caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Uma praga à prova do mais potente pesticida

No romance "Estrela distante", Roberto Bolaño mostra que alguns tipos de maldição são perpétuos e incuráveis.


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Descobri Estrela distante, de Roberto Bolaño (foto), por acaso. Na verdade eu já sabia da existência do livro. Há algum tempo, adquiri a coleção de literatura ibero-americana da Folha de S. Paulo e o título está nesse selecionado. O que me impulsionou a tirá-lo da caixa foi uma lista de "livros para se ler numa tarde" feita pelo jornalista André Barcinski em seu blog.

Alfredo Bosi, no livro Literatura e resistência, aponta que a literatura militante surgiu entre as décadas de 1930 e 1950, no combate dos intelectuais contra o nazi-facismo, tempo que perdurou na memória dos narradores do pós-guerra (vide É isto um homem?, de Primo Levi). Bolaño utilizou como base para compor Estrela distante um livro que escreveu no ano de 1996 sobre o nazismo, intitulado A literatura nazista na América. No capítulo derradeiro, ele resume a história de um certo Ramírez Hoffman: poeta de vanguarda e torturador a serviço de Pinochet.

Em Estrela, para descrever o terror imposto por uma polícia política, adotou o Chile como cenário e a ditadura instaurada no país como contexto. Os artistas e escritores engajados, consumidores e reprodutores de obras tidas como subversivas, são brutalmente caçados. O cão de caça - espécie de espião infiltrado que aponta os que devem sofrer as consequências por conta de sua opção ideológica - é Carlos Wieder, releitura da figura de Hoffman. Wieder, em alemão, quer dizer "de novo/novamente/outra vez", aludindo a uma ameaça que sempre volta como um bumerangue amaldiçoado. Uma praga à prova do mais potente pesticida.

Carlos é um poeta que encara com aparente frieza seu ofício sangrento, lembrando Hans Landa, o "Caçador de Judeus" do filme Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino. Um trabalho como qualquer outro. A narrativa assume uma pegada policial ao focalizar o passado para tentar entender uma figura tão controversa e obscura. Uma investigação, nos moldes detetivescos do longa argentino O segredo dos seus olhos, cujas pistas são analisadas com base em memórias individuais e coletivas, recortes de jornal, poemas publicados em revistas underground e assinados por pseudônimos.

Meu ritmo de leitura não deu conta de terminá-lo numa tarde, como o sugerido pelo título da lista proposta por Barcinski. A narrativa de Bolaño, pelo menos nesse caso (ainda não li Os detetives selvagens ou o aclamado 2666), não apresenta tanta fluidez em alguns momentos. O que não compromete (em nada) a leitura, que explora os limites éticos que separam o matador de aluguel a serviço do governo do ser humano que se distancia das instituições.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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