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Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.

Precisamos falar sobre os príncipes

Em tempos em que remakes buscam novas formas de retratar as clássicas princesas, um elemento nessa fórmula vem sendo muito pouco discutido: os príncipes. Será que a imagem que se consagrou a respeito deles perdeu a utilidade para uma nova geração de crianças e animações?


Montagem Príncipes.jpg

Ah, os filmes que fizeram parte da nossa infância. Dentre uma gama de produções, obviamente um estúdio se destaca dos demais: a Disney. Com tantas histórias sobre caráter e companheirismo, muita gente acha que os longas do Tio Mickey têm lições a ensinar às crianças. No caso dos filmes de princesas, lições para meninas. Mas a parte engraçada é que a Disney nunca se propôs a abordar questões relativas a um único gênero. Por que, então, ensinamos as meninas a aprenderem com a benevolência da Cinderela e a coragem da Pocahontas, mas não ensinamos os meninos a aprenderem com a gentileza do Eric ou a bondade do Aladdin?

Vamos a uma rápida análise dos príncipes, a começar pelo primeiro do estúdio, Ferdinand. Nos anos 30, não era fácil fazer um personagem masculino beijar uma pombinha e fazê-la voar até sua amada. A icônica cena foi considerada delicada demais, não parecia "coisa de homem". O mesmo vale para o príncipe da Cinderela simplesmente tê-la deixado escapar do baile ou para as cenas de dança e cantoria do príncipe Philip.

Trinta anos depois, princesas e príncipes ganharam uma abordagem mais atual. E então chegamos ao primeiro dessa nova leva: Eric. Interessantemente, o personagem é dono de várias listas na internet dedicadas a pontuar os motivos pelos quais ele seria gay. Duas “evidências” são sempre presentes:

1) Ele não encara o bumbum da Ariel quando ela se debruça na charrete.

Dat ass.gif

Eu não sei vocês, mas se um dia eu ficar pendurada numa carroça quero mais é que o sujeito do meu lado me ajude ou pelo menos veja se eu estou bem...e não que aproveite pra dar uma olhada na minha bunda.

2) Ele vira o rosto quando Ariel tenta beijá-lo.

Eric recusa beijo de Ariel.gif

Ok, vamos ao contexto: Eric não sabe que Ariel é a jovem que salvou sua vida, sendo que ele acredita que essa jovem é sua alma gêmea. Só que o príncipe também está começando a gostar da sereia. Ou seja, ele está dividido. Ou seja, não beijar Ariel é um modo de ser honesto, com ela e com seus sentimentos. Afinal, ele acredita que esse beijo deveria ser dado em outra pessoa. O fato de Eric ser homem significa que ele é obrigado a aceitar qualquer afeto vindo de uma mulher, mesmo que isso vá contra seus princípios ou sua vontade?

Em suma, os argumentos dessas listas são: qualquer atitude gentil ou resignada de um personagem masculino em relação a um personagem feminino o deixa menos másculo e, no caso, menos hétero. E aí um personagem me vem à cabeça: Gaston.

Eis o perfeito estereótipo do machão. Gaston não tem tempo para sentimentalismo, nem se incomoda em obter o consentimento de Bela. Aliás, ele a vê muito mais como um troféu para sua vaidade do que como uma pessoa. Fico me perguntando se é nesse referencial de homem que tais listas se baseiam. Realmente, se isso é o que se espera do comportamento masculino, Aladdin e cia estão longe do padrão.

Gaston.gif Olhem e aprendam

No mesmo filme temos Adam, mais conhecido como Fera. Ele não ficava muito atrás de Gaston nos quesitos egoísmo e grosseria, mas ainda havia alguma coisa boa dentro dele. Essa parte bondosa é revelada quando ele decide resgatar Bela de uma alcateia faminta, chegando a se machucar no processo. É então que os dois começam a se entender melhor e, com o tempo, a convivência com a jovem vai fazendo o lado doce do príncipe se revelar.

O engraçado, porém, é que entre os garotos essa transformação da Fera em um cara legal é vista como uma espécie de derrota: sua “masculinidade” foi embora junto com seus antigos hábitos. O mesmo acontece quando John Smith dá razão a Pocahontas ou Shang aceita ser liderado por Mulan. Então, o que para meninas e mulheres em geral é visto como uma progressão, para boa parte dos meninos e homens seria uma humilhação.

