caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

(Des) Conexão

Na era do on-line, on time e full time, será que conseguimos alguma verdadeira conexão?


Quando a televisão surgiu, alguns disseram que a humanidade ficaria alienada diante daquela caixa mágica. O mesmo não ocorreu com o celular em seus primórdios. Lembra dele? Era um trambolho absurdamente caro que quase nunca pegava e a gente usava, se tivesse sorte, para falar e trocar mensagens.

De volta aos dias atuais o celular se tornou muito mais do que isso e sua multifuncionalidade e portabilidade nos incentiva a estar conectados o tempo todo.

Não é só culpa do pobre aparelhinho. Na verdade, somos socialmente incentivados a passar cada vez mais tempo on-line; a contar das nossas vidas, postar fotos da dieta e da escapada dela com aquele brownie maravilhoso; expor ao mundo quando um relacionamento acaba que estamos dando a volta por cima (além do mais, quem sofre sempre é o outro, né). Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu tentado a tirar uma selfie na academia.

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E esses joguinhos dos infernos? Tenho certeza de que são obras de alguma criatura dantesca, um demônio que se deleita cada vez que deixamos de fazer algo em nosso benefício só porque alguém nos mandou uma vida no Candy Crush.

Eu vinha seguindo essa linha, mais uma ovelha do rebanho, embora sempre tirasse um pouco os olhos das redes sociais para ler e escrever, mas muito menos do que deveria. Então, há duas semanas, fui ao RockinRio. Para quem não é do Rio de Janeiro, devo informar que Jacarepagua não é exatamente um local de boa recepção de sinal. Somando isso ao fato de que havia uma multidão de pessoas usando a rede, temos o inevitável: eu estava totalmente off-line!

Resolvemos recarregar as energias físicas para o Metallica deitando na grama. Fiquei ali, olhando o céu e vendo as luzes do festival passando por ele. Sentindo a brisa da noite que começava a ficar fria percebi algo um tanto óbvio: a quantidade de tempo que eu vinha investindo em coisas inúteis, fúteis, banais como estar on-line quase todo o tempo que estava acordada. Infelizmente, eu estava longe de ser uma exceção.

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A sociedade contemporânea caiu na falácia da conexão instantânea e ilimitada. Achamos tão fenomenal poder conversar sobre poesia russa medieval com um pesquisador australiano sem ter que tirar o pijama que não percebemos que muitas vezes o preço disso é não estar conectado com a pessoa ao lado.

Enquanto encaramos polegadas das telas dos smartphones e tablets, deixamos escapar o contato olho no olho com quem está ao nosso redor. Temos 800 amigos no Facebook. Pelo amor de Deus, quem tem 800 amigos? Isso é surreal, no mínimo uma distorção do significado do verbete amigo.

Aliás falando em amigos virtuais, há alguns meses participei com uns amigos (do tipo de verdade) de um curta que falava, de forma divertida sobre como seria fazer amigos para uma pessoa viciada em redes sociais caso a tecnologia não fosse mais possível. O resultado você confere aqui.

Já notou que ninguém fica mais fica dois minutos em uma fila sem sacar o celular, esse escudo mágico que nos livra do desconforto de ter de olhar ao redor e talvez até efetivamente estar ali além de fisicamente. Outra situação que já se tornou comum – e que eu já fiz várias vezes – é ver um casal numa mesa de bar ou restaurante e ambos estarem usando seus smartphones. Se os telefones são inteligentes, me pergunto quem não é nessa equação? Isso, pegando emprestadas as palavras do poeta, nada mais é do que solidão a dois.

Vivemos a ditadura do prazer. Como Aldous Huxley previu em seu livro Admirável Mundo Novo (cuja leitura eu recomendo fortemente), de 1932 (!!!), fomos escravizados. Quem nos subjugou não foi um Estado opressor, mas instituições que promovem e incentivam nosso hedonismo desmedido. Os pequenos prazeres do cotidiano viciam e moldam nosso comportamento, fazendo com que alguns cheguem a checar as atualizações nas redes antes mesmo de sair da cama. Também nos leva a passar horas vendo banalidades, jogando, fingindo ter uma vida perfeita, lendo noticias que em nada acrescentam (como a quantidade de silicone que a “celebridade” x colocou) e tantas outras coisas do gênero. Obviamente eu não tenho resposta ou solução para nada disso, estou aqui só para levantar perguntas, te colocar para pensar, pois acredito que as soluções individuais são mais eficazes do que as coletivas.

Minha abordagem (já que não posso de forma alguma falar em solução) foi trocar os jogos do celular por aplicativos mais úteis, acredite, eles existem aos montes. Mas já me peguei pensando em reinstalar só um joguinho, tentando me convencer de que seria só por um dia. Sigo resistindo, como qualquer viciado em reabilitação: um dia de cada vez.


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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