João Lopes

Sei um segredo, você tem medo

Estamira um elogio à loucura

Estamira Gomes de Sousa. Estamira. Famosa pelo seu documentário homônimo, feito sob a direção de Marcos Prado, é conhecida por muitos como uma espécie de filosofa do lixão. Estamira vai muito além disso, ela é, antes de tudo, uma representação do verdadeiro homem em seu ser caótico em pleno momento de pós-modernidade que acreditamos viver neste século. Suas palavras depõem contra o egoísmo humano, o proselitismo vazio das religiões, a intolerância, a falta de inteligência dos homens, a injustiça social dentre tantos outros temas de sua obra. Esquizofrênica. Não se cala, mas dá lições ao mundo de que é possível se viver da melhor maneira, ao passo em que somos capazes de reinventar a própria vida.


“A minha missão é revelar, seja lá quem for, doa a quem doer.”

Estamira_1.jpg

De uma loucura extravagante que passeia entre a lucidez e o insano, Estamira possui um pensamento de conteúdo filosófico que pode ser amplamente estudado. Seus pensamentos são como verdades cortantes que poucas pessoas em sã consciência teriam coragem de dizer, ou quem sabe, até teriam, entretanto não estariam amparadas sob uma história de vida como a dela.

"Mas eu não sou um robô sanguíneo, eu não sou um robô."

"Sou louca, sou doída, sou maluca, sou azogada, sou essas quatro coisas, mas sou lúcida e ciente sentimentalmente."

"Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer?"

Tendo que morar no lixão pra sobreviver, Estamira foi estuprada duas vezes, era traída pelo marido que, segundo sua filha, levava as próprias amantes para dentro de casa, sempre foi muito religiosa e acreditava que esses sofrimentos eram uma provação de sua fé. Logo depois dos abusos, começaram as perturbações mentais, então, Estamira retira sua fé de Deus e passa a acreditar que o poder está em tudo.

"Já me bateram com pau, pra 'mim' aceitar deus, mas esse deus desse jeito, esse deus deles, esse deus sujo, esse deus estuprador, esse deus assaltante, em qualquer lugar, em tudo quanto é lugar, esse deus arrombador de casa, com esse deus eu não aceito. Nem picadinha a carne, nem a minha carne picadinha de faca, de facão, de qualquer coisa, eu não aceito, não adianta."

"Quem anda com [o nome de] deus noite e dia, dia e noite na boca, ainda mais com deboche, largou de morrer? [...] Largou de passar fome?"

"Não vou ceder o meu ser a nada. Eu sou Estamira, e tá acabado, é Estamira mesmo."

Se contássemos somente a história de vida da catadora de lixo do Jardim Gramacho -bairro da cidade de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro- a sua história falaria por si mesma, marcada pelo constante sofrimento, desde a perda de seus pais, e no documentário ela relembra com emoção como o pai a chamava quando pequena, também a perda de sua mãe que, segundo a própria Estamira, era também perturbada, todavia incapaz de distinguir, como faz ela Estamira, os momentos que eram de perturbação. Os desgastes do tempo e do trabalho no lixão, os riscos a que se expôs de contato com materiais contaminados, e também as coisas que comia quando as encontrava no lixo, os abusos morais, físicos e verbais, a descaracterização como ser humano nas condições em que vivia, e a sua morte que contam ter sido de maneira indigna à espera de socorro em um hospital público, tudo isso e mais coisas que fogem ao nosso conhecimento, por si mesmas, já dariam a Estamira o mérito do reconhecimento.

"Eu nunca tive sorte. A única sorte que eu tive foi de conhecer o sr. Jardim Gramacho, o lixão, o sr. cisco monturo, que eu amo, que eu adoro, como eu quero bem, como se fosse a meus filhos, como eu quero bem aos meus amigos. E eu nunca tive aquela coisa que eu sou: SORTE BOA."

A sua história de dor e sofrimento, e seu otimismo diante das circunstâncias da vida, nos calam de maneira profunda. A alteridade com que encarava a vida, acreditando que sua missão era colaborar com os homens mostrando-lhes a verdade, jogando a verdade na cara deles, nos chama a atenção para algo muito importante, Estamira é produto de uma sociedade incapaz de praticar o altruísmo como uma deliberação de sua vontade.

"Eu sou a verdade, eu sou da verdade."

Estamira_2.jpg
"Eu sou Estamira, eu sou a beira, eu tô lá, eu tô cá, eu tô em tudo quanto é lugar. E todos dependem de mim, todos dependem de Estamira, todos."

Enlouquecer foi, ao que parece, sua fuga da dureza de uma vida de castigos e sofrimentos, dessa espécie de egoísmo humano como trata José Saramago: o egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do cotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.
Estamira sabia dessa cegueira mental que acomete aos seres humanos, por isso, diante do mundo, deu provas de que a loucura pode representar a mais sensata forma de viver.

"Eu, Estamira, eu não concordo com a vida. Eu não vou mudar meu ser. Eu fui ‘visada’ assim, eu nasci assim. E eu não admito as 'ocorrência' que 'existe', que tem existido, com seres sanguíneos, carnívoros, terrestres."

"Não gosto de erros, não gosto de suspeitas, não gosto de judiação, de perversidade, não gosto de humilhação, não gosto de imoralidade."

Enganam-se aqueles que puramente acreditam que sua história de vida é uma denúncia social de pessoas sofredoras que vivem no lixão, de fato também o é, mas além de tudo, a história e o pensamento de Estamira, inseparáveis, são a revolta do próprio homem contra aquilo que estamos nos tornando, como diria a própria Estamira, espertos ao contrário.

"Me trata como eu trato, que eu te trato, me trata com o teu trato, que eu te devolvo o teu trato, e faço questão de devolver em triplo."

"Perversa eu não sou não, mas ruim eu sou. E não adianta."


Aqueles que não puderem se emocionar ao ouvir seus relatos e sentir extrema lucidez em suas palavras, carecem da revisão do seu papel social, de sua concepção de mundo, e, sobretudo, do que para eles são os valores humanos, isto é, aqueles valores intrínsecos ao ser humano sem os quais o homem assume um papel apático em relação à vida.

"A solução é o fogo. A única solução é o fogo. Queimar todos os espaços, os seres, e pôr outros seres, nos espaços."

estamira_1363029742.jpg

A figura de Estamira, a carcaça em suas próprias palavras, demonstra como a vida humana é frágil, e a real diferença entre os fatores extrínsecos e a essência de cada um. Enganar-se-ão também aqueles que, levados pela aparência, desprezarem seus ensinamentos tão empíricos sobre a existência. Em suas palavras encontramos a busca de mais altruísmo, de mais sensibilidade, de mais verdade entre as relações humanas. Seu pensamento conversa diretamente com o de grandes pensadores de diversas épocas e áreas do conhecimento, sociólogos, filósofos, poetas, escritores dos mais variados tipos entre outros.

"Porque quem economiza tem..."

Ela mesma declarava-se invisível, onipresente. Estava em tudo, era parte de toda a humanidade. Nas suas palavras encontramos o que há de mais humano: o desejo de ser compreendido. A vontade de levar os seus iguais à compreensão de coisas mais elaboradas, o desejo sublime de tornar o mundo melhor, e isto não é feito de qualquer lugar, é feito a partir de um lixão.

"Sabia que tudo que é imaginado, existe, é e tem? Pois é."

Estamira_3.jpg


João Lopes

Sei um segredo, você tem medo .
Saiba como escrever na obvious.
version 10/s/recortes// @obvious, @obvioushp //João Lopes
Site Meter