caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

Perfeitamente Imperfeitos

Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é desumano porque o humano é imperfeito. - Fernando Pessoa


A sociedade possui certos padrões ou “fórmulas e caminhos para a felicidade” que acabam fazendo exigências um tanto quanto cruéis. Estamos tão acostumados com isso que acabamos muitas vezes nos submetendo a elas.

Afinal, você não pode ser feliz se não tiver sucesso profissional, preferencialmente uma carreira astronômica, com o primeiro milhão ganho antes dos 25, não é mesmo? Tampouco uma mulher tem razão para se orgulhar de si mesma se não veste manequim 38. Férias? Europa, claro! Filhos? Um casal, se possível loiro e lindo.

Essa paranoia atinge cerca de 90% das pessoas (talvez até mais). Mas caso você seja um sortudo membro dos outros 10%, desconsidere essas reflexões. Esse texto não é para você.

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Essa necessidade de “ser perfeito” não só traz mais dores do que alegrias como atrapalha a verdadeira felicidade e realização pessoal. Usarei um exemplo prático para ilustrar como um pequeno evento pode ativar essa busca incessante de perfeição e aprovação; o meu.

Estou aprendendo a dirigir (e obviamente me culpo por não ter feito isso antes, afinal que tipo de pessoa não sabe dirigir aos 31 anos?!) e o meu instrutor entrou de férias por 15 dias. Para não ficar muito tempo sem treinar, pedi ao meu marido que me levasse em nosso carro para uma área de trânsito praticamente nulo onde eu pudesse dirigir sem causar acidentes.

Fiz tudo certinho: ajustei o banco e os retrovisores, liguei o carro, pisei na embreagem e passei a primeira marcha... E não tirei o freio de mão. Primeira coisa em que penso: como assim, Thais? Como você esquece o freio de mão? O desejo de bater a cabeça no volante era grande, até mesmo porque, como eu ouso não saber dirigir com maestria depois de 8 aulas inteiras de direção?

Ao final de uns 30 minutos eu me cansei daquela pessoa que toda hora deixava o carro morrer e paramos com aquilo. Só bem mais tarde naquele dia percebi o que estava fazendo comigo, estava me cobrando em excesso. O mais engraçado é que meu marido foi superpaciente comigo e me elogiou diversas vezes, mas eu só conseguia pensar nos erros e deslizes que jogavam na minha cara a chocante e cruel realidade: eu não sou perfeita.

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Infelizmente (ou felizmente, não sei) a perfeição é um mito. Não existe ser humano perfeito. Nunca existiu nem existirá, ponto final. Temos que aprender a lidar com esse fato e parar de nos cobrar tanto. Aprender a olhar para nossas falhas e ainda assim dizer: tudo bem, eu posso tentar de novo.

Não é comodismo, de forma alguma. Trata-se apenas de aceitar que não podemos ser os melhores em tudo e usar exatamente isso como um propulsor para nos aprimorarmos nas áreas que priorizamos.

Lembrando, é claro, que não é preciso ser Steve Jobs para ser bem sucedido, Madre Tereza de Calcutá para ser generosa ou Angelina Jolie para ser bonita; podemos sim, nos sentir bem mesmo estando no nível intermediário. Podemos então parar de adiar nossa felicidade para quando atingirmos determinado ponto ou meta. Porque as metas são móveis; sempre que atingimos uma pensamos em outra.

Minha humilde sugestão é que estejamos mais abertos para incorporar a incerteza, a possibilidade de fracasso e que possamos estar bem mesmo se o sucesso não vier ou, pelo menos, enquanto ele não vier. Resgatar a habilidade de aceitar nossos defeitos e mazelas. Admitir que cometemos erros, que podemos chegar aos 31 sem saber dirigir. Ter a sensibilidade de afirmar que podemos nos amar mesmo não tendo atingido uma meta no trabalho, acreditar que merecemos ser felizes mesmo que não tenhamos a vida que achamos que deveríamos ter.

Em resumo, até quando vamos deixar que dinheiro, status, beleza ou popularidade nos definam? Somos muito mais que isso. O que nos define é o ser humano que somos, são aquelas qualidades e defeitos (não ignoremos os defeitos, por favor) que fazem alguém nos considerar especiais (e esse alguém pode ser uma só pessoa, ou até mesmo o seu hamster, por que não?). Valorizemos então a nossa própria individualidade e aproveitemos: somos únicos no mundo.


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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