caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

Política não é mais importante que literatura

Hoje, os brasileiros julgam as pessoas que os cercam de acordo com suas posições políticas. E só.


collor.jpg

Deixar o carro na garagem e andar pelas calçadas dum pedaço da cidade pode ser um divisor de águas no modo como vemos o mundo. Com os vidros levantados, o ar condicionado ligado, o rádio sintonizado no noticiário e o cinto de segurança cruzando o peito não dá pra ver o que acontece do lado de fora.

Mendigos utilizando os vãos entre muros como banheiro, homens com pés cascudos entregues a um copo de cachaça, bocas com poucos e podres dentes, conversas solitárias para um destinatário invisível, almoço com marmita azeda. Cada fundo do poço esconde uma história mirabolante, crônicas duma casa assassinada, lavouras arcaicas dizimadas pela loucura.

Caminhar com olhos atentos e passos vagarosos pode ser um tipo de amostra do quão frágeis são nossos planos. Economias, diplomas, relacionamentos, orçamentos. Uma traição inesperada do destino pode fazer tudo ser destruído num estalar de dedos. A desilusão dum grande amor. Prejuízo financeiro causado por um passo maior do que as pernas. Ou apenas a opção de cometer um tipo de suicídio social, viver à margem. Nem tudo precisa ser causado pela loucura. Pode ser também um ataque de lucidez.

O inesperado nem sempre vem duma situação particular. A virada pode atingir o coletivo. Alguns se lembrarão das cadernetas de poupança bloqueadas durante o governo Collor, de pessoas sentadas nas escadarias das agências bancárias pensando em como iriam fazer para colocar comida na mesa. Executivos se atiraram pela janela durante a crise de 1929 nos Estados Unidos. A mão invisível também pode punir severamente.

No Brasil, a política incita esse tipo de incerteza com relação ao dia depois de amanhã. A impressão é a de que não dá para traçar um caminho em linha reta. Os poderosos oportunistas se estapeiam pelo poder enquanto a população se divide. O jornalismo, ciência que deve informar e esclarecer, contribui para o rebuliço: profissionais da área preferem aderir a seus anseios ao invés de apurar os fatos em busca da verdade. Não se julga o próximo pelo caráter, pelo tipo de música ou cinema que ele gosta. Tudo se resume ao posicionamento político. Política (com certeza) não é mais importante que literatura.

Há muito mais coisas além do ser ou não a favor do governo ou do impeachment. Apenas tenha cuidado com o que deseja: a volta duma ditadura em que pessoas eram penduradas em paus de arara definitivamente não é a solução. O suicídio deve ser individual e não coletivo.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Murilo Reis