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Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.

Eu Tentei Gostar de 50 Tons de Cinza...

Chega aos cinemas o filme de 50 Tons de Cinza, best-seller que gerou tanta adoração quanto bafafá. Li o livro e me surpreendi. Como algo com conceitos tão antigos conseguiu ser vendido como ousado e moderno? E como tantas mulheres se impressionaram com um enredo que encarna tudo contra o que muitas delas lutam? Bom, fui de coração aberto para 50 Tons de Cinza, mas não consegui abraçar essa história. Os motivos, explico já.


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Fanfic com Cara de Fanfic

O avatar Snowqueens Icedragon escrevia fanfictions online, sendo que sua criação mais popular era “Master of the Universe”, uma fanfic sobre a Saga Crepúsculo. Conforme a história foi ficando mais picante, a autora decidiu trocar os nomes originais por outros que não tinham mais relação com os vampiros, publicando o novo texto em um site próprio. Assim nasceram “50 Tons de Cinza” e a mais nova escritora E. L James.

Ou seja, os exageros e a escrita rascunhada estariam perdoados porque, afinal de contas, era só uma fanfic, escrita por uma fã que imaginava uma série de situações para seu casal favorito. Depois se transformou em uma história amadora, praticamente idêntica à original. Mas, no momento em que uma editora decide publicá-la e, mais tarde, um estúdio compra seus direitos autorais, todo um aparato é criado para transformar um material bruto em uma leitura de primeira. Quem gosta e elogia passa a ser moderno e liberal. Quem não gosta ou critica passa a ser antiquado e preconceituoso.

É um Conto de Fadas Distorcido

A princesa indefesa e pura vem na forma de uma jovem com baixa autoestima, sem muitas conquistas na carreira ou na vida pessoal. Já o príncipe vem em um helicóptero particular, dono de uma empresa gigantesca e algumas preferências bem peculiares no quesito sexo. Anastasia (até o nome é de princesa) encontra ascensão pessoal e profissional através de seu relacionamento com Grey. Ele a salva de sua vidinha sem graça com seu dinheiro e influência. Por mais que os métodos desse príncipe às avessas sejam questionáveis, o que sente por Anastasia é amor verdadeiro. Ela, é claro, o corresponde, e eles terminam a trilogia *SPOILER* felizes para sempre, com a jovem assumindo seu papel de “esposa de um homem rico”.

Só que, ao contrário das princesas, Anastasia não é generosa, astuta ou sofre com algum tipo de maldição. Ela é apenas frágil. E, ao contrário dos príncipes, Christian não é valente ou gentil. Só é rico.

Eu nao mereco 2jpg.jpg Calma, Snow, sabemos que você não é assim

Não é um Manual BDSM

Se você quer entender mais sobre “Bondage e Disciplina”, “Dominação e Submissão” e “Sadismo e Masoquismo”, Cinquenta Tons de Cinza não vai ser de muita ajuda. Primeiro porque a autora tirou os jogos e fetiches sexuais da sua cabeça, baseados em seus próprios desejos. Não necessariamente é como um casal adepto a essas práticas se comporta na cama. Segundo porque os papeis de ‘dominador’ e ‘dominado’ são válidos apenas na hora do sexo ou em função do sexo, sendo que ambas as partes precisam concordar e se sentir confortáveis com isso. É um jogo de controle que excita os participantes, mas não quer dizer que um parceiro mande no outro de verdade. BDSM não tem nada a ver com o abuso do corpo ou da confiança alheia.

Expectativa vs Realidade

A sinopse do livro descreve Christian como um homem arrebatador, enigmático e brilhante. Já Anastasia teria um jeito atrapalhado e independente. Mas o que as páginas oferecem é um sujeito que não consegue terminar um diálogo de forma decente, vive de cara feia e não tem nada que o classifique como brilhante além de referências forçadas a autores e compositores do século XVI. Na verdade, as falas de Christian lembram muito mais as cantadas de um pedreiro do que um galã.

