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Fotografia e Arte: além do ver para crer

Paula Geórgia Fernandes

Em algumas horas Arquiteta, e na maioria delas...Fotógrafa. E assim, vivemos essa metamorfose ambulante!

Todas as formas serão irmãs

Beethoven nos deixa a lição de que o mundo está em constante mudança, em seu tempo e com ações que fogem ao nosso controle. Adaptar-nos com nossas ferramentas, sejam sensoriais ou extra-sensoriais, são chaves para que possamos driblar tais ações, construindo nosso próprio caminho, apesar de todas as incertezas que temos de futuro. Espalhar alegria e acreditar, é o que precisamos fazer, cada um na sua parte deste fragmento de um todo, neste agora, que é a vida.


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Me pego sentada em minha mesa de trabalho e como de habitual costume, vou ao youtube em busca de um momento emocional de calmaria diante de um turbilhão de sentimentos negativos típicos do dia. Naturalmente me vem ao pensamento, inspirada sabe-se lá por quê ou por quem, ela, a nona sinfonia, construída passo a passo, com tanta dedicação e esmero e ao mesmo tempo, tanta sensibilidade, que só ela me traria a paz neste instante.

Começo a entrar em sintonia com seus movimentos. Uma grande colcha de retalhos iniciada em 1785, quando o alemão Friedrich von Schiller escreveu os versos do Poema Na die Freude (à Alegria), exaltando em versos a fraternidade e a união da humanidade. Em tempos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, emblema da Revolução Francesa, seus versos ganharam fama e se tornou inspiração para não só Beethoven, mas a uma série de compositores da época.

E algo universal surgia. De simples versos construídos ao momento em que foi regida pela primeira vez em Viena, em 1824, pelo maestro Michael Umlauf, 39 anos se passaram. E dentro deste processo, muitas ações e desafios criativos e de superação surgiram. A primeira delas, musicar um poema, linguagens distintas unidas em torno de um objetivo: criar uma obra. Passo a passo e em seu tempo, Beethoven buscou inspiração nas amplitudes sonoras de cada instrumento, como se cada um deles tivesse uma mensagem a passar. Suas referências, de Mozart à suas próprias composições anteriores serviram como base, mas o sentimento de Ode à Alegria era o mote desta construção. E para isso, é como se em cada fragmento, cada instrumento musical tivesse tido de aprender o seu tempo e a sua função como parte daquele todo, para que depois de aprendida a lição, todos pudessem tocar junto.

Considerada por muitos como a música das músicas, sendo ícone e predecessora da música romântica, a nona sinfonia é a primeira obra de um grande compositor importante de sua época que utiliza a voz humana com o mesmo destaque que os instrumentos. Um de seus manuscritos originais chegou a ser vendido pela Sotheby´s em Londres, em 2003, por 3,3 milhões de dólares.

Ao utilizar toda a sua técnica e maestria na composição desta obra, Beethoven ainda possuía um maior desafio produtivo e criativo neste processo: estava completamente surdo. Ao ter completo domínio dos sentidos em outras amplitudes, e podendo ter uma visão completa do conjunto, dando a cada parte importância fundamental de seu processo, Beethoven nos demonstra em prática, há mais de dois séculos, como a percepção maior de nossos potenciais estão ao alcance de apenas um lugar: dentro de nós mesmos. Arte e Técnica se fundiram em uma obra que não só estava marcada por escrito através dos versos de Schiller, com mensagens de liberdade, fraternidade e união, pura tradução dos ideais políticos libertários de sua época. O trânsito entre o musical e o oral se dá de forma tão minunciosa que ao primeiro olhar, não são coisas distintas. Se fundem de tal forma, que todos, podem ser um, juntos, mesmo sendo unidade. Sejam instrumentos musicais, vozes ou sentimentos.

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Seu espírito de luta, engajamento com suas ideias, perserverança e coragem se unem a uma enorme força de vontade de finalizar aquela que seria sua última composição. Não pode reger sua maior obra, mas esteve, na estréia em Viena, entre os músicos, orientando-os e marcando seus tempos. Absorto em suas partituras, ao final, o público irrompeu em aplausos, que não foram ouvidos pelo autor da obra, e sabendo que não podiam serem ouvidos, o público, utilizou dele o sentido da visão, saudando-o com lenços e chapéus, demonstrando visualmente, o entusiasmo pela obra.

Beethoven nos deixa a lição de que o mundo está em constante mudança, em seu tempo e com ações que fogem ao nosso controle. Adaptar-nos com nossas ferramentas, sejam sensoriais ou extra-sensoriais, são chaves para que possamos driblar tais ações, construindo nosso próprio caminho, apesar de todas as incertezas que temos de futuro. Espalhar alegria e acreditar, é o que precisamos fazer, cada um na sua parte deste fragmento de um todo, neste agora, que é a vida.


Paula Geórgia Fernandes

Em algumas horas Arquiteta, e na maioria delas...Fotógrafa. E assim, vivemos essa metamorfose ambulante!.
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