caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

Vem, mas demore a chegar...

O Maluco Beleza nos deixa uma ode à morte...ou será uma ode à vida?


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Uma musica que eu gosto muito, mas sei que muita gente não gosta, ou sequer conhece é Canto para Minha Morte do Raul Seixas. Da primeira vez que se ouve ela pode soar meio que de mau gosto, mas um olhar mais atento revela que ali há algo mais.

Devo dizer que me sinto uma sortuda por ter crescido ouvindo uma fita do Raul (sim sou velha da época que as pessoas ouviam música em fitas ou discos). E uma das grandes lembranças que tenho dos primeiros tempos de infância é o dia em que a notícia da morte dele chegou lá em casa. Foi com o jornal O Globo que meu pai assinava e que eu fui buscar no portão, ele estava na capa. Isso foi em 89, e eu, que mal tinha completado 5 anos, me lembro disso, o dia seguinte ao que a dama de cetim chegou à ele.

Por tudo que eu disse ate aqui dá para perceber que o Raul Seixas teve uma grande influencia na minha formação, em quem eu sou. Sei que muitos dos pensamentos que eu tenho hoje, muitas das coisas que eu anseio estão, “impregnados” pela forma de pensar dele e de tantos outros músicos e autores que admiro.

Essa música é marcante porque aborda a morte como algo natural, algo que eu não quero, mas que vai acontecer não importa o que eu faça. Fala também de tantas formas que ela poderá vir, já que isso é uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida. O que leva às duas coisas que posso escolher (mas nós, humanos, negligenciamos tanto essas escolhas...); ainda resta decidir como viver e, especialmente, escolher do que não morrer.

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O importante é não “morrer errado”. Posso até morrer de uma forma boba como o escorregão idiota um dia de sol. Mas não me permito mais morrer de vida mal vivida, de ferida mal curada, de dor já envelhecida – pois quantos não morrem disso por aí?

A morte pode até nos impedir de terminar as coisas que planejamos e aquelas que deixamos para fazer amanhã. Pode chegar antes que possamos terminar o copo de whisky. A presença da dama de cetim é constante desde o nosso primeiro choro e acredito que seja por isso que o Raul afirma que ela talvez seja o segredo dessa vida; o fato de não sabermos quando ou como ela vem deve ser usado para nos impelir a viver da melhor forma enquanto isso. Essa é a escolha que nos é dada e que devemos aproveitar.

E essa eu acho que é a lição a tirar dessa musica: já que a morte é inevitável, que ela demore a chegar, mas que não me leve cheia de arrependimentos, olhando para trás e lamentando por o que eu não fiz. Tenho tentado viver assim; aproveitando ao máximo o hoje, sendo feliz da forma que dá, trilhando o meu caminho e construindo minha história torta, porém bonita. Mas sei que tudo isso é só por hoje. Quem sabe amanhã...


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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