certa relevância

Sem um assunto certa relevância eu não escrevo, tampouco sou lida.

Roberta Simoni

Roberta Simoni é escritora, escritora e escritora. Todas as outras funções que desempenha são menos relevantes aqui.

Os mortos vivem online

Estima-se que mais de dez milhões de perfis nas redes sociais são de pessoas que não estão mais entre nós. Naturalmente, a tendência é que esse número aumente cada vez mais. Você já parou para pensar em como lidar com isso? Pois deveria.


facebook_morto1.jpg

Dia desses, através de um contato no Facebook, vi a foto de um colega que eu costumava encontrar com frequência no meu bairro, nas festas que frequentávamos ou em algum evento realizado por amigos em comum. Nunca fomos apresentados, mas de tanto a gente se esbarrar, sempre se cumprimentava e acabava batendo papo numa roda de conversa. Da última vez, falamos de tudo um pouco e rimos um bocado. Só quando fui embora é que me toquei que havia esquecido de perguntar o nome dele outra vez. Mas, tudo bem, oportunidades não faltariam.

Os meses se passaram e não nos esbarramos mais nas esquinas da vida. Até que dei de cara com o perfil dele no Facebook. "Nossa, é aquele cara simpático que eu nunca mais vi", pensei. Por curiosidade, fui dar uma olhada. A internet tem dessas coisas: você entra na vida da pessoa para "ver como ela está", sem que ela necessariamente precise te convidar, abrir a porta e te oferecer um café. Você entra e sai sem ser convidado e sem ser visto, como um fantasma.

Bom, entrei sem bater na porta e... para o meu espanto, além do seu nome, descobri algo muito improvável: ele havia morrido.

As inúmeras mensagens saudosas de amigos e parentes evidenciavam que o pior aconteceu. Custei a acreditar. Fiquei ali, paralisada diante do perfil dele, tentando assimilar aquela informação. Como assim m-o-r-r-e-u?

Eu nunca mais esbarraria com ele por aí, nem voltaria a ter a chance de conhecê-lo melhor como achei que teria.

esculturas_cemiterio_02.jpg

Acabei descobrindo também através dele - que nem sequer era meu amigo, era só alguém que eu estava acostumada a encontrar e trocar sorrisos genuínos - o quão assustador é tomar conhecimento da morte de alguém dessa maneira.

Minha tia, que faleceu há pouco tempo, teria feito aniversário ontem. E quem me fez lembrar disso não foi minha mãe como era de costume, foi o Facebook. "Hoje é o aniversário de fulana. Dê os parabéns na linha do tempo dela."

O que tornou tudo mais doloroso foi ver alguns desavisados passando por lá desejando MUITA SAÚDE E MUITOS ANOS DE VIDA pra ela, sem saber que aquela vida já havia se esvaído. Além deles, os avisados também passaram por lá deixando mensagens carregadas de dor. Tomada pela emoção, cheguei a ter o impulso de escrever alguma coisa pra ela também, mas rapidamente desisti.

Me pus a imaginar minha tia, em alguma dimensão desconhecida, com o celular no bolso, sentindo-o vibrar toda vez que recebia uma mensagem pelo seu aniversário. Fiquei perturbada com essa cena que a minha imaginação fértil me fez vislumbrar. Em seguida, finalmente deixando o meu lado racional trabalhar, pensei que aquela atitude, por menos nociva que fosse, seria, no mínimo, inútil. Sem querer entrar no mérito filosófico-religioso da existência do céu e do inferno, metaforicamente falando, suponho que ainda não tenha wi-fi no céu e que o sinal 3G não pegue nas profundezas do inferno. Nem lá em casa pega direito!

morte_facebook.jpg

Recentemente me vi obrigada a deletar dos meus contatos uma amiga que, depois de morta, teve sua conta manipulada por seu namorado que não percebia o quão macabro era o que estava fazendo. Ele declarava seu amor e sua dor através da página dela, publicando fotos e escrevendo mensagens para os amigos no dia que ela fazia aniversário (de vida e de morte). Toda vez que eu me deparava com alguma postagem "dela" no meu feed de notícias, me arrepiava. Era um misto de susto - como se ela tivesse voltado do mundo dos mortos - com dor, porque aquele aperto terrível no peito voltava com a mesma intensidade do dia em que tive a notícia da sua morte. Era como reviver o momento da perda constantemente, como se não bastasse a saudade permanente.

Com o número crescente de usuários mortos, o Facebook criou um serviço especial: além de solicitar a exclusão da conta, os parentes podem também transformar o perfil do falecido em um memorial. Com essa configuração, a página continua exatamente como a pessoa deixou, sem alterações. Para fazer esse pedido, é preciso preencher um formulário online, comprovar o grau de parentesco e enviar a certidão de óbito.

Imagino que a maioria das pessoas não saiba da existência desse recurso, mas também compreendo que, tendo acesso ou não a essa informação, muitos ainda se recusem a apagar essas contas, porque elas acabam funcionando como uma espécie de mural de recordações e homenagens póstumas. Um lugar onde - teoricamente - é possível visitar aquela pessoa e "interagir" com ela, recusando-a como morta.

Diante de perfis de mortos, especialmente aqueles com quem tínhamos alguma afinidade, somos confrontados com a realidade de uma vida sem dono e isso é perturbador. Perfis virtuais são efetivamente manipulados por vivos, que quando passam a não manipulá-los mais porque deixaram de ter um corpo, nos vemos diante de um paradoxo: apesar da compreensão racional da morte, a aceitação emocional demora mais a acontecer e, inevitavelmente, enxergamos uma manifestação "viva" naquela página virtual, embora sem consciência. E é por isso que esses perfis acabam assumindo uma função memorialista, permitindo que nos relacionemos "para sempre" com eles.

