certa relevância

Sem um assunto certa relevância eu não escrevo, tampouco sou lida.

Roberta Simoni

Roberta Simoni é escritora, escritora e escritora. Todas as outras funções que desempenha são menos relevantes aqui.

Autoajuda ou atrapalha?

Os livros de autoajuda oferecem "receitas mágicas" para alcançarmos a felicidade plena, o equilíbrio, o sucesso, o emprego dos sonhos, o relacionamento perfeito. Daí nós tentamos, obviamente não conseguimos e acabamos virando uma legião de frustrados.


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Os livros de autoajuda estão entre os mais vendidos em todo o mundo, mas isso não significa que estejam entre os melhores. E isso não é opinião de quem tem preconceito e, portanto, nunca se atreveu a ler nenhum livro do gênero. Eu li, sim. Mesmo porque, para saber se gosto ou não, precisei ler primeiro. Quando era criança, eu dizia que detestava sorvete de flocos sem nunca ter provado e hoje é o meu sabor preferido. Bem feito pra mim! Aprendi a lição e desde então procuro experimentar antes de proferir que não gosto de determinada coisa.

E foi lendo que eu descobri que eu adoro romances, contos, crônicas, biografias e, definitivamente, não gosto de livros de autoajuda. Na época da escola, quando eu era “obrigada” a ler Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros clássicos, eu não curtia nada, nada. Só muito tempo depois eu vim a descobrir o que estava perdendo.

Por isso, estou certa de que meu interesse pela leitura não começou naquela fase e sim quando eu passei a escolher meus próprios livros. E um dos primeiros que li foi O Alquimista, romance mais popular do escritor Paulo Coelho. Essa escolha quase colocou em risco a minha trajetória como leitora, não porque eu tenha gostado tanto do livro a ponto de buscar outros títulos do autor e me enveredar por caminhos um tanto tortuosos, mas porque fiquei tão decepcionada que acabei custando um pouco mais a despertar o interesse pela boa literatura.

Embora eu ainda não conhecesse profundamente a definição "autoajuda" na minha pré-adolescência, quando li O Alquimista, lembro da sensação de estar diante de uma combinação de magia com sabedoria popular, que falava uma linguagem universal, repleta de clichês e tremendamente rasa, e aquilo foi, no mínimo, muito tedioso. Só anos mais tarde, com uma bagagem literária um pouco maior e com um senso crítico mais apurado é que compreendi o meu desconforto ao ler aquele livro: tratava-se de um romance que cabe perfeitamente na rubrica de “autoajuda” das livrarias.

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Posteriormente, me dei ao trabalho de ler outros livros do autor, na intenção de perder a má impressão que o primeiro livro me causou. Então foi fatal: eu realmente não gostava dos livros do escritor mais vendido do país. Nem dos dele, nem de outros autores de autoajuda (nacionais ou internacionais) que li.

É importante ressaltar que, acima de tudo, tenho muito respeito por todos os autores, embora eu não necessariamente goste ou concorde com os que todos escrevem. Também respeito os leitores cujos autores não são da minha predileção. Primeiro porque gosto não se discute, segundo porque qualquer leitor merece respeito, seja ele um leitor de bula de remédio ou de romances de 800 páginas.

Minha intenção aqui não é a de dizer PAREM DE LER LIVROS DE AUTOAJUDA! Não. Esse texto é só um convite a uma reflexão sobre o tipo de conteúdo que andamos consumindo por aí.

Primeiro ponto:

Uma característica em comum nos livros desse gênero é a busca pela felicidade, pelo equilíbrio, pelo sucesso, pelo casamento perfeito, pela postura ideal na vida profissional, pela plenitude na vida amorosa e sexual. O problema é essa busca incessante, especialmente por meio de receitas ilusórias. Querem nos convencer a buscar realizações permanentes naquilo que é momentâneo e cíclico: a vida. Daí a gente tenta, obviamente não consegue (pelo menos não por muito tempo) e se frustra.

Somos uma legião de frustrados numa geração em que a felicidade virou uma obrigação.

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E por que esses livros vendem tanto?

Porque eles oferecem o que as pessoas querem desesperadamente consumir: fórmulas mágicas para resolver definitivamente seus problemas, suas dores, seus medos e limitações e suprir suas carências. E bem como os comerciantes estão de olho no que os consumidores estão buscando, alguns escritores de autoajuda também estão mais preocupados em vender do que propriamente em ajudar alguém.

Recentemente a notícia do suicídio de uma das autoras de livros de autoajuda mais populares da Coréia andou circulando nas redes sociais. O caso aconteceu em 2010, mas, por algum motivo, a notícia só veio a criar maior alarde este ano. Em seus mais de 20 livros a escritora Choi Yoon-Hee, também conhecida como a “sacerdotisa da felicidade”, oferecia fórmulas para alcançar a felicidade e enchia de esperanças um país que tem a taxa de suicídios de mulheres mais alta do mundo e a segunda mais alta para os homens, depois do Japão. A escritora, que também tinha um programa numa emissora de televisão coreana, enforcou-se e deixou uma carta com um pedido de desculpas aos seus seguidores, amigos e familiares.

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Apesar de ser um caso isolado e de não podermos generalizar colocando todos os autores de autoajuda no mesmo pacote, vale a reflexão: será que esses mesmos autores que estão nos dizendo para fazer isso ou aquilo, para agir assim ou assado, praticam o que pregam? Será que funcionaria com a gente o que, na prática, não funciona nem com eles?

Pode até ser inútil para o próprio autor e para o leitor não, mas isso depende muito mais de um aprendizado individual, baseado em experiências vividas, do que da leitura de um livro que contém regras ou dicas de como viver melhor.

Para não ser injusta, acho que existe um tipo de abordagem que se enquadra no estilo autoajuda que é bastante louvável: aquele cujo autor divide suas experiências com o leitor sem impor nada, permitindo que ele tire suas próprias conclusões segundo sua interpretação.

Leu, gostou e aprendeu? Maravilha! Faça bom uso disso, mas tome sempre o cuidado de avaliar sua própria história de vida e sua personalidade, aplicando no seu dia-a-dia só aquilo que cabe nele, para não embarcar numa busca desenfreada por algo que nem existe ou que não faz parte da sua realidade.

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E não, isso não é uma dica, eu juro! É só um alerta: CONSUMAM LIVROS DE AUTOAJUDA COM MODERAÇÃO E ALGUMA RESTRIÇÃO.

Segundo ponto:

Não há desafio nesse tipo de leitura porque não existe qualquer enigma a ser desvendado nem qualquer ambiguidade ou elaboração de metáforas que tirem o leitor da sua perspectiva habitual.

Ler livros que ecoam a nossa própria voz (que costuma ser a voz do senso comum e da moral vigente) é bom até a segunda página. Pode até rolar uma tremenda identificação, mas a expansão da mente por meio da imaginação e a diversão que consiste nesse exercício, que são o grande barato da literatura, não acontecem.

Acreditem: um bom romance de realismo fantástico está mais capacitado a tornar-nos pessoas melhores do que qualquer narrativa arrastada e previsível do "fantástico mundo da autoajuda".

Bom mesmo é ler autores que nos tiram do nosso lugar comum, que nos provocam sentimentos adversos, que nos instiguem a questionar, que nos surpreendam e nos levem a embarcar em verdadeiras viagens para lugares e situações imaginárias ou até mesmo reais, mas que nunca chegaríamos a vislumbrar se não fosse por meio de um bom livro.


Roberta Simoni

Roberta Simoni é escritora, escritora e escritora. Todas as outras funções que desempenha são menos relevantes aqui..
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