caos e prosa

Um pouco sobre tudo, um pouco sobre nada

Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa.
Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade

Jornada do Herói

O que te falta para se tornar o herói de sua própria jornada?


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O antropólogo Joseph Campbell se dedicou ao estudo dos mitos de todo o mundo, descobrindo que há uma espécie de estrutura fundamental que permeia todas as essas histórias.

O analista de roteiros Cristopher Vogler adaptou essa teoria para o cinema, mostrando que, praticamente, todos filmes comerciais que assistimos seguem a mesma estrutura básica, a jornada do herói, que é dividida em 12 etapas:

1. Mundo Comum; 2. Chamado à Aventura; 3. Recusa do Chamado; 4. Encontro com o Mentor; 5. Travessia do Primeiro Limiar; 6. Testes, Aliados, Inimigos; 7 Aproximação da Caverna Secreta; 8. Provação; 9. Recompensa; 10. Caminho de Volta; 11. Ressurreição; 12. Retorno com o Elixir.

Obviamente, a estrutura não é tão fixa, os estágios não são todos obrigatórios e podem ter sua ordem alternada. Mas, o mais intrigante é o porquê desse fascínio humano em usar esse modelo. Uma explicação possível é a de que esta estrutura se assemelha à forma que enfrentamos nossa própria jornada diária. Assim, ao contar a história de Luke Skywalker, contamos de forma alegórica a história de nós mesmos.

Iniciamos no primeiro ato: o mundo comum, a conhecida zona de (des)conforto, assim como Dorothy no Kansas e sua vida, literalmente, em preto e branco. É quando algo sai do padrão e recebemos o Chamado à Aventura. Esse chamado tem inúmeras faces: pode ser a oportunidade de uma guinada na carreira, um novo amor, uma mudança de cidade, a adoção de uma atitude mais saudável ou aquela desafiadora aula de Crossfit da qual ouvimos falar.

O próximo passo lógico seria hesitar um pouco e embarcar na jornada, encarar a provação e retornar transformado, trazendo a recompensa. O grande problema é que tendemos a nos encolher e a negar nosso papel de herói de nossa própria jornada, especialmente quando o desafio parece grandioso.

Pensamos que não temos poderes ou habilidades especiais, que não somos “o escolhido”, que não somos fortes ou corajosos o suficiente para encarar no mundo real uma versão do que vimos no cinema. É mais seguro deixar que os outros, aqueles que vivem do outro lado da tela, sejam heróis, afinal, eu não tenho a varinha de Harry Potter.

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Heróis se expõem ao risco de se ferirem e, paradoxalmente, essa é a única forma de conseguirem a recompensa que buscam, saindo da zona de conforto, enfrentando monstros, vilões e demais desafios. Nós, reles humanos, não vemos nada disso com bons olhos, tememos a vulnerabilidade que uma mudança de carreira nos proporciona, não queremos expressar nossos sentimentos até ter certeza de que o outro também nos ama, deixamos de dar uma ideia inovadora em uma reunião por medo de fazer papel de bobo na frente do chefe (que, às vezes, é mais temível do que Lord Voldemort).

Agora, imagine se nossos heróis copiassem nossa atitude. Que graça teria assistir O Rei Leão se Simba decidisse que enfrentar o tio era demais para ele, e ficasse para sempre vivendo com Timão e Pumba? Com certeza, seria mais fácil para ele, o problema seria lidar com as consequências desta decisão a longo prazo. E se Frodo, um Hobbit tão pequenino, não aceitasse a missão de destruir o anel? Falando a verdade, ninguém iria querer assistir a esses filmes.

Assim, acredito que a real função do herói não seja derrotar o vilão ou salvar o universo, mas nos inspirar através do exemplo, por isso, cada vez mais os heróis possuem fraquezas humanas com as quais podemos nos identificar, aceitar de uma vez por todas o nosso chamado à aventura e partir à jornada, por mais dolorosa que ela possa ser.

Gosto de usar minha experiência pessoal como exemplo, pois acredito que estaria escrevendo um texto vazio e sem sentido se não fosse assim. O meu chamado à aventura sempre foi a minha paixão (ou necessidade) pela escrita. E eu fiquei presa na recusa ao chamado pelos absurdos 15 anos. Afinal, precisamos “ganhar a vida”, não é mesmo? Além disso, há o mito de que escritor no Brasil está fadado a morrer de fome.

Sufoquei, então, minha vocação e fui trabalhar em escritório como as “pessoas normais”. O resultado da equação foi hipertensão aos 26 anos e depressão, coisas que só começaram a efetivamente mudar quando retomei a minha jornada na escrita. Em nenhum momento foi fácil. Quando escrevo, fico vulnerável e exposta aos julgamentos de tantas pessoas que dá um nó no estômago só de pensar. Podem achar que meu é texto tedioso, que o assunto é banal, que eu sou arrogante, que escrevo mal, podem nem ler, enfim, os temores são infinitos.

Mas, aprendi que não podemos nos livrar do medo, mas podemos nos habituar a agir apesar dele, e nunca mais nos deixar paralisar. E se você chegou até aqui comigo, espero, sinceramente, que você – se ainda não tiver feito isso – respire fundo, coloque a mochila nas costas e parta rumo ao desconhecido, lembrando que quanto maior o medo, maior a recompensa que te espera. Por isso, te desejo uma jornada assustadora!


Thaís Messora

Breve e inconstante, mas sempre intensa. Dona de uma mente inquieta e atitude dispersa. Para o bem ou para o mal, vivendo de verdade .
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