caneta tinteiro

Rascunhos digitais. Textos analógicos.

Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016)

A escola da precisão verbal

A escrita de José J. Veiga não desperdiça metragem: diz apenas o necessário.


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Alguns defendem descrições mais extensas em narrativas. É um posicionamento contra a concisão – o qual eu respeito. Ainda assim, prefiro estilos que lidem com poucas palavras e enfatizem as principais características de personagens e espaços.

Marçal Aquino é dos que melhor fazem isso. No romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios ele nos apresenta Lavínia, grande amor proibido do fotógrafo Cauby. Quando ela vai à casa do amante pela primeira vez, o que ficou mais vivo em minha memória não foi a descrição de sua beleza esbelta, mas a das manchas de suor das axilas em sua camiseta branca.

Quem lê Marçal Aquino logo percebe um escritor adepto à escola que prima pela precisão verbal, aquela que tem como pilares Dashiell Hammett e Hemingway. Num debate realizado no Sesc de Araraquara, ele disse considerar Angústia, de Graciliano Ramos, o melhor romance da literatura brasileira. O alagoano é reconhecidamente um defensor desse trabalho intenso com a linguagem. Palavras desnecessárias devem ser cortadas.

Há alguns dias, resolvi tirar da estante um autor que conhecia apenas pela fama. Fiquei muito contente ao descobrir que José J. Veiga também foi um escrevinhador muito atento ao detalhe. A hora dos ruminantes possui uma série de outras qualidades, especialmente no que diz respeito às características alegóricas duma pacata cidade invadida por “estrangeiros”, cachorros e bois. Mas o que mais me chamou a atenção foi a descrição do povo de Manarairema.

Personagens rústicos, cada qual com uma habilidade. Geminiano é o homem da carroça; Amâncio, o dono da venda onde se toma cachaça e compra rapadura; Manuel Florêncio, o artesão da madeira; Apolinário, o artista dos ferros e metais. Apenas a simplicidade de mãos calejadas vem à tona. Essas peculiaridades se estendem à cidade. Tem-se uma ideia geral do lugarejo, de suas ruas de terra batida, dos cheiros de café e lenha queimada no fogão. Leitura boa, sem excessos, para ser feita com vagar.

Esse trecho resume a linguagem de Veiga: “A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.


Murilo Reis

Murilo Reis nasceu em Araraquara/SP. Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreve para o site "Homo Literatus". É autor do blog "O paralelo" e do livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016).
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