Mas aí eu me pergunto: por que ensinamos às meninas que é legal ser uma Bela (ou seja, perceber que alguém tem qualidades e encorajar essa pessoa a mostrá-las), mas não ensinamos aos meninos que o fato do Adam querer se tornar alguém melhor também é positivo? Ou que não tem nada errado em seguir as ideias ou a liderança de uma mulher? Por que toda a “lição de moral” do filme é jogada sobre as meninas, mas não parece ser compartilhada com os garotos? Simples. Porque achamos que essas lições não valem para eles. São as meninas que devem aprender – inclusive com os personagens masculinos.

Bela mea culpa.gif Tudo eu, tudo eu...

A Disney é uma empresa e, como tal, quer vender. Por isso seus filmes nunca vão apresentar situações ou caracterizações que o grande público não seja capaz de abraçar. Não quer dizer que suas criações sejam ruins, nem que nenhuma delas tenha algum posicionamento. Mas grande parte do material produzido pela Disney – ou qualquer grande estúdio – vai utilizar aquilo em que a sociedade já acredita para entretê-la. Acontece que, de uns dez anos para cá, a Disney vem operando com um cunho de marketing cada vez mais forte. E a representação masculina nos filmes de princesas foi uma das mais afetadas por ele.

Se, no senso comum, a imagem dos príncipes gera debate/revolta e mulheres declamam que “nenhum homem presta” ou que elas "têm que fazer tudo sozinhas”, os filmes incorporam esses discursos e oferecem:

- Um novo Príncipe Philip (“Malévola”): Facilmente substituível por uma alface.

- Naveen (“A Princesa e o Sapo”): Imaturo, fanfarrão, não é bom em coisa alguma e precisa que a Tiana lhe dê tanto um objetivo quanto uma lição de vida.

- Eugine/Flynn Rider (“Enrolados”): Indiferente e trapaceiro, termina sendo arrastado para o bom caminho pela Rapunzel.

- Kristoff (“Frozen”): Dono de uma música inteiramente dedicada a dizer o quanto ele é esquisito, fedorento, antissocial, etc e que afirma que ele precisa de “alguns reparos” com “um pouquinho de amor” da Anna.

Tais personagens acabam reforçando a velha ideia de que a mulher deve aceitar as (poucas) qualidades do parceiro e relevar seus (muitos) defeitos – o que é bastante conveniente para o lado masculino. Ou que ela precisará "lapidar" o sujeito, reforçando outra antiga ideia sobre a "função" (quase maternal) da mulher em um relacionamento. O problema é que as princesas continuam tendo mais virtudes do que falhas. Já seus pares...

Naveen inútil.gif É, Naveen, tá difícil...

O último dessa contagem é Hans (“Frozen”), um deleite para os que defendem que a única possibilidade de um cara legal cruzar o seu caminho é se ele tiver intenções cruéis e egoístas.

E aí vem um pessoal me dizer que, se as mulheres foram retratadas como personagens mais fracos por tanto tempo pelo cinema, é justo que agora seja a vez dos homens.

Jasmim pera.gif Hum, pera...

Em primeiro lugar esse pensamento revanchista só serve para repetir os mesmos erros (até porque os primeiros príncipes da Disney são bem caídos). Segundo, criar personagens masculinos insossos não é necessariamente o melhor jeito de construir personagens femininos interessantes. Faz parecer que a força da protagonista vem da fraqueza do restante do elenco, não dela mesma.

Tomemos Mulan como exemplo. Sem dúvida ela tem um papel de destaque e as ações principais da trama giram ao seu redor – nada diferente do esperado num filme que ela protagoniza. O que não quer dizer que os personagens masculinos sejam figurativos. Pelo contrário, são tão carismáticos quanto petulantes, e ela precisa enfrentar o preconceito de TODOS eles, sobretudo Shang. Conforme convive com o talento da jovem guerreira, o comandante (e os demais companheiros de Mulan) muda disso:

Shang - I'll make a man out of you.gif

Pra isso:

Quem te viu, quem te vê, hein?