Quanto a Anastasia, bom, qualquer um que cogite assinar um contrato onde aceita ser propriedade de alguém passa longe de ser independente. A jovem hesita, acha estranho, não concorda, mas sempre acaba cedendo às vontades de Grey. Todos os seus pensamentos giram em torno dele e sua vida perde o sentido quando não o tem por perto. Christian a trata como uma criança idiota que deve ser doutrinada. E ela o acha irresistível por isso.

Julgando pelo título dos três livros (Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade), pensei que Ana entraria nessa furada por ingenuidade, seduzida por algo que nunca teve. Aí a coisa ficaria feia e ela, mais amadurecida e resoluta, se libertaria daquela situação. Mas o segundo e o terceiro livros nada mais são do que um repeteco do primeiro: Ana mordendo o lábio, Christian rosnando e uma história pra lá de sem noção.

phantom.jpg Fantasma 10 X 0 Christian

Concessões

No início, Anastasia não se sente nem um pouco à vontade com os termos (a.k.a imposições) do contrato de Grey. Contudo, ao perceber que eles viriam com bônus como tratamento no salão de beleza e roupas de grife, começa a fazer concessões. É quase um sistema de recompensa. Christian lhe dá uma vida cheia de glamour (e orgasmos) e ela lhe dá seu corpo e o controle sobre sua conduta. Nada vem de graça né?

Do mesmo modo, a história busca justificar os comportamentos abusivos de Grey. O gosto por dominação e violência veio de um passado complicado. O controle excessivo não é paranoia, é preocupação. O ciúme descontrolado é prova de amor. As leitoras, por sua vez, aceitam essas justificativas por um simples motivo: Grey é rico, poderoso e bonito.

Se fosse um subalterno da empresa, tivesse uma careca, salário atrasado ou uma barriguinha de chopp, provavelmente seria visto como o vilão ou um personagem mal construído. Nunca um sonho de consumo.

SOU SUA.jpg Retirado de http://leticce.blogspot.com.br/ com a devida autorização da ilustradora

Pornô da Mamãe

As cenas eróticas são tratadas como algo tão surreal que ao invés de picantes acabam sendo apenas estranhas. Tudo - absolutamente tudo - que Christian faz deixa Anastasia babando e não importa há quanto tempo estejam juntos e quanto sexo já tenham feito, ela nunca parece acreditar que um homem tão 'incrível' tenha se atraído por ela. Então você termina lendo um romance frio e um sexo selvagem meloso, com Anastasia mais parecendo uma fã de Christian.

Marcelinho lendo 50 Tons de Cinza.jpg

As Vantagens de ser Submissa

O sucesso que o livro fez entre o público feminino (mais velho e mais novo) levanta algumas questões. Tanto o modo como Anastasia entra nos jogos sexuais de Grey quanto a maneira como esses jogos se desenrolam giram em torno do controle que o empresário tem sobre ela.

Anastasia é jovem, insegura, ainda está se formando como pessoa. Quando conhece Grey, passa a construir sua identidade a partir de seus gostos e atitudes. Ela muda porque quer entrar no maravilhoso mundo de regalias do empresário e, para tal, precisa mudar. O desenvolvimento da personagem está intrinsecamente ligado à vontade de Grey.

Ainda sobre isso, é estranho como tantas mulheres acharam tão sexy um homem que exige controlar os detalhes mais particulares da vida da parceira. Querida, quando você precisar assinar um contrato determinando que estará disponível para transar com alguém quando, como e onde essa pessoa quiser, é melhor cobrar pelo serviço.

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Infelizmente, o controle que um homem poderoso ou (mais) seguro exerce sobre uma mulher insegura ou fragilizada não fica só na ficção. Convivi com várias mulheres cujos namorados ou maridos controlavam desde a roupa que usavam até com quem podiam conversar. Também já ouvi muitas vezes um “mas ele é de boa família” ou um “mas ele ganha bem” como justificativa para manter relacionamentos abusivos – conselhos dados, muitas vezes, pelas próprias mães dessas mulheres.

Eu interpreto o frenesi causado por “50 Tons de Cinza” como uma evidência de que ainda achamos interessante – e até tentador – que uma mulher se submeta a um homem para conseguir algo em troca. Christian Grey é mais do que um personagem que gosta de sexo selvagem. Ele é o “bom partido” que muitas mulheres (ainda) querem agarrar.


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí..
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