caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

A Guerra é Mais Fria no Cinema

A influência da Guerra Fria nos filmes ultrapassa o período do conflito e está presente ainda nos dias de hoje. Da comédia aos filmes de ação. O leque é amplo, vários longas holywoodianos tiveram como pano de fundo o duelo EUA x URSS. Mas, o que esse conflito teve de tão especial para inspirar tantas produções?


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A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, mas isso não livrou a humanidade de um conflito global. Pelo contrário, da vitória dos Aliados emergiu outra batalha. Mais sutil, mas nem por isso com menos impactos sociais, era a Guerra Fria, que durou de 1945 até 1991.

Protagonizada pelos Estados Unidos e pela União Soviética, a Guerra Fria foi um conflito politico, econômico e ideológico, onde cada lado desejava aumentar sua área de influência. Foi uma disputa indireta, onde o inimigo era declarado, mas nunca belicamente atacado, pois, com o aparato nuclear que possuíam, temia-se que a destruição mútua seria inevitável.

A rivalidade era óbvia, cada qual representando uma face da moeda em um mundo polarizado, sem espaço para terceira opinião. Nos EUA a propaganda anti comunista, feroz e apocalíptica, gerava o panico como resultado lógico da equação, de forma que não era raro encontrar pelo país, casas cujos porões se tornaram em abrigos nucleares improvisados.

Cercado por tantos medos e incertezas, seria impossível ao cinema norte-americano ficar isento ao conflito entre EUA e URSS. Até mesmo porque o contexto sempre deixa suas marcas na produção artística, em maior ou menor escala. Assim, as impressões que essa rivalidade deixou em Hollywood são claramente perceptíveis. A ameaça vermelha e o anseio/dever de combater uma ideologia tida como ateia e ditatorial permeiam diversas produções cinematográficas, mesmo as criadas após 1991. Afinal, quem não se lembra do Rambo lutando contra os comunistas?

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O sedutor James Bond também cumpriu o seu dever e mostrou diversas vezes a esses mal-feitores quem é que manda – e olha que boa parte da saga foi produzida pelo Reino Unido, mas, ainda assim, amplamente influenciada pela tensão bipolar que atingia o mundo. A própria aparição do espião britânico em 007 Contra o Satânico Dr No, de 1962 já o coloca contra um cientista que planeja destruir o programam espacial dos EUA. Com licença para matar, o agente continua defendendo a ideologia capitalista em produções como Moscou contra 007 (1967), em que a posição da URSS como inimiga é clara.

O destemido Indiana Jones também teve sua oportunidade de antagonizar com os soviéticos ao ser raptado por estes em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, dirigido por Steven Spielberg. No filme, os russos planejavam roubar uma caixa com restos mortais de extraterrestres de propriedade americana. O fato de ter sido lançado em 2008, quase trinta anos depois do colapso da URSS, demonstra o alcance da influencia da Guerra Fria em Hollywood, que permanece ainda hoje.

Mas nem só de grandes heróis vive o cinema baseado na Guerra Fria. Há também comédias como Doutor Fantástico, lançada em 1964 – dois anos após a Crise dos Mísseis de Cuba, um dos momentos mais acirrados do conflito. Dirigida por Kubrick e com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, a sátira retrata decisão do enlouquecido General Jack Ripper (a escolha do nome é proposital) de enviar um ataque à URSS e nas tentativas de parar esse ataque que causaria danos para os dois lados. O filme, que vai além do mero entretenimento, expõe os absurdos bélicos da época, num humor ácido e com a atuação de Petter Sellers em três papéis, inclusive o do personagem que dá nome ao filme.

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A Crise dos Mísseis de Cuba, quando a URSS instalou mísseis na ilha ao lado dos Estados Unidos, gerando talvez o período de maior tensão e pânico de toda a Guerra Fria foi retratada em Treze Dias que Abalaram o Mundo, de 2000. O filme conta com a atuação de grandes nomes como Kevin Costner, Bruce Greenwood e James Karen,e retrata aquele período entre a descoberta dos EUA da instalação da base de mísseis em Cuba e a retirada da base de mísseis pela URSS, com todas as implicações políticas e o clima de insegurança que o evento causou.

É claro que a Guerra Fria teve outras facetas ultrapassaram a mera rivalidade entra as Super Potências e a ameaça de conflito direto. Entre elas, a Corrida espacial, o Macarthismo e a Guerra do Vietnã são os exemplos mais claros que, obviamente, também foram tratadas por Hollywood.

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A disputa pela hegemonia no espaço nos rendeu o célebre Apollo 13, que, baseado em fatos reais, conta a história da desastrosa missão com a nave de mesmo nome em 1970. O filme de 1995, protagonizado por Tom Hanks, imortalizou a frase: "Houston, temos um problema."

Em Boa Noite e Boa Sorte – longa metragem dirigido e estrelado por George Clooney em 2005 – o espectador é imerso nas tensões políticas internas dos EUA na década de 1950, com a repressão e perseguição aos supostos comunistas no país, conhecida como Macarthismo ou Caça às Bruxas. O ponto alto da produção são as aparições do Senador Joseph McCarthy, que são imagens de arquivo do próprio.

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A Guerra do Vietnã, deu pano para manga nas telonas. Desde o marcante Platoon (1986) até Bom dia Vietnã (1987) a guerra e o sofrimento dos soldados são retratados.

Voltando para o gênero da comédia, temos De Volta para o Presente (1999), que, mesmo que não tenha o conflito entre soviéticos e americanos como tema central, também mostra traços desta disputa. Sob a direção de Hugh Wilson, o filme nos mostra a trajetória da família Webber, que se trancou no abrigo anti nuclear em 1962, e não saiu por 35 anos até que seus suprimentos acabassem. O filho Adam (Adão em português, mais um nome que não foi escolhido ao acaso) recebe dos pais a missão de sair para buscar alimentos e encontrar, se houver, uma moça não-mutante para que possam refazer a raça humana. Só ao sair Adam descobre que a ameaça nuclear nunca se concretizou e que o mundo continuou são e salvo, mesmo com a Crise dos Mísseis.

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A lista de filmes que abordam o tema da Guerra Fria direta ou indiretamente é muito extensa. Embora este artigo não tenha a pretensão de esgotar o tema (que podia facilmente virar um livro), cabe o questionarmos o porquê disso. De onde vem essa atração pelo conflito? Qual é a magia que ele tem a ponto de inspirar tantas produções?

Uma possibilidade estaria ligada à própria retórica da Guerra Fria e à demonização do adversário que ela promoveu. Somando esse fato à incrível imaginação de Hollywood, temos a combinação perfeita: filmes e mais filmes, de todos os gêneros.

Pensando bem, a própria situação que o mundo vivia já parecia coisa de cinema: dois antagonistas, vilão e mocinho; uma ideologia tida como macabra a combater; os demais países poderiam ser classificados como coadjuvantes; um final inesperado, como nos melhores filmes: a convivência pacífica, o que acabou sendo um final feliz para todos nós.


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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