casa da finaflor

Uma linha de pensamentos transformados em textos jornalísticos, culturais, literários e poéticos.

Andressa C. Monteiro

O hospedeiro da culpa

Em seu último romance publicado, Philip Roth atribui vitimismo à justiça divina.


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Criança sendo vacinada contra pólio na Inglaterra. Data: 26 de maio de 1956. Imagem: Thurston Hopkins/Picture Post/Getty Images

A poliomielite esteve presente por muito tempo, contaminando silenciosa e globalmente um número inestimável de crianças e adultos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que haja 20 milhões de pessoas que venceram a pólio, além de 12 milhões em todo o mundo com algum grau de limitação física causada pela doença. Grandes epidemias aconteceram na Europa e nos Estados Unidos até o final do século XIX. Foram conduzidas mudanças importantes na medicina, na fisioterapia e na arrecadação de fundos filantrópicos. Os sobreviventes da pólio colaboraram com o progresso de movimentos pelos direitos de deficientes, em campanhas civis e sociais.

Na ficção, Eugene “Bucky” Cantor, principal personagem do livro “Nêmesis”, de Philip Roth, lançado no Brasil em setembro de 2011 (tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras, 200 páginas), passa pelo mesmo problema com a doença: aos 23 anos de idade, é um professor de educação física e inspetor de uma escola judaica de Newark, nos Estados Unidos, que tem sua vida transformada quando vários alunos do colégio contraem poliomielite, em 1944.

À medida que mais casos eram descobertos, a população da cidade ficava extremamente temerosa, já que a fonte do contágio era misteriosa e anônima. Portanto, toda e qualquer forma de interação física era motivo para suspeitas. Por ver grande parte dos estudantes à sua volta doentes, Bucky carregava um sentimento de culpa e de medo perante à doença, com temor de contraí-la ou, pior ainda, de passá-la aos seus alunos - já que deixava bem claro que eles não parassem de praticar exercícios físicos mesmo com a epidemia presente.

Seu avô, um judeu imigrante polonês, era um homem rigoroso e fiel aos princípios de masculinidade, força corporal, tenacidade, determinação e integridade moral. Ele “ensinara o neto a se afirmar como homem e judeu”. Como uma batalha a ser vencida, (já que Cantor, por ser míope, não pode lutar na Segunda Guerra Mundial), o surto da doença deixou Eugene com um senso de responsabilidade ainda mais acentuado, convertido em princípios aplicados aos seus alunos.

No entanto, sua disciplina diária e sua postura cidadã de sempre procurar protegê-los e de estar presente para o que eles precisassem não foram suficientes para que ele permanecesse em Newark. Como rota de fuga para a pólio, ele vai atrás da namorada em uma colônia de férias em Pocono. Tal decisão estabelecerá, em uma ordem imprevista de fatos, uma transformação profunda em sua vida. Os sintomas da culpa de Bucky são observados em anseios de descrença. Ele sentia-se um covarde, mas culpava a Deus por ser injusto ao transformar pessoas “normais” em “aleijadas”.

Perante uma intervenção milagrosa que nunca chega para o professor, a história, por mais que ganhe o titulo de “Nêmesis” (nome da deusa grega da vingança), oferece empatia e comiseração. Empatia, pois o leitor pode considerar, por vezes, tomar as mesmas decisões que Bucky tomou se estivesse em seu lugar e de comiseração pela a ajuda que ele recebe de seus alunos, familiares e namorada durante sua trajetória no livro.

A intensidade da narrativa estimula o embate entre o personagem principal e sua finitude. O significado da palavra “incapacidade” é ainda mais forte e irreversível em sua definição, pois não há nada que Eugene possa fazer para mudar o seu destino e o do das pessoas ao seu redor. A não ser esperar por redenção (cura) ou pelo fim da vida.

Causa-se, então, um efeito de expectativa perante uma espécie de “remição e perdão” que Bucky dará ou não a si próprio (afinal, ele passou ou não passou pólio aos alunos?). Não há medidas, orações ou medicações dispostas que trarão controle sobre a doença e as consequências que ela irá trazer a cada uma das personagens. Portanto, aqui vale até dizer que “o que não tem remédio, remediado está”. Percebe-se uma ideologia típica americana entre o triunfo da coragem (de enfrentar a doença) e da vitória (de lutar para permanecer vivo) ante circunstâncias obscuras e fatais. Esse conceito vale para a personagem de Arnold, um dos alunos de Bucky que contrai a doença, mas que reconstrói sua família e vida, apesar de suas limitações físicas.

A obra pode sugerir que mesmo os piores infortúnios ainda não possuem força o bastante para destruir categoricamente tudo ao seu redor. Para se ter uma análise otimista sobre a história, não devemos nos ater ao que Bucky pensa sobre si próprio, mas em como os seus próximos o enxergam.

Apesar de enfrentar a perda dos estudantes e as mudanças psicológicas e físicas duras que esse tipo de enfermidade pode causar, ainda permanece o instinto de amor entre essas personagens. Eugene é venerada por seus alunos. Em trecho da versão em inglês do livro, que aqui ganha tradução livre, ele era visto como "a autoridade mais exemplar, um jovem de convicções, de fácil convivência, amável, pensativo, estável, moderado, vigoroso, másculo - um companheiro e líder", ou seja, um modelo a ser seguido.

Sua namorada o deixou, mas não por vontade própria e sim pela decisão da reclusão de seu amado. No pensamento dela e de seus alunos (como acontece em reencontros de Cantor também com Arnold, personagem que ganha destaque e foco de atenção específicos em determinado momento do livro), Bucky era um homem incrível, mesmo que ele próprio não aceitasse ser digno dessa condição.

“Nêmesis”, em cenário ampliado, mostra como uma doença define e marca certo período histórico no mundo. Mas é também um livro que fala sobre afeto e admiração - mesmo que de forma simbólica e lúdica apenas na mente de quem projeta tais sentimentos perante o ser contemplado.


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