casa da finaflor

Uma linha de pensamentos transformados em textos jornalísticos, culturais, literários e poéticos.

Andressa C. Monteiro

O anseio do próximo encontro

Cada ligação telefônica não recebida é toda memória revisitada por mim.


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O sexo traz a decorrência do aguardo. O vinho amaldiçoa e enterra a ânsia por mais um dia sem o toque. Virgens suicidas oferendam seus lençóis sagrados e veneráveis, sujos de pureza e com ateio a homens corteses e indulgentes. E eu espero por você. Cada fino fio de cabelo que puxo do meu crânio reforça a contagem de mais um segundo daquilo que ainda não aconteceu.

Cada parte do rosto que encravo e finco minhas unhas se transforma em feridas que se acumulam em meu semblante preocupado e ocioso. Cada olhar perdido ao horizonte se direciona a templos ocultos que adoram recordar o que vivemos. São formas de realidade paralela; o somar do relógio que computa os minutos e as horas passíveis de serem suportadas; uma injeção de percepções instantâneas e energéticas. Nervais, substanciais.

Cada vibração telefônica não recebida é toda memória revisitada por minhas pernas trêmulas quando você as abocanhava. Cada sol que vai se deitar é mais um dia que as cicatrizes, marcas e hematomas de seus dentes profundos e dominantes se empalidecem e se grifam em meu corpo sucumbido. Cada prece rezada é a expectativa de que tudo continue como está e de que essa aflição se enfraqueça com a precisão da segurança guardada e contínua.

Assim que eu te ver, assim que uma mensagem escrita for substituída pela sua voz, a decorrência do aguardo diminuirá e a ininterrupção do afeto crescerá gradativamente pela sexualidade. A todas as santidades e deuses que deixo de acreditar, a todos os planetas, galáxias e constelações que procuro ao me guiar e a toda forma de fé, crença, intuição e apreensão que por fim me confortam, peço que o presságio e a sentença do tempo sejam afáveis e caridosos. Que ele espere por mim. E que eu espere por ele.

Ilustração: Ben Tour


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