificultando a tarefa da sociedade de distinguir os mocinhos dos bandidos. Os agentes do Estado passam a semear a criminalidade de fora para dentro.

No romance Agosto, de Rubem Fonseca (já escrevi texto sobre o livro aqui: http://lounge.obviousmag.org/caneta_tinteiro/2013/08/um-mes-noir-brutal-e-poetico.html), o comissário de polícia Alberto Mattos é obrigado a conviver com presos que se amontoam na pequena cela do distrito policial onde trabalha. A maioria deles são prisioneiros por terem cometido pequenos delitos necessários para continuarem a sobreviver numa implacável selva urbana. Enquanto esses miseráveis apodrecem em um cubículo, policiais e políticos criminosos, que agem em conjunto com traficantes e bicheiros, estão à solta. Para garantir a própria sobrevivência, Mattos é obrigado a fazer vista grossa e ir contra todos os princípios morais e legislativos que aprendeu na faculdade de Direito, o que acaba por lhe abrir uma úlcera no estômago.

Na cultura pop em geral, os chamados spin-offs, que são narrativas derivadas de uma obra já existente ou consagrada, normalmente não são bem recebidos pela crítica (vide a série em quadrinhos Before Watchmen). Quando Better Call Saul foi anunciada, cujo protagonista é o advogado canastrão Saul Goodman, personagem do fenômeno Breaking Bad, muitos desconfiaram de sua qualidade, já que a série original é considerada a obra-prima das narrativas seriadas contemporâneas. Vince Gilligan (criador da saga protagonizada por Walter White) e Peter Gould estão provando que nem sempre um spin-off é ruim. Better Call Saul está se mostrando, se não na mesma proporção de Breaking Bad, um programa viciante, principalmente por retomar o passado de Mike Ehrmantraut, personagem igualmente amado em Breaking Bad. O quinto episódio da primeira temporada, que tem como foco o passado do misterioso e mal humorado matador de aluguel, pode ser tomado como referência para as narrativas policiais do estilo existencialista/hardboiled.

Mike já foi policial corrupto, que desviava dinheiro apreendido de traficantes para benefício próprio. Porém, quando seu filho, que também era policial, é assassinado por seus parceiros por não fazer parte do esquema de extorsão e desvio de verbas, Mike olha para si mesmo e percebe o quanto seus atos, antes considerados por ele como inofensivos (já que ele pensava estar fazendo o bem empregando dinheiro sujo em algo bom) prejudicaram seu herdeiro, que o tinha como um grande ídolo.

Mas qual seria a cura para a corrupção em tempos tão desorganizados, nos quais é quase impossível identificar bandidos e homens a (des)serviço da lei? A própria legislação muitas vezes se mostra beneficiária aos corruptos. Basta olhar para as notícias que estampam as capas dos jornais diariamente. Se ainda não há vacina criada para sanar essa grave enfermidade, a ficção detetivesca clássica, com seus protagonistas amorais que combatem o crime apenas para exercício de uma mente entediada, mostra-se um bom ponto de fuga de uma realidade cada vez mais hardboiled.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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