casa da finaflor

Uma linha de pensamentos transformados em textos jornalísticos, culturais, literários e poéticos.

Andressa C. Monteiro

Sobre os sabores e amores da infância

A garotinha virou mulher de marinheiro. Navega e rema com cautela, pois sabe que o beijo e a reza sempre serão a sua recompensa.


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Ela ainda sabe como é estar ao lado daquele menino. Sobre o curioso e continuo desejo de admirá-lo e a total falta de atenção perante o resto do mundo enquanto ele estava por perto. A dor branda, paralisante e deliciosa ao perceber que ele havia tocado em suas mãos pela primeira vez - ainda quando eram crianças e trocavam olhares singelos e sorrisos tímidos -, se uniu a vontade de brincar em um jogo de memórias, continuidades e lembranças que aparecem nas sutilezas, sensações e eleições desses versos.

Ele usava um par de botinas com os cadarços marrons, gastos e desamarrados, e as calças curtas unidas a um suspensório bege-pastel. Os olhos azuis sorriam ao chutar uma bola de capotão, enquanto o vento bagunçava seus cabelos levemente acastanhados, com nuances de avelã, assim que o sol batia na água do cais, após o meio-dia.

Ele foi o continente dela; sem bússolas, guias ou mapas. Um porto sóbrio, forte. Sem o alvoroço do badalar dos sinos que indicavam partida, das gaivotas que sobrevoavam o mar sob comando de ataque, ou muito menos sem quaisquer outros artifícios que fizessem a menina pensar em zarpar do cruzeiro de trajetórias conjugadas em par. A alegria era igual a de piá quando se esbaldavam em doces e brigadeiros; se encantavam com o cair do sol e dos confetes em um final de tarde; contavam o número exato de jujubinhas verdes, vermelhas e amarelas ou de peixinhos no aquário, quando ficavam com a língua azul de chiclete ou quando observavam uma fotografia revelada pela primeira vez.

O primeiro beijo tinha sabor de gloss de morango misturado a saliva e ao hálito da bala de menta dele - que a nossa mãe dá quando a gente tem dor de garganta. Uma saudade de um sentimento que passou a existir cada vez menos, de forma fragmentada, seletiva, mas que em outrora sempre esteve presente.

Eles cresceram e agora riem surpresos por ainda estarem abordo após tantas atribulações, correntezas, tempestades, cais e portos vazios. As recordações e provas de amor permaneceram intactas, sem umidade, bolor ou fungos, independente do tempo de velejo ou corda que teimasse em ancorar o navio.

A voz rouca da maresia, os gestos bruscos e rudes, a grossura dos fios dos cabelos que o sal do mar tratou de engrossar, a camisa xadrez escura, quente e tenra, a doçura e leveza do chantilly contrastando com o amargo e o seco do uísque com café que só ele sabia preparar acalentavam e aqueciam o coração dela em dias frios, inermes e indefinidos. A garotinha virou mulher de marinheiro. Agora, navega e rema com alívio e cautela, pois sabe que o beijo e a reza sempre serão a sua recompensa.


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