caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

SANTIAGO

Premiado documentário de João Moreira Salles é um convite à reflexão sobre o gênero.


Santiago é um belíssimo documentário do diretor João Moreira Salles (JMS) que abre muitas questões sobre a prática do fazer documentário e a respeito das relações entre documentarista e sujeito sobre o qual o filme trata.

As imagens do documentário foram gravadas em 1992, quando JMS entrevistou o antigo mordomo de sua casa, já aposentado àquela época, Santiago Badariotti Merlo. O entrevistado, no entanto, era muito mais do que um simples mordomo. Culto e poliglota, dedicava suas horas vagas à pesquisa sobre dinastias dos mais diferentes cantos do mundo o que resultou em 30 mil páginas datilografadas em português, inglês, francês, italiano e espanhol sobre o tema.

Ao começar a montar o filme, entretanto, Salles percebeu que suas ideias não ficavam tão boas na tela como antes pareceram no papel. O projeto foi abandonado e o material só foi retomado 13 anos depois, quando o diretor decide lançar outro olhar sobre o mesmo. O resultado é o documentário Santiago, lançado em 2007, onde o diretor acrescenta o subtítulo: reflexões sobre o material bruto.

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Totalmente diferente do filme que teria sido, caso finalizado em 1992, temos então um meta-documentário que conta a história das filmagens e questiona os métodos utilizados. Ao revisitar o material que havia abandonado, o diretor cria algo novo, onde fala de si, de sua infância e família, da forma como o trabalho fora desenvolvido. O filme alterna entre a fala de Santiago, então com 80 anos, e a narração em voice over, à qual o irmão de João, Fernando Moreira Salles, empresta sua voz. As lembranças do próprio cineasta são abordadas na narração, tornando JMS autor e personagem do filme, permitindo que o público o conheça também, além de Santiago.

O documentário nos mostra como algumas imagens podem ter sido manipuladas pela equipe na época que foram gravadas e nos adverte a não acreditar em tudo o que vemos. Esse conselho nos serve também para outros filmes do gênero, já que tendemos a cultivar a noção de que o documentário (e o jornalismo também) é a reprodução da realidade. Ao mostrar como tudo pode ser manipulado, JMS nos leva a questionar essa noção. A linha que divide realidade e ficção, mesmo em documentários, é tênue, parece querer mostrar o diretor. O espectador de Santiago dificilmente voltará a crer, quando estiver assistindo outro documentário, que aquelas cenas foram realmente da maneira que é mostrado no produto final.

Outro grande mérito de JMS foi não ter cortado das cenas a forma como a fala do antigo mordomo foi conduzida durante toda a filmagem. Ouvimos, o diretor e sua assistente de direção Márcia Ramalho, orientando – de uma forma até mesmo opressiva – o entrevistado sobre o que e como falar, para onde olhar, como se posicionar e fazendo-o repetir diversas vezes a mesma fala.

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Comandos aos quais Santiago obedece com a resignação de quem serviu à família do diretor por 30 anos e ainda não conseguiu sair do papel de mordomo, mesmo estando aposentado há 20 anos. Salles reconhece que a relação entre eles não foi meramente a de documentarista e entrevistado, dizendo: “durante os cinco dias de filmagem eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa e ele nunca deixou de ser o nosso mordomo”.

Além do distanciamento entre o cineasta e o mordomo, o documentário também nos permite refletir sobre o que é permitido ao entrevistado expressar. Qual o papel do documentarista quando representa o outro? Salles censura a fala de Santiago, não o permitindo dizer coisas que gostaria. O faz explicitamente em duas ocasiões; uma logo no início, quando o mordomo gostaria de fazer-lhe uma homenagem e a outra no final, quando este pede para recitar um soneto e o diretor sequer liga a câmera.

É obvio que quando faz um documentário sobre um determinado tema, o cineasta espera que o entrevistado se atenha a ele. Entretanto, por outro lado, é importante que seja dado àquela pessoa que está ali, se expondo, a oportunidade de falar um pouco sobre alguns temas que ele considera relevantes.

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Em outras palavras, quando se faz um documentário sobre uma pessoa, até que ponto o cineasta deve intervir no que ela pretende falar? O documentarista pode realmente representar aquela pessoa de quem fala, como se soubesse mais sobre ela do que o próprio representado? No fim das contas, a forma como a entrevista é conduzida acaba nos dizendo mais a respeito Salles (ou a pessoa que era em 1992) do que sobre Santiago.

O resultado final é um belo e tocante retorno do diretor ao passado, à sua infância e ao profissional que um dia fora. Admitindo seus erros de forma quase que confessional, João Moreira Salles nos presenteia com uma obra que fala sobre si mesmo, sobre o fazer documentário e que deixa questões de grande relevância para o público e para os documentaristas.

A coragem com que desnuda seu processo de criação de 1992 é louvável; quase tão rara de se encontrar quanto um personagem como Santiago, o mordomo que costumava imaginar que a casa em que trabalhava era o Palácio de Pitti, de Florença.


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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