Já a partir de “A Princesa e o Sapo”, percebemos uma simplificação masculina cada vez maior. Ou eles têm bom coração e mais nenhuma qualidade além disso ou eles são os responsáveis por todo o sofrimento das mulheres do filme.

Malévola.gif Sabe, Malévola?

Acredito que um caminho mais interessante para esses filmes seria empoderar seus personagens femininos sem criar um desnível tão grande em relação aos masculinos. Não é que a princesa tenha que acabar com alguém no fim da história ou precise ser resgatada. Nem se trata de ressuscitar as donzelas vítimas das circunstâncias, com príncipes que funcionam como a solução de qualquer problema. É dar papeis mais interessantes a esses personagens complementares, construí-los melhor. Muitas vezes o sujeito é tão insignificante e imaturo que não faz o menor sentido a garota se apaixonar (ou mesmo simpatizar) por ele. Se é pra ter um par romântico, que esteja à altura da protagonista né?

Ariel Sim.gif

Um exemplo é o príncipe Philip, em Malévola. Ele poderia ter redimido sua inutilidade se *SPOILER* na cena em que Aurora liberta as asas da fada, ele a tivesse ajudado a abrir a tranca (qual é, ele tinha uma espada). Pronto, uma única cena, na qual estariam resumidos o bom senso e a consideração que se esperariam do personagem. Mas é claro que não foi isso que aconteceu e o filme entregou um Philip tão insosso que seria mais jogo nem colocá-lo na história. Melhor do que simplesmente reproduzir/fortalecer a falácia de que homens são “naturalmente” apáticos e somem nas horas decisivas.

Aliás, não é estranho a Aurora terminar o filme dando mole pro sujeito que não fez absolutamente nada enquanto ela corria perigo de vida? Assim, só dizendo...

Philip comemora.gif Fui um inútil e ainda me dei bem. Valeu, Disney!

O problema com o atual enfoque é que a culpa, mais uma vez, recai sobre a mulher. Afinal, se nenhum homem é confiável, ela devia saber disso. Consequentemente, se ela sai com um cara que não era tão legal quanto parecia, o julgamento maior não é em relação ao sujeito que foi um babaca, mas à mulher que não percebeu que ele era babaca.

Megara Qual o problema comigo.gif E aí amigos e familiares vão deixá-la desse jeito

Já que ser egoísta e imaturo é inerente a qualquer homem, então eles não podem ser culpabilizados por agirem de tal modo, muito menos por não mudarem seu comportamento "natural". A culpa, então, é da mulher. A culpa é dela por achar que um homem pode ser decente. Ou por ter acreditado em uma fala melosa. Ou por estar sozinha porque se recusa a beijar sapo. Por que condenamos tanto as mulheres que elevam suas expectativas e simplesmente não aceitam a (conveniente) desculpa de que “não tem coisa melhor por aí"? Principalmente: quando vamos parar de exigir que as mulheres sejam menos “ingênuas” e passaremos a cobrar que os homens sejam menos egocêntricos e insensíveis?

Er, foi mal.gif Pô, assim você quebra a gente...

Em vez de ensinar às meninas que sujeitos sensíveis e gentis simplesmente entraram em extinção, deveríamos ensinar aos meninos a serem mais sensíveis e gentis, inclusive através de personagens masculinos que têm essas características. É legal seguir as ideias de uma mulher, é legal tratá-la com respeito, é legal demostrar suas emoções sem medo de parecer “menos homem”.

Meu ponto aqui é que os príncipes tradicionais da Disney ou de qualquer outro estúdio não são um problema. Na verdade, eles são uma oposição à brutalidade que tomamos como inerente ao "masculino", enquanto Merida e semelhantes são oposições à fragilidade que se espera do "feminino". Ou seja, é tudo uma questão de aproveitar o que esses personagens têm de positivo. Se é para ter príncipes e princesas no roteiro, então que sejam igualmente bem explorados. Por mais princesas (e não-princesas) bem resolvidas e por mais príncipes (e não- príncipes) que nem roubem a cena nem sumam nos bastidores. E viva esse remake da Cinderela \o/

Cinderella.gif Diálogos significantes. Vou até girar de alegria!


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí..
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