6669368187_ebde939da9_z.jpg

Em certo sentido, para algumas pessoas, os perfis dos falecidos ocupam o lugar dos obituários, estendendo as cerimônias de despedida para o mundo virtual, em especial para aqueles que acreditam que a vida continua após a morte. Para a maioria de nós, independente de crença ou religião, o velório, o sepultamento, os cultos ou as missas não bastam como despedida, uma vez que mesmo depois desses rituais continuamos ligados àquela pessoa através do pensamento.

A questão é: homenagens póstumas numa página de internet podem substituir, por exemplo, o ato de ir até o cemitério prestar condolências à família ou levar umas flores? Até que ponto estamos conseguindo lidar com a morte, escrevendo no perfil virtual do morto, mesmo que não haja a débil intenção de enviar mensagens para o além?

Eu continuo achando o pensamento positivo ou a oração para alguém que está em outro plano espiritual bem mais eficientes do que recados num mural de Facebook. Mas não posso negar que, o ato de escrever para alguém que já morreu, seja através de uma carta, de um e-mail, um recado nas redes sociais ou seja lá o que for, não deixa de ser uma forma de enviar um pensamento, um sentimento, uma intenção. Cabe ao remetente decidir se surtirá mais efeito positivo - em si próprio - falar a sós com suas dores e saudades ou manifestá-las num espaço virtual.

A maneira de se relacionar com a morte, que sai do campo real e passa a permear também o ciberespaço, deve ser encarada apenas como uma nova forma de vivenciar o luto ou deve servir como um alerta para começarmos a pensar num outro jeito (se é que ele existe) de lidar com a morte? Da mesma maneira que incorporamos as novas tecnologias na nossa rotina, devemos nos adaptar aos novos - e esquisitíssimos - rituais de despedida virtuais ou manter a tradição? Ou, ainda, por que não manter a tradição e se acostumar a dividir o espaço cibernético com os mortos?

Segundo o site What if, atualmente, existe algo entre 10 e 20 milhões de perfis de pessoas que não estão mais entre nós nas redes sociais. Com isso, é possível dizer que o pessoal que entrou na rede social nas primeiras décadas deste século (2000-2020) estará na “idade crítica” em 2065, faixa com a maior taxa de mortalidade ao redor do mundo. Já parou para pensar que, se você viver até lá (e as redes sociais também), como poderá se sentir olhando a sua lista de amigos, de maioria mortos? No mínimo, deprimido, né?

facebook-ipad-20120514-02-original.jpeg

Aí o que você faz? Termina de ler esse artigo, vai para o Facebook e procura não pensar mais sobre o assunto, afinal, pra quê pensar numa coisa tão distante? E por que sofrer antecipadamente, não é?

Me parece que compartilhar esse tipo de preocupação com os amigos mais próximos, parceiros ou parentes é algo fora de cogitação. Ao que tudo indica, a morte nunca vai deixar de ser um tabu, um assunto a ser totalmente ignorado e evitado até última instância, como se não fosse a única coisa certa da vida.

Mas, pensa comigo: se a morte é o único acontecimento sobre o qual temos certeza absoluta que vamos enfrentar e, no entanto, na maioria das vezes não temos como saber como nem quando vai acontecer, por que parece cedo demais para pensar a respeito?

Comece a pensar e, se possível, deixe registrado (ou informe a alguém de sua confiança - e torça para ele não morrer antes de você) em como quer deixar as coisas por aqui quando você partir. Para quem pretende deixar seus bens materiais depois que você cantar para subir? (no meu caso, vai ter livro pra todo mundo dividir); o que espera que façam do seu corpo físico depois que você for dessa para melhor (ser enterrado, cremado, ter seus órgãos doados)?; e, por que não se perguntar o que fazer com suas páginas nas redes sociais?

Se você não se incomodar em mantê-las, por via das dúvidas, tome apenas algumas precauções desde já: 1) bloqueie a marcação em fotos, afinal você não estará mais aqui para ver como andam expondo a sua figura; 2) exclua dos seus contatos aqueles perfis de propaganda (de lojas, festas, academias, salões de estética), nada a ver você ficar sendo toda hora convidado para aquela festa open bar sem poder ir, ou para fazer aquela massagem modeladora na barriga que você já perdeu junto com todo o resto do seu corpo e 3) bloqueie os convites para joguinhos, primeiro porque se você gostar de jogar, vai ficar se coçando lá no céu (isso, é claro, se o céu for o seu destino) e segundo porque se você, assim como eu, detestar receber esses convites, não terá vantagem nenhuma em estar morto se nem assim você estiver livre dessa praga.

E se você chegar a conclusão de que esse assunto é muito mórbido e preferir deixar que façam o que quiserem depois que você morrer (afinal, que diferença vai fazer se você já morreu?), pondere um pouco mais e pense em como isso vai facilitar a vida de quem estiver cuidando da sua morte. Se você conseguir ser prático o suficiente para isso, aposto que, além de querido em vida, vai ser um morto pra lá de benquisto.

7813597823194456.jpg


Roberta Simoni

Roberta Simoni é escritora, escritora e escritora. Todas as outras funções que desempenha são menos relevantes aqui..
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/recortes// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberta Simoni