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Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí

Não é só em Whiplash – estamos todos em busca da perfeição

Baseado na experiência do próprio diretor com um severo professor de bateria, Whiplash entrega muito mais do que um filme envolvente. Ele revela ao público o que acontece nas mais diversas instituições renomadas, desde ligas juvenis até grandes universidades. Chegar ao seu limite, cobrar muito de si mesmo, fazer sempre mais. Esses viraram os mantras vendidos em escolas, reality shows, músicas e, claro, no cinema. A impressão que temos é que quanto mais sofrida a caminhada, quanto mais coisas deixarmos para trás, melhores serão os resultados. O fracasso não é uma opção e, ultimamente, chegar em segundo lugar não é mais motivo de alegria. Mas o que estamos fazendo, afinal de contas? Que doutrina do sofrimento é essa e o quanto ela influencia nossas vidas e modo como lidamos com os outros?


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Não há dúvidas: vivemos em tempos de neurose. É preciso dominar cada vez mais habilidades e executar o maior número de tarefas no menor tempo possível. Jovens de vinte anos arrancam os cabelos porque ainda não realizaram seu sonho dourado, enquanto pessoas de oitenta sentem que ainda não fizeram o bastante. Contudo, por mais que produzam, nunca é o suficiente. Não importa o que façam, há sempre a sensação de que poderiam ter feito mais e melhor.

É claro que ter ambições é algo positivo. Lutar pelos seus objetivos, também. Entretanto, o que percebo é que as pessoas parecem não mais se satisfazer com coisa alguma. Nada nunca está bom o suficiente, nem elas mesmas. Os poucos que se dizem satisfeitos com o que tem ou com o que conquistaram são logo julgados como preguiçosos, acomodados, sem futuro. Muitas sequer têm objetivos pessoais, estão apenas seguindo o roteiro que se espera delas.

Superman falhou.png E ficam mais ou menos assim...

Essa cobrança excessiva é cultuada em diversos ambientes. Para encontrar o próximo Michael Phelps, treinadores levarão seus jovens atletas ao limite físico e psicológico. Apenas os que aguentarem as duras rotinas de exercício, a enorme pressão e a distância dos familiares e amigos serão selecionados para a equipe principal. Essa equipe competirá com outras formadas pelo mesmo processo e, no final da competição, apenas um atleta (ou uma equipe) ocupará o primeiro lugar no pódio. Uma vez ali, o vencedor será alvo da imprensa e do público, todos elogiando o trabalho que o levou até a medalha e como ele foi forte ao passar por todas as etapas.

Ninguém está preocupado em investigar o que acontece com as jovens promessas que ficam pelo caminho. Ninguém procura saber que fim levaram o segundo e o terceiro colocados. Pior ainda: ninguém pergunta ao campeão qual foi o impacto de sua vitória, se ele concorda com tudo que foi feito com ele. Muito menos o procuram alguns anos depois, para saber como está. O máximo que fazem é comentar do sofrimento ou como uma grande honra ou depois que a má fase já passou, como foi o caso de Diego Hypólito. Vítima de uma profunda depressão da qual se recuperou por conta própria, Diego conseguiu conquistar o bronze no mundial do ano passado. Se não tivesse dado a volta por cima, os dramas que vivenciou sequer seriam contados.

Seja o Melhor.png

Essa cultura do “faça mais, faça melhor” chega a seu ápice em um reality chamado Junior Master Chef, principalmente a versão dos Estados Unidos. Crianças entre oito (oito!) e doze anos competem entre si por um prêmio em dinheiro e o título de Junior Master Chef. Avaliados com rigidez por chefs renomados, enfrentam provas de adultos e precisam saber lidar não apenas com as panelas e as exigências, mas com suas próprias limitações. Só tem um probleminha. São crianças. Os jurados criticam seu trabalho como se estivessem falando com profissionais com muitos anos de cozinha. Se mesmo estes têm dificuldade para equilibrar as emoções nesse tipo de jogo, quem dirá crianças tão novas.

O que programas como esse ensinam a toda uma geração? Algo parecido com: “Faça tudo o que te pedirem, não importa quão absurdo, nem que esteja além da sua capacidade. Agarre todos os desafios com determinação e não cometa erros porque cometer erros é falhar e falhar significa que você fracassou”. Aliás, essa é uma palavra popular entre esses programas. Fracasso. Ou então “desastre”, “vergonha”, “decepção”. Mesmo sendo a pessoa mais talentosa da sala, basta escorregar uma vez e ela vai para casa de cabeça baixa, lamentando sua “fraqueza”.

Desonra pra Tu!.jpgDesonra pra tu, desonra pra tua vaca...

Como se a vida fosse assim tão literal. Se as maiores mentes da humanidade tivessem desistido ou se achado um lixo toda vez que fracassassem, não teriam realizado nem 30% do que conseguiram. Será que ser o melhor – ou aparentar ser o melhor – é mesmo o que todas as pessoas querem, não importa o preço a se pagar? Será que ter (o que chamam de) sucesso necessariamente significa ser feliz?

Eu particularmente acredito que a noção de completude varia de pessoa para pessoa. Há aqueles que realmente só serão felizes se forem o melhor dos melhores, e estarão dispostos a abrir mão de muita coisa por isso. Desde que não terminem tal qual um Senhor Scrooge, é válido. Há aqueles que querem ser os melhores, mas que sabem separar um tempo para o lazer. Há quem queira fazer a diferença. Há quem sonhe em ter o próprio negócio e quem prefira cuidar da casa, os que lutam por alguma causa e os que vivem pelos pequenos momentos. São visões de felicidade diferentes, que devem ser respeitadas.

O fato de vivermos essa cultura do sofrimento e da exigência não significa que devemos obedecê-la cegamente, só porque é isso que a televisão e as revistas chamam de plenitude. Exigir de si mesmo é diferente de torturar a si mesmo – e, acreditem, isso vem de uma pessoa competitiva que também está aprendendo a se cobrar menos.

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Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.
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