João Lopes

Sei um segredo, você tem medo

Todas as mensagens de Ano Novo estão velhas

Sem compromisso com a velha roupa colorida


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Ultimamente tenho sentido uma grande dificuldade em escrever textos tratando de um único assunto. A ideia de dissertar sobre um tema de forma fechada e coesa como aprendi e fiz durante os últimos anos, me traz uma forte sensação de que meu pensamento está sendo seccionado de uma maneira ruim, pois cerceia a liberdade criativa quando começo a escrever. Por exemplo, agora, enquanto escrevo este artigo para falar sobre alguma mensagem de Ano Novo, questiono-me o quão correto é fazê-lo em primeira pessoa, e o mais engraçado é que o título já está posto sem nem mesmo saber como comprovarei a caducidade das mensagens de Ano Novo.

Na verdade, não estou diretamente interessado em comprovar logicamente, como tento fazer em outros textos em que vou construindo camada após camada, para que no final o “ledor” possa chegar a alguma conclusão junto comigo. Hoje, iremos apenas falar das ideias como elas vierem. Essa vontade antiga de simplesmente escrever as coisas como vem à cabeça ganhou força ultimamente muito mais por eu não enxergar originalidade nas formas textuais e produções que leio frequentemente. É claro que a dissertação sempre terá o seu espaço, assim como todas as formas textuais e toda liberdade.

No entanto, se eu quiser escrever fora de um gênero textual que me é imposto em determinada situação o meu texto, por mais brilhante e bem escrito que esteja, será julgado pelos critérios anteriormente exigidos. Que frustração isso pode ser! Pode ocorrer, por exemplo, que, em um vestibular qualquer, o tema seja “liberdade” e nada me ocorra senão um poema para preencher aquelas trinta linhas – Graças a Deus não presto mais vestibulares!

De certa maneira, isso que me ocorre quanto à produção (que diminuiu muito nos últimos meses) pode ser uma indicação da falência das velhas formas que nos apreendem, e também das mensagens de fim de ano. Um apelo a um pouco mais de originalidade nunca é demais. Eu não quero receber apenas “Feliz Ano Novo, John!” daqueles que me querem bem. Eu quero mais! Sim, por que alguém não poderia simplesmente dizer “John, não ligo para Ano Novo, porque não ligo para ideia de tempo e calendário, mas queria que você andasse mais comigo, nos próximos dias”, ou então alguém simplesmente poderia levar toda essa época como algo comum, sem votos, sem simpatias, sem planos malucos de academia que nunca conseguirá cumprir, ou metas megalômanas que darão em frustração e repetição para o próximo ano.

Tudo bem que isso agora esteja parecendo um pouco pessimista ou desencantado demais. Precisamos de alguma diversão, eu não nego. Também tenho precisado – e diversões novas, completamente diferentes de baladas, bares e motivações regadas a álcool. Isso tudo é diversamente divergente daquilo que aprecio. Eu vou desejar às pessoas “Feliz Diversões Novas”, isso pode soar inovador quem sabe, eu me preocupo com originalidade. Aliás, posso desejar também “Feliz Originalidade Nova”, mas aí poderia haver um problema de pleonasmo, eu logo seria acusado, e isso tudo agora me lembra de uma questão de coerência que se exige na vida.

Essa questão da coerência é como esse negócio do texto dissertativo e a vontade de fazer um poema, ou o desejo de simplesmente escrever o livre. Às vezes nossos esqueminhas de coerência são um impedimento a nossa própria humanidade. Testei o meu sentir é incoerente. Por que os textos também não poderiam ser? Mesmo às vezes, por que também não as pessoas? Vou desejar também “Feliz Incoerências Novas” para as pessoas que passarem o Réveillon comigo.

Quantos devaneios, agora, pode ser esse calor de Fortaleza que se instalou na cidade de São Paulo.
Não, eu pensei agora em desejar também “Feliz Devaneio...”, mas achei pouco original e sem necessidade. Vivemos de devaneios. Isso é fácil de provar. Seria melhor desejar mais sonhos, mas aí é a velhice das mensagens de sempre. Notei que eu desejo mesmo uma reinvenção da própria linguagem, queria um som diferente, uma palavra nova, não um neologismo bobo desses que a qualquer hora se cria. No entanto, se eu conseguir criar será para mim mesmo e incompreensível aos outros ouvidos, como tantas sensações. Seria algo como pronunciar um ruído para depois ter que dizer, olha, isso significa um desejo para o seu Ano Novo. Boring.

Essa nossa necessidade de se traduzir e fazer compreendido é uma coisa incrível. Eu vejo ao longo desses anos em que escrevi e publiquei. Não foram poucas as vezes em que alguém simplesmente pegou um excerto e fez uma superinterpretação ou atribuiu a mim uma ideia na qual eu nunca acreditei nem poderia acreditar, e que inclusive a ideia retirada do texto é contra todo o contexto. Não ser compreendido é uma frustração e tanto. Ultimamente, em tom de desabafo, eu que o diga! Quem leu até aqui, por gentileza, deseje que meus textos, aqueles certinhos que vou fazendo sempre, sejam compreendidos, risos.

Bom, escrevi até aqui em exatos vinte e cinco minutos, e isso tudo ainda me soa trivial. O problema da originalidade está posto. Aliás, em quase tudo ultimamente, devo estar esperando por um novo que dificilmente virá. Não que tudo na vida não seja uma surpresa, nem isso é um discurso niilista, não. Tudo tem sua novidade, eu não sei dizer como, mas tem. Pode ser uma incoerência dizer que tudo soa óbvio, mas tem ao mesmo tempo alguma novidade. Na verdade, quero dizer mesmo da necessidade de sentirmos a alegria de fundação das coisas.

Talvez seja isso. As mensagens de Ano Novo estão velhas porque elas não têm nelas nenhuma alegria de fundação, a expectativa de relação com o novo. Mas também só to dizendo isso aqui, porque já vou em duas páginas de Word e quero encerrar o texto. Risos. Me perdoem. Eu desejo sinceramente que as ideias soltas que tratei aqui guiem novos pensamentos para esses dias em que falamos tanto do novo e continuamos celebrando o velho. Adeus Ano Novo, Feliz Ano Velho – poderia ser um título bom para este artigo.


João Lopes

Sei um segredo, você tem medo .
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