certa relevância

Sem um assunto certa relevância eu não escrevo, tampouco sou lida.

Roberta Simoni

Roberta Simoni é escritora, escritora e escritora. Todas as outras funções que desempenha são menos relevantes aqui.

A genialidade dos loucos

Todo mundo possui algum tipo de loucura, de maior ou menor grau. O papel da sociedade é separar os loucos funcionais dos não funcionais (sem falar nos perigosos que, de fato, precisam ser afastados). O que pouca gente sabe, no entanto, é que as pessoas tratadas em clínicas psiquiátricas são tão ou mais funcionais do que a maioria que anda solta por aí. Distúrbios mentais geralmente estão atrelados a muita sensibilidade, talento e inteligência.


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Lúcia veio correndo me abraçar e me pediu para tirarmos uma foto juntas. Depois da foto, perguntei a idade dela. 18, disse. Uma das enfermeiras se aproximou e desmentiu, contou que ela acabara de completar 41.

- Ora ora, mocinha, mentiu pra mim por que, hein?

- Eu não menti. Se eu gosto de ter 18, eu tenho 18.

Justo!

- Onde estão os maracujás? Onde estão os maracujás? Os loucos precisam é de maracujás!

Quem dizia isso, aos berros, era um senhor parecidíssimo com Albert Einstein. Perguntei do que se tratavam os maracujás e ele me explicou que tinha levado muitos maracujás para fazerem suco para os malucos mas que, ao invés disso, estavam oferecendo refrigerante.

- Como podem querer que a gente fique curado tomando guaraná?

Eu, com o copo de guaraná na mão, fui obrigada a concordar.

Enquanto o Einstein dos maracujás me mostrava seu livro de poesias (impresso e vendido por ele mesmo), um moço parecido com o Jorge Ben Jor se aproximou de nós e perguntou meu nome.

- Roberta? Já compus uma música chamada Roberta, para uma moça chamada Roberta, sabia Roberta?

Nesse instante, passou por nós um rapaz vestindo uma camisa de forças e o Ben Jor disse:

- Eu já usei aquilo ali um monte de vezes. É horrível. Coça muito e a gente fica com as mãos presas se roçando no muro para aliviar. Pior do que a coceira, só o choque elétrico. Tá vendo aquele cara ali? Ele já foi um grande matemático, tomou choque um monte de vezes e você pode ver, óh… ele não ficou sequelado nem nada. Eu também não, tá vendo?

Eu ali, entre a Lúcia de 18 anos, o Einstein dos maracujás e o Ben Jor não-sequelado tentando entender o universo deles, fazendo perguntas que eles disputavam para responder primeiro e conseguir mais tempo da minha atenção. Tão fascinante quanto assustador foi perceber que todos eles possuem, em sua essência, alguma genialidade. Escritores, compositores, artistas, matemáticos…

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E eu – que estou longe de ser um gênio – o que eu fazia num sanatório? Poderia estar, tranquilamente, buscando tratamento mas, naquela ocasião, estava cobrindo as ações sociais que uma empresa promovia no hospital.

Acabei voltando lá outras vezes por conta própria para visitar Lúcia e cia e, recentemente, por outras razões, finalmente conheci o Instituto Philippe Pinel. Nessa ocasião, tive a chance de passar algum tempo com um ex-militar, com quem tive uma conversa esclarecedora acerca da realidade dos portadores de distúrbios mentais. Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se por ignorância.

Ser portador de uma doença mental como a esquizofrenia, por exemplo, é tão ou mais grave do que ter um câncer, mas ninguém fala, ninguém vê, ninguém ouve, porque fomos acostumados a criar muros que nos separam, delimitam e nos isolam de pessoas com doenças mentais (a primeira vista em nome do tratamento, mas também e principalmente, em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar).

Mas aí, se você se propõe a conhecer de perto a realidade de pessoas com qualquer tipo de deficiência mental, acaba descobrindo que, ao se arriscar entender melhor suas formas de pensar, sentir e enxergar o mundo, você não vai ficar mais louco, talvez mais sóbrio, o que pode ser, de fato, comprometedor.

Eles nos dão tijolos e nós decidimos o que fazer com eles. E só há duas possibilidades:

Ou continuamos levantando muros ou começamos a construir pontes.

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